16:30 19 Janeiro 2020
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    O empresário Marcelo Odebrecht, ex-presidente da Odebrecht, disse que a operação Lava Jato foi o "gatilho" para a "derrocada" da construtora, mas que "manipulações internas" também contribuíram para isso.  

    Em entrevista concedida para o jornal O Globo, ele afirmou que a empresa poderia estar em uma situação melhor hoje, apesar dos problemas enfrentados nos últimos anos. 

    "É fácil dizer que o que quebrou a Odebrecht foi a Lava Jato. Sim, a Lava Jato foi o gatilho para nossa derrocada, mas a Odebrecht poderia ter saído dessa crise menor, mas mais bem preparada para um novo ciclo de crescimento sobre bases até mais sustentáveis. Só que nós não soubemos conduzir o processo da Lava Jato. A Odebrecht quebrou por manipulações internas, não apenas pela Lava Jato", afirmou. 

    Marcelo Odebrecht permaneceu preso por dois anos e cinco meses em Curitiba, após ser condenado a mais de 30 anos por corrupção. Em função de seu acordo de delação premiada, ele passou para prisão domiciliar em dezembro de 2017, progredindo para o regime semiaberto em setembro de 2019. 

    Empresário afirma que existia caixa dois desde a década de 1980

    O empresário admitiu que companhia pagava caixa dois, mas disse os isso ocorria desde os anos 1980. Odebrecht afirmou ainda que o Departamento de Operações Estruturadas é em sua maior parte "folclore", algo que ganhou uma dimensão muito maior do que realmente foi. 

    "Isso é folclore. Esse tal departamento de propina nunca existiu. A verdade é menos espetaculosa. Desde os anos 1980, bem antes de meu ingresso na empresa como estagiário, havia pessoas na Odebrecht que apoiavam os executivos na realização de pagamentos não contabilizados. Eram bônus não declarados para executivos, pagamentos em espécie a fornecedores, especialmente em zonas de conflito, investimentos em que não queríamos aparecer, caixa dois para campanhas, e eventualmente até propinas", explicou. 

    Marcelo nega corrupção no BNDES

    Marcelo negou que tenha ocorrido irregularidades nos financiamentos do BNDES. Disse ainda que a "a presença de Lula" no exterior "trazia algum desconforto porque a intenção dele era abrir o mercado para todas as empresas brasileiras". 

    O empresário, que está proibido de falar sobre temas relacionados a processos ainda em andamento na Justiça, mencionou a existência da conta Italiano, apontada pela Lava Jato como sendo administrada por Marcelo Odebrecht para pagamento de propina ao PT. 

    Segundo ele, tratava-se "de uma conta fictícia na qual debitávamos os pagamentos que nos eram solicitados primeiro por Antonio Palocci e depois por Guido Mantega [ambos ex-ministros da Fazenda] para atender os interesses do PT e, dentro dos interesses do PT, do Instituto Lula". O ex-presidente da construtora não explicou se os recursos seriam ilegais, destinados por exemplo ao pagamento de caixa dois ou propina. 

    'Levantar o moral de nossa tropa'

    Por fim, Marcelo Odebrecht disse que os "dois maiores pecados" da companhia foram "a falta de transparência do caixa dois, e a crença de que os fins justificavam os meios". Mas apesar dos problemas, transpareceu confiança na recuperação da empresa.

    "Primeiro temos que vencer o desafio da recuperação judicial, e levantar o moral de nossa tropa, voltando a valorizar a nossa cultura empresarial. Tinha um antigo diretor nosso que dizia: “Enquanto tiver bala, atire”. E é isso que temos que fazer", afirmou. 

    Tags:
    Guido Mantega, Antonio Palocci, justiça, caixa dois, lula, corrupção, Lava Jato, odebrecht
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