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    Brasil luta contra COVID-19 no final de dezembro (60)
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    Para Simon Schwartzman, o essencial é perceber que a taxa vai melhorar com o fim da pandemia e que há consequências mais importantes no cotidiano da população.

    Pela primeira vez desde 1940, a expectativa de vida do brasileiro vai cair. E o fator que mudou um quadro evolutivo de 80 anos é algo que está no nosso dia a dia desde março: a pandemia da COVID-19. Mas talvez haja uma boa notícia dentro da má, ao menos para o sociólogo Simon Schwartzman.

    "A pesquisa não surpreende porque o número de mortos é alto mesmo. E ele atinge em especial uma população mais idosa, ou seja, algo que não é um fator de longo prazo. E é importante entender que o dado não é eterno. É algo transitório, daqui a um ou dois anos ele volta ao normal", disse Schwartzman em entrevista para a Sputnik Brasil.

    A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que Schwartzman conhece bem: ele presidiu o órgão entre 1994 e 1998. A principal conclusão, informou o jornal O Estado de São Paulo, é que a expectativa de vida do brasileiro ao nascer vai cair pelo menos em um ano por causa das quase 192 mil mortes e talvez chegue a dois anos dependendo de como será a vacinação no país em 2021.

    Em novembro, o Instituto divulgou que a expectativa tinha chegado a 76,6 anos. Um número significativo quando se lembra que em 1940 a projeção era de 45,5 anos.

    "Há várias explicações para a melhoria, especialmente a contenção da mortalidade infantil e avanços no controle de doenças contagiosas", disse o sociólogo.

    Há algo mais grave

    Mesmo com a queda prevista, a expectativa de vida no país é relativamente alta se comparada com os países de cidadãos mais longevos do mundo, todos de sociedades social e economicamente mais desenvolvidas que o Brasil, como Japão (85 anos) ou França, Espanha, Itália e Austrália (todos acima de 83). 

    E é especialmente alta, também, se considerarmos que o número de vítimas da COVID-19 no país é seis vezes maior do que o número de vítimas de acidentes automobilísticos (30 mil) ou 12 vezes maior do que a quantidade de óbitos por consumo excessivo de álcool (16 mil).

    Para Schwartzman, o dado isolado da expectativa de vida não é a grande questão. Há que se perceber que os efeitos da pandemia são muito amplos, afetam a sociedade não só pelas mortes e internações. A retração da economia é um exemplo prático.

    "Para o país, não acho que seja um problema. Há questões muito mais graves envolvendo a pandemia: o impacto no emprego, na educação, na economia, por exemplo. Isso é bem mais grave do que o idoso que morre antes do previsto. Mas, claro, há o ponto de vista pessoal, de quem sente a perda", comentou o sociólogo diante de uma situação onde mais de 70% da letalidade do vírus recai sobre idosos. 

    O lado educacional, uma das prioridades da carreira de Schwartzman por ter participado em 1985 da Comissão Nacional de Reformulação da Educação Superior Brasileira, entre outras ações, foi muito atingido. A desigualdade educacional voltou a subir durante a pandemia após quatro décadas, por causa das dificuldades que muitos alunos tiveram para estudar, especialmente os de origem humilde.

    "Entre os jovens de seis a 15 anos, a média de estudo durante a pandemia foi de duas horas e dezoito minutos, muito abaixo das quatro horas mínimas exigidas pela Lei de Diretrizes Básicas da Educação", afirmou o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) ao jornal.

    A atitude dos jovens

    Para um profissional que tem como foco estudar a sociedade, Simon Schwartzman entende que houve vários "personagens" na equação pandêmica. Todos atuaram, todos atuam para uma circunstância que leva o Brasil ao 2º lugar no mundo em número de vítimas do novo coronavírus, atrás dos Estados Unidos, e 3º em número de casos, atrás não só dos norte-americanos, mas também da Índia.

    E ele entende também que até há uma lógica, na cabeça dos jovens, para explicar a reação de desapego deles às medidas contra a COVID-19, uma atitude que resultou num aumento de 13% para 20% no número de casos de pessoas entre 15 a 29 anos infectadas entre junho e novembro no Brasil.

    "Há fases desta reação. No começo, no geral a sociedade respondeu, mas o governo atrapalhou muito ao mandar mensagens contraditórias. E sempre houve a pressão de manter a atividade econômica", explicou o sociólogo. "E há fatores também. A reação inicial cedeu espaço para o cansaço, principalmente da população jovem e essa entende que o risco para ela não é grande. Isso, em parte, explica a reação da juventude".

    Por não entenderem que a equação pode ser muito complicada - arriscar perder a vida precocemente por um motivo social - os jovens continuarão sendo em 2021 um fator de preocupação com a COVID-19, até porque essa faixa etária não terá prioridade quando a vacinação em massa começar.

    A rigor, a atitude da população continuará sendo uma questão central da doença. O ritmo e o consequente sucesso de uma vacinação em massa, também. E há várias interrogações sobre a situação da economia brasileira para o próximo ano. 

    "A pandemia vai continuar no primeiro semestre, porque não é possível vacinar todo mundo com essa velocidade. Mas a partir do momento em que os grupos mais de risco forem vacinados e que, de fato, haja resultado na vacinação da população, é provável que haja uma recuperação de atividade econômica e o país fique mais aliviado no segundo semestre. Mas 2021 ainda será difícil", concluiu Simon Schwartzman.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Brasil luta contra COVID-19 no final de dezembro (60)

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    Tags:
    FGV, Brasil, expectativa de vida, IBGE, novo coronavírus, COVID-19
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