21:38 13 Novembro 2019
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    Cocaína em La Paz, Bolivia (arquivo)

    Brasil querer cooperação de países vizinhos contra o tráfico é 'perda de tempo', diz analista

    © AP Photo / Juan Karita
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    As amplas fronteiras brasileiras foram protagonistas de discursos contundentes do vice-presidente da República, Antônio Hamilton Mourão, e do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.

    Ambos querem maior combate ao tráfico de drogas e de armas, mas o cenário não é animador.

    Esta é a opinião do coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva. Em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista avaliou que a perspectiva de cooperação com países vizinhos, sugerida por Mourão, é antiga, mas representa uma "perda de tempo".

    "Na verdade, isso é um sonho muito antigo de se estabelecer um relacionamento com os países vizinhos em prol de medidas para a segurança, naquilo que pode ser compartilhado como é o caso da facilidade de produção e circulação de drogas", relembrou Silva.

    De acordo com o coronel reformado da PM paulista, cada um dos países vizinhos do Brasil que são conhecidos pela produção de drogas – o Paraguai pela maconha, e a cocaína vinda de Bolívia, Peru e Colômbia – têm suas próprias preocupações com segurança pública, e a situação do Brasil não representa uma preocupação para cada um deles.

    Fechado, prédio da Força Nacional é o mais próximo de uma fiscalização na fronteira entre Leticia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil)
    © Sputnik / Thiago de Araújo
    Fechado, prédio da Força Nacional é o mais próximo de uma fiscalização na fronteira entre Leticia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil)

    "É bom lembrar que o Paraguai fornece enorme quantidade de maconha e nós temos aqui três grandes produtoras de cocaína – Bolívia, Peru e Colômbia –, sendo que cada país tem as suas preocupações e não estão muito preocupados com o que acontece no Brasil. Nós sabemos que a cocaína, a venda e o dinheiro indiretamente recebido dos exportadores e plantadores, acaba influindo no PIB [Produto Interno Bruto] dos países. Quase um terço do PIB da Colômbia se estima que venha das drogas. Ela não vai acabar com as drogas e perder essa rentabilidade que vem indiretamente", opinou.

    "O fato é que essas tentativas de relacionamento, trabalho em conjunto, quando eu estava na SENASP [Secretaria Nacional de Segurança Pública] em 2002 [no governo de Fernando Henrique Cardoso], já tínhamos trabalhos, ações, compartilhávamos informações ministeriais com os países vizinhos, isso já existia antes, existiu depois, mas o fato é que nada acontece", acrescentou.

    Silva afirmou que não se deve esperar mais investimentos dos que já são feitos por um país como a Colômbia, que já enfrenta dificuldades para combater tanto as plantações de coca em seu território quanto as guerrilhas, como as Farc, que lucram com o narcotráfico. Além disso, segundo o analista ouvido pela Sputnik Brasil, as polícias internas dos vizinhos já enfrentam seus próprios desafios.

    "Esse é outro problema muito sério porque nós sabemos que nesses países vizinhos existe uma precariedade em relação à integridade e controle dessa interação das polícias locais com esses traficantes. Nós já temos membros de facções criminosas operando no Paraguai e de vez em quando eles fazem uma operação isolada ou outra para ajudar a prender algum criminoso, mas isso é um trabalho muito raro", ponderou.

    Para Silva, a colaboração deve ser esperada "na medida em que os criminosos de facções brasileiras comecem a levar muitos problemas" a países como o Paraguai, "como já anda acontecendo no caso do tráfico de drogas".

    "O armamento nem é tão problemático assim porque há farta munição e armamento aqui no Brasil do que já foi importado e até da produção nacional, que a gente sabe que é vendida em lojas, mas acaba indo parar nas mãos de criminosos. Esses países só vão começar efetivamente a pedir um apoio se os criminosos brasileiros estiverem atrapalhando muito a vida deles lá e não irão colaborar com a gente se os criminosos do Paraguai e da Bolívia estiverem atrapalhando a nossa vida aqui no Brasil", completou.

    'Witzel fará turismo em Nova York'

    Já o governador do Rio, Wilson Witzel, declarou que iria até a Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, para manifestar a sua intenção de fechar as fronteiras brasileiras com Colômbia, Paraguai e Bolívia. Questionado pela Sputnik Brasil sobre a ideia gestada em solo fluminense, o coronel reformado da PM de SP disse que a ONU tem mais com que se preocupar.

    "Olha, eu não acredito que a ONU irá tomar como encargo seu cuidar de fronteira de país com problema de produção e exportação de droga. Isso é um problema muito grande de maneira geral, e se houvesse grande preocupação da ONU ela já estaria atendendo nos EUA, onde ela está sediada, porque a cocaína que sai desses países abastece o mercado dos EUA, que são os maiores consumidores de cocaína do mundo", analisou.

    Silva ainda ironizou Witzel, ressaltando que "se ele quiser fazer turismo em Nova York, posso dar umas sugestões para conhecer coisas boas da polícia lá que ele poderia levar para o Rio de Janeiro". "Não vejo a menor chance de sucesso, se ele vai para Nova York para isso, ele está fazendo turismo porque a chance de obter algum resultado positivo é próxima de zero", sentenciou.

    Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, participa de uma coletiva de imprensa no Palácio Guanabara
    © Foto / Adriano Ishibashi/FramePhoto/Folhapress
    Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, participa de uma coletiva de imprensa no Palácio Guanabara

    O especialista ainda mencionou o fato de que a fronteira oeste do Brasil tem 17 mil km entre o Uruguai e a Venezuela – "é a distância do Rio até Tóquio" – e que o governo do Rio poderia se preocupar, por exemplo, em cuidar da pequena fronteira entre a comunidade da Rocinha, que estima-se vender R$ 1 milhão em drogas por semana – e o Leblon, bairro da zona sul da cidade.

    Sobraram ainda críticas à ausência de uma política nacional de segurança pública. De acordo com o ex-secretário, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, ainda está "tateando" o assunto, e "não há nenhum plano em andamento para vencer as principais dificuldades na segurança pública do país".

    "[Moro] enfatizou, no meu entender até excessivamente a questão do crime organizado, mas o fato é que ele não impacta tanto assim o dia a dia nas ruas das grandes cidades brasileiras. Ele tem apenas uma participação marginal nos assaltos, nos carros roubados e furtados, porque se tem uma preocupação no Brasil quando se fala em crime organizado que é o tipo de infração que a gente mais conhece que é o tráfico de drogas, que movimenta R$ 15 bilhões por ano", pontuou.

    "Mas nós temos também outra fonte de renda substancial que é o jogo clandestino, que não tem nada a ver com a questão de fronteiras, e fatura bem mais do que o tráfico, em torno de R$ 20 bilhões, e outro que tem a ver com a questão de fronteiras, mas nada com armas e drogas, que é o contrabando de pirataria que tem um movimento da ordem de mais de R$ 100 bilhões. No entanto, o problema que nós temos da violência do dia a dia nas grandes cidades é problema da polícia local, e nós não temos no âmbito do governo federal nenhum policial civil ou militar para dar assessoria no desenvolvimento de respostas mais consistentes no combate à violência nos estados", prosseguiu.

    Sob o ponto de vista do especialista ouvido pela Sputnik Brasil, o Brasil poderá fazer mais na segurança pública interna e externa na medida em que tenha mais recursos e "maior titulação internacional", questões que hoje parecem distantes. E ele exemplifica: só a Polícia Federal (PF), que cuida das fronteiras, teria de ter o triplo dos seus atuais 15 mil agentes.

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    Tags:
    Wilson Witzel, contrabando, pirataria, tráfico de armas, narcotráfico, tráfico de drogas, facções criminosas, violência, crime organizado, segurança pública, José Vicente da Silva Filho, Sergio Moro, Jair Bolsonaro, Rio de Janeiro, Brasil
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