08:49 28 Novembro 2020
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    Forças políticas reorganizadas e polarização esfriada, com maior equilíbrio entre centro, direita e esquerda. Este é o cenário da política brasileira após as eleições deste domingo (15), conforme explica especialista à Sputnik Brasil.

    No domingo (15), milhões de brasileiros em mais de 5.500 municípios foram às urnas para escolher prefeitos e vereadores. Nesta corrida eleitoral, os maiores vitoriosos, segundo Maria do Socorro Braga, coordenadora do programa de pós-graduação em Ciência Política da UFSCar, foram os partidos de centro e de centro-direita. Este cenário, segundo a especialista, reflete uma reorganização da força política no Brasil.

    "Desde 1994, víamos uma estabilidade dos principais macroatores da política brasileira. Os partidos mais antigos sofreram bastante em 2018, vimos a desarticulação destes principais atores. Nestas eleições, vemos a reorganização destas forças, voltando a manter maior expressão no sistema partidário", diz Braga. 

    Esta reorganização se traduz em números. Conforme dados reunidos pelo site Poder360, o DEM é o partido que mais ganhou prefeituras nestas eleições: a sigla saltou de 268 prefeitos eleitos em 2016 para 458 – um aumento de 190%. Logo atrás, vêm o PP (com um aumento de 177%) e o PSD (101%), dois partidos que integram o Centrão em Brasília.

    "Os partidos do Centrão, que são vinculados ao presidente Bolsonaro, tiveram um aumento considerável. A direita que se aproxima do Centrão também se fortalece", diz Braga.

    Bolsonaro tem mau desempenho e polarização cai

    Braga explica que, com o fortalecimento das forças de centro, a polarização diminui. Segundo a especialista, enquanto "a extrema-direita sai enfraquecida" destas eleições, a "esquerda volta a ter uma força interessante", ilustrada principalmente pelo crescimento do PSOL, que assume papel de protagonismo na política nacional. 

    Tal conjuntura reflete, segundo Braga, uma diminuição das disparidades de força entre direita e esquerda – mas ainda não se pode falar em igualdade.

    "A polarização foi muito menor, mas não tivemos um equilíbrio de forças, porque a esquerda ainda está mais reduzida. Mas o que se viu foi um retorno da esquerda", argumenta Braga.

    Segundo Braga, a principal razão para a diminuição da polarização foi o mau desempenho de Jair Bolsonaro nestas eleições. Apenas dois dos 13 prefeitos apoiados pelo presidente foram eleitos neste domingo (15), conforme mostram dados do G1.

    "A polarização está bem mais reduzida por conta do desempenho do Bolsonaro nestas eleições. Ele está sem partido, perdeu em muitas cidades [...]. Não foi um bom desempenho. O apoio do presidente não foi forte como foi em 2018 para levar candidatos, muitos deles desconhecidos, à eleição. Em comparação com 2018, Bolsonaro realmente teve muito menor expressão", afirma Braga.
    Em São Paulo, o candidato a prefeito, Guilherme Boulos (PSOL), vota na PUC, de máscara devido à pandemia COVID-19, em 15 de novembro de 2020
    © Folhapress / Danilo Verpa
    Em São Paulo, o candidato a prefeito, Guilherme Boulos (PSOL), vota na PUC, de máscara devido à pandemia COVID-19, em 15 de novembro de 2020

    Dependência do Centrão

    Em virtude do enfraquecimento do presidente e do fortalecimento do Centrão, Braga prevê dificuldades para o governo Bolsonaro nos próximos meses. Segundo a especialista, os resultados das eleições sugerem que o governo vai se apoiar ainda mais nos partidos de centro.

    "O presidente em si, enquanto grupo político, sai enfraquecido destas eleições [...]. Ele vai depender cada vez mais do Centrão. Será uma dependência muito forte destes partidos, que saíram fortalecidos", avalia Braga.

    Diante do novo cenário político, Braga avalia que a provável estratégia a ser adotada pelo governo para conseguir um melhor desempenho nas próximas eleições, daqui a dois anos, será mesmo articular com o Centrão – e adotar medidas que podem ser arriscadas.

    "Isso enfraquece também as possíveis medidas do ponto de vista econômico que são necessárias para que o país saia dessa crise trazida pela pandemia. Vai ser um momento muito complicado do governo [...]. Em 2021 eles terão que repensar e colocar em prática medidas que podem ser muito populares ou populistas", diz Braga.
    Presidente Jair Bolsonaro ao lado do novo ministro da Comunicação, Fabio Faria, cuja nomeação seria fruto das negociações com o chamado centrão
    © REUTERS / Adriano Machado
    Presidente Jair Bolsonaro ao lado do novo ministro da Comunicação, Fabio Faria, cuja nomeação seria fruto das negociações com o chamado 'centrão'

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    extrema direita, direita, esquerda, Jair Bolsonaro, Bolsonaro, eleições, eleição
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