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    Brasil luta com pandemia em meados de maio (78)
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    Dados disponibilizados semanalmente pelo Ministério da Saúde sobre o comportamento da COVID-19 mostram que a população negra já corresponde à maior parte dos mortos pela pandemia no Brasil.

    Se no início, logo quando chegou ao Brasil, o coronavírus era uma doença que acometia sobretudo as classes mais abastadas da população e, por consequência, em sua maioria pessoas brancas, agora esse comportamento se inverteu.

    Os dados do último Boletim Epidemiológico, divulgado pelo Ministério da Saúde, referente à semana entre os dias 3 e 9 de maio, apontam que a população negra no Brasil corresponde a 50,1% das vítimas fatais da COVID-19. Os brancos correspondem a 47,7%.

    Segundo a médica Rita Helena Borret, coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, os negros serem a maioria das vítimas fatais do novo coronavírus se deve ao fato de a população negra ter mais dificuldades de acessar o sistema de saúde.

    "A população negra configura-se como a parcela da população que tem maior risco de contaminação e ao mesmo tempo configura-se como a população que tem maiores dificuldades e barreiras de acesso ao sistema de saúde", disse à Sputnik Brasil

    Um levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 2011, mostrou que a população negra corresponde a 67% de todos os atendimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

    No Brasil também existe a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, instituída pelo governo federal em 2009, que reconhece a existência de racismo e de desigualdades étnico-raciais como determinantes sociais das condições de saúde.

    Apesar de a diferença da mortalidade por COVID-19 entre brancos e negros no Brasil atualmente ser pequena (2,4%), um fator que chama atenção é de que há um aumento exponencial no número de mortes de pessoas negras nas últimas semanas.

    Dados do Boletim Epidemiológico divulgados na semana do dia 11 de abril, um mês atrás, apontam que o índice de óbitos da população negra era de 34,3%, contra 62,9% na população branca. Ou seja, em aproximadamente 30 dias, o percentual de mortes de pessoas negras vítimas da COVID-19 cresceu 15,8%. Ao contrário do que ocorreu na população branca, com o índice de mortalidade caindo 15,2% no mesmo período.

    Rita Helena Borret atribui esse crescimento ao fato de o coronavírus ter chegado às periferias e favelas brasileiras.

    "A população elitizada no país, branca com dinheiro, saiu do país, trouxe o coronavírus para cá. E a forma como ele vai se comportar nos espaços de 'asfalto' e nos espaços de periferia vai ser completamente desigual porque são condições de moradias completamente desiguais", afirmou.

    Segundo a médica, o momento em que o coronavírus passou a circular em áreas mais pobres se dá justamente quando o país se aproxima de um colapso do sistema de saúde.

    "O que a gente pode perceber é que hoje o coronavírus já está circulando em uma quantidade significativa nas áreas de favelas e periferias. Ao mesmo tempo que esse movimento acontece, o país se encontra em um momento de colapso no sistema de saúde", explicou.

    Rita Helena Borret diz também que acredita que justamente pelos negros serem a maior parte dos usuários do SUS, é possível que haja subnotificação dos casos de coronavírus que atingem pessoas negras no Brasil.

    "Assim como a distribuição de leitos não é equânime no nosso país, a distribuição de testes para a confirmação de coronavírus também não é. Em um cenário onde o coronavírus começa a circular mais em favelas e periferias, em que as pessoas tem mais dificuldades de acessar o teste, a gente pode estar diante de uma situação de grande subnotificação", explicou.

    A Justiça Federal do Rio de Janeiro determinou no dia 5 de maio que os dados registrados e divulgados sobre os casos de coronavírus no país incluíssem, obrigatoriamente, informações sobre a etnorraça dos infectados. Segundo a decisão, a União deve expedir diretrizes para as secretarias de Saúde para o preenchimento obrigatório dos marcadores etnorraciais, conforme as categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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    mortes, negros, novo coronavírus, Brasil, COVID-19
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