03:24 05 Dezembro 2020
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    O fim do acordo entre Embraer e Boeing já abriu novos capítulos e possibilidades, como a venda da empresa brasileira à China e também sua reestatização. A Sputnik Brasil ouviu um economista e um sindicalista sobre essas possibilidades, que alertaram sobre o papel público diante da crise na empresa.

    A Boeing decidiu rescindir um acordo com a Embraer que incluía a criação de uma "joint-venture" entre as empresas e também a aquisição da área comercial da empresa brasileira. A decisão repercutiu na imprensa e levou a declarações de autoridades, como o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e também o vice-presidente, Hamilton Mourão.

    A Embraer acusa a Boeing de ter realizado uma rescisão indevida, enquanto a norte-americana afirma que a rescisão era uma prerrogativa de contrato. A Embraer decidiu abrir um processo de arbitragem para resolver a questão e tentar reaver os cerca de R$ 485 milhões gastos na preparação do negócio.

    Para Weller Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, o fim do acordo entre as empresas é uma derrota para o governo e para os que queriam entregar a Embraer para a Boeing. O acordo, costurado durante a gestão do ex-presidente Michel Temer foi ratificado em 2019 com apoio de Bolsonaro.

    "Esses que defendiam arduamente a entrega do patrimônio brasileiro saem derrotados de tudo isso", afirmou Gonçalves em entrevista à Sputnik Brasil.

    O sindicato apresenta uma visão contrária à venda de parte da Embraer desde o anúncio das negociações, ainda em meados de 2018. Conforme aponta o presidente da organização, os sindicalistas entendem o negócio como um atentado à soberania nacional.

    "Somos contrários por três pontos. Primeiro, a soberania nacional; segundo, a defesa dos empregos; e em terceiro a gente sempre defendeu a reestatização da Embraer sob o controle dos trabalhadores. A Embraer, que era estatal, depois de privatizada recebeu muito mais dinheiro público do que na época que era estatizada. Por isso nós defendemos a reestatização", afirma.

    Um excelente negócio para a Boeing

    Para o economista Marcos José Barbieri Ferreira, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em aviação comercial, indústria aeroespacial e de defesa, a crise na Boeing, tanto a interna devido aos problemas relacionados à aeronave 737 MAX, quanto à crise causada pela pandemia, são os motivos que impediram o acordo com a Embraer.

    "Nesse contexto em que ela [a Boeing] está precisando fazer uma ampla reestruturação e, inclusive, tendo a necessidade do socorro do governo dos Estados Unidos a aquisição dos negócios da aviação comercial da Embraer se tornou inviável", afirma o economista em entrevista à Sputnik Brasil.

    O especialista da Unicamp ressalta que a transação envolvendo a Embraer se trata de um excelente negócio para a empresa norte-americana. O economista detalha que a Embraer é líder no setor de aeronaves de médio porte, entre 70 e 150 assentos, o que faria sua aquisição extremamente vantajosa para a Boeing.

    Além disso, a compra envolveria a capacidade de engenharia e as principais unidades produtivas da Embraer, incluindo unidades de produção de trens de pouso, área em que, segundo o especialista, "a Boeing não tem grande competência".

    Essas vantagens apontam que a desistência não ocorreu por uma mudança no ponto de vista sobre o negócio, aponta o professor da Unicamp, e sim pela inviabilidade da transação diante da crise econômica que acometeu a empresa dos EUA.

    Funcionário da Boeing observa modelo 737 MAX estacionado em fábrida da empresa em Seattle
    © AP Photo / Ted S. Warren
    Funcionário da Boeing observa modelo 737 MAX estacionado em fábrida da empresa em Seattle

    Descontente com a desistência da Boeing, a Embraer iniciou um processo de arbitragem na segunda-feira (27). Esse tipo de processo é sigiloso e costuma ser usado em negociações para evitar o uso da Justiça, explica o especialista.

    "Nesse primeiro momento é vantagem para a Embraer buscar uma solução extra-judicial através do tribunal de arbitragem. Sempre são soluções muito mais rápidas, o tempo de solucionar é muito mais rápido", afirma o economista.

    Apesar disso, o pesquisador alerta que não existem garantias de que um acordo será alcançado pelas partes por meio extra-judicial, o que pode fazer com que a crise continue se arrastando.

    "Entretanto, nada garante que se consiga solucionar o conflito com o meio extra-judicial e, eventualmente, no futuro talvez ela [a Embraer] tenha que recorrer a alguma ação judicial contra a Boeing", aponta.

    Apoio público será fundamental para a recuperação da Embraer

    O economista Marcos José Barbieri Ferreira critica a posição do presidente Jair Bolsonaro, que falou em vender a Embraer a outras empresas. Para Ferreira, a desistência da Boeing é bem-vinda, e uma eventual venda significaria a destruição da empresa brasileira.

    "A partir de agora é fundamental que a Embraer adote uma estratégia de reestruturação e que vise voltar a desenvolver tecnologias, voltar a desenvolver capacitações, novos produtos e procurar avançar dentro do mercado aeronáutico como ela fez ao longo dos seus 50 anos de história", afirma.

    O especialista da Unicamp também ressalta que o processo torna fundamental o suporte público para a recuperação da empresa, que amarga perdas tanto a crise da pandemia quanto com o fim do negócio com a Boeing.

    "É fundamental nesse processo o suporte público. O suporte público vai ser muito importante não só para essa reestruturação da empresa por conta dessa estratégia errada que ela adotou ao longo dos últimos dois anos, mas principalmente para enfrentar a crise decorrente da pandemia, que se avizinha", conclui.

    Já o sindicalista Weller Gonçalves salienta que a Embraer deve ser motivo de orgulho para o Brasil devido à tecnologia que desenvolve. O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região promete uma campanha pela reestatização da empresa.

    "Nós achamos que se tivesse se concretizado a venda da Embraer, isso representaria a entrega de um patrimônio do povo brasileiro. Nós temos que ter muito orgulho da Embraer. São poucos países no mundo que são capacitados para colocar lata para voar. Nós temos que ter muito orgulho dessa tecnologia que nós temos aqui no Brasil", aponta.

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    Tags:
    COVID-19, Boeing 737 MAX, Boeing, Embraer
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