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    Brasil luta contra COVID-19 no final de dezembro (60)
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    O Índice de Confiança da Indústria (ICI), divulgado ontem (28) pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV, registrou em dezembro o maior valor desde maio de 2010. Para compreendermos a importância deste índice para economia brasileira, a Sputnik Brasil conversou com Renata de Mello Franco, economista que conduziu a publicação.

    Segundo informações do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), o Índice de Confiança da Indústria (ICI) registrou em dezembro o maior valor desde maio de 2010, quando ficou em 116,1 pontos.

    Com o avanço de 1,8 ponto neste mês, o ICI atingiu 114,9 pontos e fechou o quarto trimestre de 2020 com média de 113,1 pontos, 14,7 pontos a mais do que a média do terceiro trimestre, que ficou em 98,4.

    O aumento da confiança foi verificado em 12 dos 19 segmentos industriais pesquisados em dezembro, sendo que 17 deles ficaram acima do nível registrado em fevereiro, antes da pandemia de COVID-19 chegar ao Brasil. O Índice de Situação Atual (ISA) avançou 1,7 ponto, chegando a 119,9 pontos, o maior valor da série. Já o Índice de Expectativas (IE) também subiu 1,7 ponto, para 109,6 pontos, o maior valor desde maio de 2011.

    Para entendermos a importância destes indicadores para economia nacional, a Sputnik Brasil conversou com Renata de Mello Franco, economista da FGV e coordenadora do estudo publicado na última segunda-feira (28). Renata Franco entende que o resultado da publicação causou surpresa para o setor industrial, "porque mostra uma recuperação muito acentuada no nível de confiança na indústria".

    Faturamento e horas trabalhadas na indústria brasileira aumentam em novembro
    Reprodução/CNI
    Faturamento e horas trabalhadas na indústria brasileira aumentam em novembro
    Ela sustenta que o Índice de Confiança da Indústria de Transformação "encerra o ano com um desempenho surpreendente, após atingir o fundo do poço em abril". Para o setor industrial do Rio de Janeiro, por exemplo, os piores meses do ano foram abril, quando foram fechadas 19 mil vagas, e maio e junho, quando o saldo do setor foi de 11 mil e dois mil trabalhadores a menos, respectivamente. A economista da FGV relembra que no início da pandemia, "nós tivemos o menor nível de nossa série histórica". 

    Até agora, a recuperação na indústria brasileira tem sido bastante heterogênea. A produção total do setor, em setembro, superou em 1,1% o registrado em fevereiro deste ano, último mês antes do novo coronavírus desembarcar no país. Com as medidas de isolamento social adotadas para conter o contágio da doença, em abril a produção chegou a ficar 31,3% abaixo do verificado dois meses antes.

    Porém, após detectar a recuperação que jamais foi vista, muito em função do fechamento abrupto de indústrias nos primeiros meses em que a COVID-19 infectou trabalhadores no Brasil, Renata fala sobre alguns detalhes importantes desta retomada. Por exemplo, "os empresários estão satisfeitos, principalmente nos segmentos da indústria pesada".

    A economista afirma que o estudo também revela que nosso indicador de estoques está elevado, "o que significa que a maior parte da indústria de transformação está com estoques baixos. É possível ver também que o indicador de demanda está com um nível muito alto, mostrando aceleração da demanda. Esses dados provam que a demanda neste mês de dezembro está melhor do que o esperado, principalmente comparado com os últimos meses".

    ​A indústria de transformação é o setor que transforma matéria-prima em um produto final, ou intermediário para outra indústria de transformação. Fábricas que transformam aço em máquinas ou ferramentas, assim como a produção agroindustrial que transforma cana em açúcar, são alguns exemplos.

    Vale lembrar que, em outubro, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) informou que o faturamento da indústria de transformação brasileira retornou ao nível pré-pandemia. O número de horas trabalhadas e a remuneração média do setor, contudo, ainda não reverteram todas as quedas sofridas diante do novo coronavírus.

    Funcionários trabalham no corte e processamento de carnes em frigorífico na cidade de Pirassununga
    © Folhapress / Celio Messias/Uaifoto
    Funcionários trabalham no corte e processamento de carnes em frigorífico na cidade de Pirassununga

    Para Renata, "o cenário ruim da pandemia, na visão desses empresários, já teria acabado. Eles esperam que a produção nos próximos três meses continue melhorando, acelerando. Há mais empresas também esperando aumentar o número de pessoal ocupado, e isso é uma sinalização boa para os empregos e para o mercado de trabalho".

    O estudo da FGV também revelou o otimismo dos empresários com o ambiente de negócios nos próximos seis meses, que passou de 104,4 pontos para 106,8 pontos. É o maior valor desde abril de 2013, quando o indicador ficou em 107,9 pontos. A parcela de empresas que preveem melhora passou de 49,0% para 51,2%, e as que projetam piora caíram de 8,2% para 7,8%. O indicador de produção prevista subiu 1,6 ponto, e o de emprego aumentou 0,8 ponto.

    ​Diante de um país com desemprego na ordem de 14% da população, em meio aos problemas da COVID-19, e com a demora na execução do um plano de vacinação, Renata Franco nos explicou o que justifica o otimismo dos empresários brasileiros.

    "Sobre o sentimento do empresariado sobre negócios para os próximos seis meses, eles não estão tão confiantes quanto agora, no mês de dezembro. Isso prova que há uma expectativa muito grande para o primeiro trimestre, mas há também cautela. Essa cautela é um indicativo de que as medidas que forem tomadas para contenção da pandemia logo no início do primeiro trimestre do ano que vem, serão importantes para condução dos negócios, principalmente para o setor industrial", afirmou.

    De acordo com a economista, "é importante frisar que indústria não é setor de serviços. Muitos segmentos do setor industrial foram considerados essenciais, e tiveram que continuar operando. Isso é muito perceptível, por exemplo, no segmento de alimentos, que cresceu muito, e da indústria de bebidas e móveis. Nós vimos também que a indústria sofreu bastante, como o setor de veículos. Por isso, um plano de vacinação é fundamental. Se o setor de serviços voltar a operar normalmente, gerando empregos e renda, haverá demanda para a indústria, e a tendência é que a recuperação seja maior ainda".

    Programa Inovar, da indústria automobilística, é um dos questionados pela OMC
    Comunicação Volkswagen do Brasil/Fotos Públicas
    Programa Inovar, da indústria automobilística, é um dos questionados pela OMC
    Ao citar o setor de veículos, Renata Franco se refere aos resultados divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que em setembro desde ano avaliou que os segmentos de veículos automotores e vestuário ainda não conseguiram recuperar o patamar do início do ano. No acumulado do ano em comparação com 2019, eles apresentavam queda de 36% e 31,6%, respectivamente.

    Falando de mercado de trabalho, a pesquisa da FGV revela que o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) mostrou aumento relevante, voltando, após mais de cinco anos, a patamar próximo à sua média histórica. Apesar de uma queda de 0,4 ponto percentual, para 79,3%, o segundo mês seguido com resultado negativo, a média do Nuci do quarto trimestre ficou em 79,6%, 4,3 pontos percentuais acima da média do terceiro trimestre.

    O Nível de Utilização da Capacidade Instalada é compreendido pela relação entre o volume efetivamente produzido pela indústria e o que poderia ser produzido, caso os equipamentos estivessem operando em plena capacidade. Ao ser questionada sobre de que forma uma melhora deste índice beneficia o mercado de trabalho no Brasil, Renata Franco respondeu "que em um momento em que os empresários estão mais confiantes, isso sugere que ano que vem os eles voltam a investir em capacidade produtiva".

    Operária da indústria têxtil numa fábrica especializada em fios e malharia para moda íntima, praia e fitness em Fortaleza, Ceará
    Operária da indústria têxtil numa fábrica especializada em fios e malharia para moda íntima, praia e fitness em Fortaleza, Ceará

    "Ele [Nuci] volta para cerca de 79% e chega a um nível muito perto de sua média histórica. Com os investimentos em capital aquecido, o setor de bem de capital cresce. Com os empresários investindo para aumentar sua produção, teremos mais pessoas empregadas. É uma notícia boa, e sugere que os empresários, se continuarem confiantes, teremos boas notícias para o nosso mercado de trabalho".

    Em outubro, o IBGE confirmou uma melhora no ambiente do mercado de trabalho e revelou que, na análise por setores, a ocupação no Brasil cresceu em quatro dos dez seguimentos analisados. Houve melhora do emprego na agricultura (alta de 3,8%), indústria (3%), construção (10,7%) e comércio (alta de 4,4%).

    "Em termos de produção industrial, o que foi visto em abril, de fechamento de fábricas, mesmo se tivermos uma segunda onda, isso não deve acontecer de novo. As indústrias estão bastante adaptadas, principalmente com relação aos protocolos de segurança. Se não tivermos um plano de vacinação, se der tudo errado, provavelmente não chegaremos ao fundo do poço, como em abril de 2020", afirma a economista.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Brasil luta contra COVID-19 no final de dezembro (60)

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    Tags:
    economia, recuperação fiscal, indústria nacional, indústria têxtil, agroindústria, indústria, economista, empresários, COVID-19
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