17:39 10 Agosto 2020
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    No coração da floresta amazônica, a uma semana de barco de Manaus, Carauari é uma das cidades mais isoladas do mundo, mas este isolamento não impede o pânico gerado pelo coronavírus.

    Com suas casas coloridas sobre palafitas ao longo do rio Juruá, afluente do Amazonas, este povoado no oeste do país contrasta com as megalópoles densamente povoadas como o Rio de Janeiro e São Paulo.

    Seus 29 mil habitantes se repartem em um imenso território de mais de 26 mil km², dezessete vezes maior que o de São Paulo, a cidade brasileira com mais habitantes, possuindo uma densidade sete mil vezes menor.

    Nenhuma rota terrestre a liga ao resto do território nacional.

    Imagem da exposição Amazonas, Moscou, 6 de junho de 2019
    © Sputnik / Pablo Rodrigues
    Imagem da exposição Amazonas, Moscou, 6 de junho de 2019

    Para chegar ao local, é preciso pegar um voo de três horas de Manaus, de onde também é possível chegar de barco, uma aventura de sete dias. No começo, a pandemia da COVID-19 não era nada além de um problema distante, que os locais só escutavam através da mídia.

    Porém, depois do anúncio do primeiro caso em Manaus, há uma semana, o pânico começou a se espalhar pela pequena cidade, em uma região já traumatizada por epidemias anteriores vindas de fora.

    Isolamento reforçado

    "Eu nasci aqui, vivi em Carauari toda minha vida. Eu acabei de completar 80 anos, mas nunca vi algo assim", explicou à AFP Raimunda da Silva dos Santos, que habita próximo ao porto fluvial.

    Atualmente, como no resto do mundo, os habitantes do povoado estão obcecados com a prevenção da COVID-19.

    "Rezamos a Deus para que a epidemia não chegue aqui. Fazemos o que podemos, lavamos várias vezes as mãos, como disseram na televisão", conta José Barbosa das Graças, de 52 anos.

    As autoridades sanitárias locais temem ser sobrecarregadas, uma vez que o Hospital de Carauari não conta com mais de cinquenta leitos.

    "A característica de nossa cidade ser de difícil aceso é uma vantagem no momento, porque reduz os riscos de contaminação, mas também significa que será difícil evacuar pacientes se necessário", explicou Manoel Brito, diretor do hospital.

    Desde terça-feira (17), todo e qualquer passageiro chegado por avião ou barco é examinado cuidadosamente pelos serviços de saúde do município. Futuramente, outras restrições mais severas podem ser implementadas, afetando o abastecimento da cidade, que ficará ainda mais desconectada do mundo.

    Os habitantes dependem do transporte fluvial para obter medicamentos, alguns alimentos e todo tipo de bens não produzidos localmente.

    "Será complicado sobreviver, dependemos destes barcos", diz Luciano da Silva, pescador de 32, descarregando sua canoa nas margens do Juruá.

    A vulnerabilidade dos indígenas

    O novo coronavírus é também uma fonte de preocupação para os povos indígenas da Amazônia, que já sofreram anteriormente após contato com o mundo exterior. As doenças trazidas pelos colonizadores europeus dizimaram mais de 95% das populações nativas das Américas.

    O estado do Amazonas decretou o estado de emergência, interditando a entrada de visitantes estrangeiros em territórios indígenas.

    A Assembleia dos Povos Indígenas do Brasil, que organizou em janeiro um grande encontro com dezenas de caciques vindos de toda Amazônia para se mobilizarem contra a política ambiental do presidente Jair Bolsonaro, cancelou diversos encontros.

    "A situação dos indígenas é muito delicada, ainda mais para os povos isolados", lamentou Maria Baré, de 40 anos, líder comunitária do povo Baré, que habita as margens do Rio Negro.

    "Seja a COVID-19 ou qualquer outra doença à qual ainda não estamos expostos, esta é uma ameaça para nossa saúde e vida", conclui a líder indígena.

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    Tags:
    Amazônia, Amazonas, novo coronavírus
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