23:31 12 Abril 2021
Ouvir Rádio
    Brasil
    URL curta
    Por
    COVID-19 no Brasil em meados de janeiro de 2021 (97)
    10312
    Nos siga no

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o infectologista e especialista em saúde pública Gerson Salvador avalia o risco de falta generalizada de oxigênio pelos hospitais do Brasil e fala sobre o tratamento precoce contra a COVID-19: "É um engodo".

    Após o colapso da rede de saúde de Manaus, o secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêlo, alertou os outros estados do Brasil sobre o risco da falta de oxigênio generalizada pelo país. Nesta terça-feira (19), outros dois municípios registraram mortes em decorrência da falta de oxigênio: foram sete mortos em Coari, no Amazonas, e seis óbitos em Faro, no Pará.

    Segundo Gerson Salvador, infectologista e especialista em saúde pública, há duas possíveis causas para a crise de falta de oxigênio na rede de hospitais pelo Brasil: a incompetência no provisionamento de insumos diante de uma pandemia e a economia em gastos essenciais para a vida dos cidadãos brasileiros – como o oxigênio em hospitais.

    "A gente tem um governo federal que, num local onde as pessoas estão morrendo asfixiadas com falta de oxigênio, oferece ivermectina, que é remedio pra verme, e cloroquina, que é remedio para malária. [...] E vivemos um colapso de financiamento do SUS [Sistema Único de Saúde], que ficou agravado pelo teto de gastos aprovado no governo Temer, e é uma crise que só tem piorado", avalia Salvador.
    Ambulância posicionada para a recepção de pacientes diagnosticados com Covid-19, transferidos da cidade de Manaus, no Amazonas, durante desembarque em avião da FAB (Força Aérea Brasileira) no aeroporto Senador Petrônio Portella, na cidade de Teresina, nesta sexta-feira (15).
    © Folhapress / Agif/Folhapress
    Paciente com COVID-19 chega a Teresina (PI), após ser transferida de Manaus (AM), cidade que enfrenta colapso no sistema de saúde

    O estado do Amazonas sabia, desde novembro, que a quantidade de oxigênio hospitalar disponível seria insuficiente para atender a alta demanda provocada pela pandemia de COVID-19. A informação consta de um projeto básico, elaborado pela secretaria de Saúde do estado, para a última compra do insumo, realizada no fim do ano passado. A White Martins, fornecedora de oxigênio, informou que, se o contrato tivesse previsto um pedido maior na oportunidade, a empresa teria conseguido atendê-lo.

    Além disso, o governo federal também sabia, pelo menos desde o início de janeiro, quando o ministro da Saúde Eduardo Pazuello esteve em Manaus, sobre a situação crítica da rede hospitalar no Amazonas.

    Portanto, o que faltou, segundo Salvador, foi um planejamento adequado.

    "Claramente o governo não observou o crescimento de casos desde o final do ano de 2020, a partir de novembro, dezembro, que já mostrava que ia testar a capacidade assistencial. Não houve o provisionamento adequado", afirma o especialista.

    Salvador lembra que esta não é a primeira vez que faltaram insumos para os hospitais públicos durante a pandemia de COVID-19. Houve, por exemplo, a falta de anestésicos e outros medicamentos para o procedimento de intubação. No Rio de Janeiro, pacientes morreram em decorrência da falta destes insumos.

    Atualmente, além do aumento de casos de COVID-19, o especialista destaca que o oxigênio tem sido utilizado por vários outros pacientes, que sofrem com pneumonia, asma e insuficiência cardíaca, por exemplo. "As crianças prematuras, procedimentos cirúrgicos, procedimentos de emergência de infarto, cirurgias de trauma e inúmeros outros casos também exigem o oxigênio", diz o médico. Diante da situação, o infectologista faz um alerta para todos os estados.

    "Frente a este crescimento de demanda, é importante que os estados atentem para isto e se organizem para prover insumos no geral, inclusive oxigênio", diz Salvador.
    Agente da Saúde se emociona durante colapso no sistema de saúde do estado do Amazonas, no hospital Getúlio Vargas, Manaus, 14 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Bruno Kelly
    Agente da Saúde se emociona durante colapso no sistema de saúde do estado do Amazonas, no hospital Getúlio Vargas, Manaus, 14 de janeiro de 2021

    'O tratamento precoce é um engodo', afirma especialista

    Apesar de diversas pesquisas que comprovam que as drogas ivermectina e cloroquina não têm qualquer eficácia contra a COVID-19, diversos médicos em todo o Brasil seguem receitando as medicações. Afinal, elas têm alguma chance de eficácia? Salvador garante que não.

    "O tratamento precoce é um engodo. Diversos estudos demonstram que estas drogas não são eficazes contra a COVID-19. Lamentavelmente, o Conselho Federal de Medicina se omite, deixando para o médico escolher como tratar os pacientes", diz o infectologista.

    Segundo ele, outras entidades, como a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e a Associação Médica Brasileira publicaram comunicados contra o tratamento precoce com estes medicamentos.

    "Os médicos que estão prescrevendo estes remédios ou estão desinformados ou têm interesse político em apoiar as medidas do governo", avalia Salvador.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    COVID-19 no Brasil em meados de janeiro de 2021 (97)

    Mais:

    Com indefinição, avião que buscaria vacina na Índia vai levar oxigênio para Manaus
    'Governo está fazendo além do que pode', diz Mourão sobre colapso da saúde em Manaus
    Melhores fotos de semana em que Brasil sofre com agravamento da crise sanitária em Manaus
    PGR abre investigação para apurar omissão de governos do AM e Manaus
    'Venezuela tenta aprofundar laços com o Brasil ao enviar oxigênio para Manaus', avalia especialista
    Tags:
    saúde, médico, vírus, entrevista, Amazonas, Manaus, novo coronavírus, pandemia, COVID-19
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar