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    Ricardo Ismael, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), defendeu em conversa com a Sputnik Brasil que a obrigatoriedade do voto no Brasil deve ser repensada. "Partidos precisam mobilizar eleitores", afirmou.

    Em um balanço das eleições municipais que aconteceram no último domingo (29), o professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Ricardo Ismael, fez uma análise sobre os resultados das urnas e traçou diagnósticos para o futuro do Brasil tendo em vista as eleições presidenciais de 2022.

    Ricardo Ismael apontou as razões e as consequências, em uma primeira observação, daquilo que parece perceptível a todos: o mau desempenho dos partidos progressistas pelo país. Ao fim do pleito do último domingo (29), o total de prefeituras vencidas por partidos de esquerda ficou da seguinte forma: 314 do PDT; 253 do PSB; 183 do PT; 46 do PCdoB; seis da Rede; e cinco do PSOL.

    O cientista político credita alguns fatores a este desempenho da esquerda no Brasil. Para ele, em primeiro lugar, "não houve uma onda bolsonarista, como aconteceu em 2018". Isso representa, segundo ele, que a esquerda concorreu contra candidatos majoritariamente do centro, o que serviu para despolarizar o ambiente político.  

    O vereador Carlos Bolsonaro (direita) com o seu irmão Flávio, senador, em cerimônia de confirmação da vitória do seu pai, Jair Bolsonaro, nas eleições de 2018
    © AP Photo / Eraldo Peres
    O vereador Carlos Bolsonaro (direita) com o seu irmão Flávio, senador, em cerimônia de confirmação da vitória do seu pai, Jair Bolsonaro, nas eleições de 2018
    Outro aspecto é a rejeição de candidatos associados ao PT. Ricardo Ismael sustenta que "eleição municipal não é um plebiscito sobre Bolsonaro, ou qualquer presidente que esteja ocupando a cadeira. Eleição municipal discute problemas locais, como a pandemia de COVID-19, transporte e educação. A crise econômica também é um problema que precisou ser discutido, muito em função das consequências sociais da pandemia". 

    Neste sentido, Ricardo Ismael fez críticas aos nomes dos prefeitos lançados pela esquerda. Segundo ele, faltou renovação.

    "A esquerda teve dificuldades. O PT não ganhou em nenhuma capital, e sofreu derrotas duras, como em Porto Alegre, onde apoiou a Manuela d'Ávila. O Boulos ganhou visibilidade, apesar da derrota. Isso pode ser considerado uma vitória para quem está de olho em 2022, mas é pouco", afirmou.

    Desempenho dos partidos

    O professor Ricardo Ismael fez uma avaliação sobre os principais partidos no Brasil durante as eleições municipais de 2020. Ele considera que "não é possível apontar um partido vencedor nesta eleição. Há uma pulverização muito grande". Porém, ele reconhece o desempenho obtido pelo MDB, que continua sendo o partido com mais prefeituras, em termos de quantidade. O professor também avaliou de modo positivo o desempenho do DEM, que "apresentou um crescimento quantitativo e qualitativo, com prefeituras importantes, como Salvador".

    "O PSD, outro partido de centro, também teve bons resultados, e pode crescer. Já o PSDB teve uma redução de prefeituras, mas venceu mais uma vez em São Paulo, e isso é expressivo. Isso abre caminho para João Dória ser candidato em 2022", afirmou, ressaltando o desempenho de siglas partidárias posicionadas no centro do campo político brasileiro. 

    "Os prefeitos que foram bem avaliados, esses tiveram uma reeleição praticamente assegurada. Tivemos pouco tempo de campanha. Portanto, foi pouco tempo também para os outros candidatos se apresentarem. Isso não significa uma ausência de novas lideranças. Mas o fato é que em uma eleição curta não há tempo para apostas", pontuou.

    Eleitor tira selfie com o candidato à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, na capital paulista, 13 de novembro de 2020
    © REUTERS / Amanda Perobelli
    Eleitor tira selfie com o candidato à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, na capital paulista, 13 de novembro de 2020
    Um dos pontos levantados pelo professor Ricardo Ismael é que a polarização vista em 2018, apesar de não ter se repetido, continua restringindo o espaço dos partidos progressistas no Brasil. Ele entende que esta foi "uma eleição em que os eleitores foram conservadores", porque além da ausência de uma renovação nos nomes apresentados, a oposição teve pouco tempo para planejar uma campanha em função da pandemia.

    A pandemia e as abstenções

    "Diante da pandemia, era esperado um aumento na abstenção, principalmente entre idosos. Mas é bom que se diga que algumas cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, tiveram um número muito elevado de pessoas que foram às urnas para votar branco e nulo. Isso mostra um desestímulo a votar em candidatos que não sejam da sua primeira escolha", disse Ricardo Ismael.

    O professor reconhece que as alternativas apresentadas no segundo turno não foram do agrado dos eleitores. "Isso representa também um desafio para os próximos prefeitos, porque há necessidade de conquistar esse voto para 2022", analisou.

    Ao comentar sobre o alto índice de abstenções, Ricardo Ismael disse que já defendeu "muito o voto obrigatório, principalmente para superar o período da ditadura de 1964".

    Porém, após 30 anos desde a redemocratização, ele acredita que "podemos caminhar para o voto facultativo. Acho que é o momento dessa questão ir para pauta. No Rio de Janeiro, 47% do eleitorado não foi às urnas. Isso mostra que o voto obrigatório não faz com que as pessoas votem. O voto facultativo é o caminho, porque o eleitor precisa ser convencido, seduzido a votar".

    Sobre este tema, o professor ainda fez um apelo: "É preciso tentar estimular o voto do eleitor, e para isso os partidos precisam repensar suas posições, seus líderes precisam abrir espaço para novas lideranças. A esquerda exige nova liderança, e os outros partidos também. O eleitor deve vir às urnas porque está convencido de que as coisas podem mudar", sentenciou.

    Rio de Janeiro

    O cientista político também comentou separadamente algumas das mais acirradas disputas nas eleições deste ano. Ao falar sobre o Rio de Janeiro, Ricardo Ismael entende que um aspecto a se ressaltar é que o Eduardo Paes liderou com folga no primeiro turno, e manteve isso no segundo. "Ele soube administrar essa vantagem porque a questão fundamental no RJ foi a rejeição do prefeito Marcelo Crivella, avaliada em 62%", analisou.

    "Com uma rejeição desta magnitude, seria muito difícil reverter isso. Por outro lado, a memória da gestão de Paes foi muito positiva, porque foi uma época de vacas gordas, com dinheiro do governo federal sendo investido por conta das olimpíadas", concluiu.

    Eduardo Paes, candidato a prefeito no Rio de Janeiro pelo DEM, vota em São Conrado
    © REUTERS / Sergio Moraes
    Eduardo Paes, candidato a prefeito no Rio de Janeiro pelo DEM, vota em São Conrado

    São Paulo

    Já em São Paulo, Ricardo Ismael entende que o prefeito Bruno Covas, que foi vice de João Dória na última eleição municipal, "foi beneficiado pelos critérios de avaliação da população para a COVID-19 e a falta de tempo para oposição se inserir no pleito competitivamente".

    "Outro ponto fundamental é reconhecer que o anti-petismo ainda é muito grande em São Paulo, e o Guilherme Boulos foi associado ao PT e ao campo progressista. O PT está com dificuldades de renovar suas lideranças em São Paulo".

    "Bruno Covas vai enfrentar um grande desafio, que é administrar uma cidade que é um espelho para o país, e durante uma pandemia tudo fica mais delicado, mais difícil. Há a questão da crise econômica, das aulas, enfim. Quem venceu em São Paulo foi o João Dória. Ele sai forte para 2022 e com a possibilidade de uma votação expressiva no estado, que é o maior colégio eleitoral do país", avalia o professor.

    Alegria tucana: ao lado do governador João Doria, Bruno Covas comemora a vitória nas eleições municipais de São Paulo
    © REUTERS / Amanda Perobelli
    Alegria tucana: ao lado do governador João Doria, Bruno Covas comemora a vitória nas eleições municipais de São Paulo

    Porto Alegre

    Ao comentar sobre a eleição em Porto Alegre, Ricardo Ismael apontou que a cidade "possui uma tradição de escolher candidatos de esquerda. Nos últimos anos, porém, o campo do centro-direita foi crescendo".

    Ricardo avalia que Manuela foi uma candidata forte, que contou com o apoio do PT. "Ela foi muito bem na eleição, mas enfrentou a rejeição no segundo turno".

    Recife

    O pleito em Recife, sem dúvida, foi um dos mais disputados nas eleições deste ano. Ao comentar sobre a vitória de João Campos sobre a sua prima Marília Arraes, Ricardo Ismael reconheceu que "a cidade é marcada por prefeitos de esquerda".

    Em Recife, a candidata Marília Arraes (PT), vota de máscara em meio à pandemia da COVID-19, durante as eleições municipais de 2020, em 15 de novembro de 2020
    © Folhapress / Futura Press / Marlon Costa
    Em Recife, a candidata Marília Arraes (PT), vota de máscara em meio à pandemia da COVID-19, durante as eleições municipais de 2020, em 15 de novembro de 2020
    "Há uma tradição política muito forte em Recife.  E isso mais uma vez foi provado nesta eleição, principalmente no segundo turno, entre João Campos, do PSB, e Marília Arraes, do PT. Foi uma disputa empolgante, e nenhum dos dois sai vencido. Marília perde o pleito, mas sai muito maior de que quando entrou. Já o João Campos se torna o prefeito mais jovem nas capitais nessa eleição de 2020. Isso mostra a força de seu nome no estado, que foi reduto de Eduardo Campos, seu pai".

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    análise, eleição, entrevista, PUC, COVID-19
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