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    Obras da Usina nuclear de Angra 3

    Brasil ocupa grupo seleto em energia nuclear e deve investir no setor, diz engenheiro

    © Foto/ Agência Brasil/Divulgação PAC
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    Na quinta-feira (4) foi realizado o "Fórum Internacional de Renováveis e Nuclear", realizado em Recife, Pernambuco. A Sputnik Brasil ouviu dois engenheiros no setor de energia para comentar o debate em torno dos tipos de geração de energia.

    José Antônio Feijó de Mello, engenheiro elétrico e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explicou que há um falso debate que opõe tipos renováveis de geração de energia com, por exemplo, a produção energética através de usinas nucleares.

    Diante das discussões criadas com o anúncio do evento em Recife com a palavra "versus" entre os dois tipos de geração de energia, o especialista fez questão de ressaltar, em entrevista à Sputnik Brasil, que o evento não tratou de criar uma competição entre as duas fontes de energia, mas sim de discuti-las. Inclusive, houve uma mudança no nome, posteriormente.

    Mello explica que uma das principais diferenças entre a geração de energia nuclear e as chamadas renováveis, é que uma planta nuclear produz energia de forma constante.

    Sem deixar de ressaltar a importância ambiental desse tipo de geração energética, o especialista aponta que dentre as renováveis, fontes como a solar e a eólica, funcionam ao sabor da natureza e podem ter a geração diminuída ou interrompida.

    "O sistema elétrico precisa oferecer as condições de atender o consumidor sem esse tipo de intermitência, que é o que nós dizemos sobre essas fontes [renováveis]. Então, você precisa ter no sistema fontes que garantam uma base e fontes que se adaptem a essas variações", salienta.

    O especialista também afirma que a substituição total da fonte de energia por fontes como eólica e energia solar, é impossível devido às variações de produção de ambas.

    "Por exemplo, na Alemanha atualmente é um problema sério. Porque a Alemanha, pretendeu, em um investimento muito grande, eliminar o carvão e as nucleares a partir de solar e eólica e isso é completamente impossível", ressalta.

    Essa situação colocou os alemães diante de um dilema acerca de sua produção de energia, que pretendia parar as usinas térmicas e nucleares.

    "Então na prática, a Alemanha está, digamos, meio engasgada em um processo em que eles não podem parar as térmicas de carvão nem muito menos também as nucleares, porque precisam da base. E a solar e a eólica funcionam quando tem vento e sol, mas acontece que isso não é ao sabor do desejo nosso e sim da natureza", explica.

    Formas de geração de energia se complementam

    O engenheiro Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan), reforça, em entrevista à Sputnik Brasil, que não existe oposição entre tipos de geração de energia.

    Especialista em energia nuclear, ele explica que esse tipo de produção de energia faz parte do grupo das energias de base.

    "A energia nuclear é uma energia de base, ou seja, ela está lá o tempo todo, tanto que o fator de carga, ou seja, o tempo de disponibilidade dela é maior que 90%", aponta o engenheiro que lembra que as usinas brasileiras, Angra 1 e Angra 2, estão entre as 10 melhores do mundo e disponibilidade.

    Já em relação às energias renováveis, setor em que o Brasil se destaca, ele explica que oscilam na produção.

    "As renováveis, principalmente a eólica e a solar, são energias que têm oscilação. [...] Quando não venta não produz, à noite a solar não produz. Ou seja, elas têm um ciclo", aponta.

    Vista geral das obras da usina termelétrica nuclear (UTN) Angra 3, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
    Divulgação Eletronuclear
    Vista geral das obras da usina termelétrica nuclear (UTN) Angra 3, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

    Cunha explica também que ambos os tipos de geração de energia são complementares.

    "Elas se complementam. A energia de base vem para cobrir o grosso da geração de energia. [...] No caso das renováveis, principalmente no ciclos da solar e da eólica, elas cobrem uma camada superior das nossas curvas de carga. E elas têm o seu papel importante também, dentro da matriz", ressalta.

    Uma usina nuclear no Nordeste?

    O presidente da Abdan também discute a questão da matriz energética brasileira, lembrando que o Brasil tem uma base de produção de energia diversa, com termelétricas variadas, hidrelétricas, usinas nucleares, campos de energia eólica e também produção de energia solar.

    "O que nós precisamos, na realidade é de uma matriz harmônica, e não preconceituosa. Isso que é o grande X do negócio", aponta.

    Como exemplo ele cita o Nordeste do Brasil. Cunha ressalta que a região convive com escassez de água e que por isso não pode ter na energia hidrelétrica sua base energética.

    Em compensação, lembra o engenheiro, a região tem bons ventos e taxas altas de insolação, propiciando oportunidades para renováveis como a eólica e solar.

    Cunha explica que essa situação deixa um espaço para a implementação de termelétricas e também usinas nucleares.

    "As grandes reservas, por exemplo, já identificadas de urânio, estão no Nordeste. Então é extrair o urânio, que está lá debaixo da terra. Se você não usa, não serve para nada. Nós temos a 7ª maior reserva do mundo em urânio, e isso só com um terço do território prospectado. Estima-se que quanto tivermos todo o território nacional prospectado nós teremos a 2ª ou a 1ª reserva", aponta.

    O especialista também explica que reatores nucleares menores podem trabalhar também na dessalinização de água, o que também ajudaria a resolver problemas da região.

    "E com a entrada da nuclear você passa a ter, por exemplo, uma matriz energética no Nordeste que estabiliza mais a região. Hoje você tem 78% da energia toda que é consumida no Nordeste produzida através de solar e eólica. Isso traz um risco muito grande", conclui.

    Brasil potência nuclear

    Celso Cunha ressalta que a posição que ocupa no mundo é hoje a de uma potência nuclear no sentido energético.

    "Quem no mundo tem jazidas de urânio, tem o ciclo tecnológico do combustível e tem capacidade de construir essas usinas? Três país no mundo: Estados Unidos, Rússia e Brasil. Então, assim, nós não podemos jogar fora essa tecnologia", ressalta.

    Cunha aponta que cada usina nuclear poderia gerar, além de energia, entre 7 e 9 mil empregos diretos e indiretos.

    O especialista também afirmou que há uma expectativa de que o atual governo anuncie até o final do ano a construção de 4 usinas nucleares no Brasil como parte do Plano Nacional de Energia 2050, que deve ser anunciado pelo Ministério de Minas e Energia até o final de 2019.

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    Tags:
    energia solar, energia eólica, energia nuclear, Angra 2, Angra 1
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