14:34 27 Setembro 2021
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    Brasil luta contra COVID-19 no final de dezembro (60)
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    Fim do pagamento do auxílio emergencial e alta dos casos da COVID-19 vão causar um forte impacto na questão sanitária e econômica do país, disseram especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil.

    A Caixa Econômica pagou nesta terça-feira (29) a última parcela do benefício para 3,2 milhões de brasileiros. Diante da chegada da epidemia do coronavírus ao Brasil, em março, o governo relutou em conceder algum tipo de bolsa para a população. Inicialmente, a proposta da equipe econômica era um auxílio de R$ 200. Após pressão do Congresso e da sociedade civil, o benefício passou para R$ 600 e começou a ser pago em abril. 

    O valor integral foi pago até agosto. De setembro até dezembro, o benefício passou para R$ 300. A bolsa beneficiou 67,9 milhões de pessoas e o governo gastou cerca de R$ 300 bilhões. 

    Para a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o "fim do auxílio vai ter um impacto muito negativo na saúde e nas medidas de prevenção na disseminação do coronavírus". 

    "Muitas pessoas vão ter dificuldades de ter suas necessidades básicas de alimentação e moradia atendidas. A COVID-19 aprofundou nossas desigualdades", disse a pesquisadora à Sputnik Brasil. “As medidas de prevenção dependem da aquisição de máscara, álcool gel e mesmo sabão para fazer a limpeza das mãos”, acrescentou a especialista. 

    'Quando você tem que lutar pela sobrevivência'

    O governo chegou a discutir a criação de programas sociais alternativos para diminuir o impacto do fim do auxílio emergencial, como o Renda Brasil, mas as discussões não deram resultado. 

    "Quando você tem que lutar por sua sobrevivência, fica muito difícil pensar em outras questões", alertou a epidemiologista.

    Até o momento, a única alternativa do governo Bolsonaro é o retorno para o Bolsa Família das famílias que migraram para o auxílio emergencial. O programa atende 19,2 milhões de pessoas. 

    O Ministério da Cidadania trabalha com um aumento do benefício de R$ 192 para R$ 200. Além disso, há planos de incluir mais 300 mil famílias no projeto. O orçamento do programa para 2021 é de R$ 34,8 bilhões. 

    Movimentação em agência da Caixa Econômica na cidade de Curitiba (PR), para recebimento do auxílio emergencial pago pelo governo.
    © Folhapress / Eduardo Matysiak/Futura Press
    Fila para o recebimento do auxílio emergencial em frente à agência da Caixa Econômica Federal. Última parcela do benefício, que começou a ser concedido em abril, foi paga no dia 29 de dezembro

    Agravamento da pobreza

    Segundo especialistas, no entanto, o reajuste do Bolsa Família e o número de pessoas atendidas é pequeno diante da crise econômica que se avizinha. 

    "A tendência é de que a gente tenha um quadro bastante agravado de pobreza a partir do mês que vem. Milhões de pessoas estarão sem recursos daqui para a frente e, ao mesmo tempo, a pandemia voltou a crescer. O que a gente está vendo são novos fechamentos e empregos demorando para serem recuperados. Um problema grave que afeta todo mundo, não só quem recebe o auxílio, como o produtor daquilo que é consumido pelas famílias beneficiadas", disse à Sputnik Brasil o presidente da Rede Brasileira de Renda Básica, Leandro Ferreira. 

    Segundo o ativista, o governo não levantou alternativas para o fim do auxílio e esse "imobilismo" acabou "paralisando" as discussões na sociedade e entre parlamentares. 

    "Todo mundo apontou que será um desastre a partir de janeiro. Mas a bola estava com o governo", criticou Ferreira. 

    Prorrogação do estado de emergência

    Um dos motivos que impede a prorrogação do auxílio é a não extensão do estado de calamidade, que possibilitou a criação do chamado orçamento de guerra e o não cumprimento de regras fiscais estabelecidas pelo próprio governo. 

    Para Ferreira, além da compreensão de que a "pandemia não acabou, o que possibilitaria a extensão do período de emergência, a transferência de renda é uma boa medida - que diminui a desigualdade e a pobreza, por isso é importante a revisão de regras fiscais que impedem a expansão de programas sociais como o Bolsa Família mesmo em outros períodos". 

    "Mas diante do cenário de emergência, o auxílio é fundamental", afirmou Leandro Ferreira. 

    Questão fiscal

    Mesmo economistas que defendem a necessidade do ajuste das contas públicas reconhecem a importância do pagamento de algum tipo de benefício e da tempestade que pode chegar a partir de janeiro no Brasil. 

    "A questão fiscal vem de antes da pandemia e mesmo de outros governos. O Brasil tinha um grande problema em fechar essa conta e vinha fazendo algumas reformas, como da Previdência. Mas, com a chegada do coronavírus, tudo isso foi deixado de lado e foi feito o auxílio emergencial, que ajudou a atenuar um momento muito complicado ao longo de 2020", disse à Sputnik Brasil o economista Rodolpho Tobler, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

    O especialista menciona o fim do estado de emergência, que termina nesta quinta-feira (31), e alerta que isso pode acarretar o rompimento do teto de gastos. 

    "Qual o problema de furar o teto? É uma sinalização muito ruim de como o governo estaria contornando a política econômica, e isso pode trazer desdobramentos estruturais a longo prazo, como aumento do desemprego, da inflação e piora do poder de compra das pessoas", afirmou Tobler. 

    Clareza, vacina e benefício

    Por outro lado, ele diz que o "início de 2021 será um período difícil para as pessoas que recebiam o auxílio", e a redução da crise "vai depender do andamento da economia e de uma recuperação muito forte do mercado de trabalho". 

    Tobler afirma que, diante do cenário incerto e do aumento de casos, o governo poderia adotar um novo orçamento de guerra e, "aí sim, pensar em novos benefícios". 

    "O que se espera do governo é uma maior clareza. Existem muitos obstáculos para 2021, mas alguns pontos podem ajudar a acelerar a recuperação da economia, assim como a confiança do empresário para investir e da população a consumir. Um deles é a vacina e um calendário organizado. Outro ponto seria tentar algum tipo de reajuste de benefícios sociais que possam atenuar a saída do auxílio emergencial", opinou o economista da FGV.
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    novo coronavírus, COVID-19, pandemia, economia, saúde, governo, teto de gastos, benefícios
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