19:24 16 Julho 2019
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    Presidente Jair Bolsonaro participou de uma cerimônia em homenagem aos ex-combatentes brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial

    Texto de Bolsonaro lembra carta de renúncia de Jânio, diz ex-chanceler brasileiro

    © Sputnik / Thiago de Araújo
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    O ex-ministro de Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, afirmou neste sábado que o polêmico texto compartilhado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) guarda semelhanças com a famosa carta de renúncia do ex-presidente Jânio Quadros, em 1961.

    "O texto apocalíptico encampado por Bolsonaro guarda inquietante analogia com a carta da renúncia, verdadeiro manifesto em prol de autogolpe, em que Jânio pretextava ação de 'forças terríveis' para justificar o fracasso de seus projetos", escreveu Nunes no Twitter.

    Na sexta-feira, o presidente brasileiro usou o Whatsapp para compartilhar um texto com o qual disse concordar. Nele, o autor afirma que o governo é vítima de um sistema corrompido, e que "o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável".

    O longo texto ainda aponta que o país hoje está "disfuncional", porém a culpa não repousa nas mãos de Bolsonaro. "Até agora [Bolsonaro] não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou", prosseguiu o "autor desconhecido" citado pelo presidente (leia a íntegra ao final).

    Ainda na sexta-feira, a imprensa revelou que o autor do texto compartilhado por Bolsonaro foi o analista da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Paulo Portinho.

    Ao jornal O Estado de S. Paulo, o porta-voz Otávio do Rêgo Barros declarou que o presidente espera o apoio da sociedade para "reverter essa situação", em mais um ataque do Planalto ao que Bolsonaro já notabilizou de "velha política" ao longo da sua campanha eleitoral e início de governo.

    "Venho colocando todo meu esforço para governar o Brasil. Infelizmente, os desafios são inúmeros e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas. Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação e colocarmos o País de volta ao trilho do futuro promissor", destacou Bolsonaro em um comunicado, sem detalhar a quais grupos se referia.

    Neste sábado, o presidente falou brevemente sobre o assunto, dizendo que era preciso "perguntar ao autor" do material sobre a que ele se referia.

    Chanceler do Brasil durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), Nunes relembrou o episódio da renúncia de Quadros em 1961, sete meses após assumir o Brasil diante de uma grande votação. À época, com o vice João Goulart em viagem à China, o então presidente acusou "forças ocultas" – estas nunca reveladas por ele – para encaminhar a sua renúncia ao Congresso.

    De acordo com historiadores, a decisão de Quadros teria sido uma tentativa de se fortalecer politicamente, com a expectativa de que a posse do "comunista"Goulart não seria aceita pelos militares e pela elite política brasileira. A tentativa, contudo, acabou saindo pela culatra, seguida de uma tentativa parlamentarista entre 1961 e 1963, com Goulart assumindo de fato como presidente em seguida, até ser derrubado em um golpe militar em 1964.

    Semana difícil para Bolsonaro

    A reação do presidente acontece depois de uma semana de protestos em mais de 200 cidades do Brasil contra os cortes – que o governo prefere chamar de "contingenciamentos" – das verbas do ensino superior, e também do avanço das investigações contra um dos filhos dele, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

    Além disso, parlamentares insatisfeitos com a interlocução do Planalto com o Congresso articulam um substitutivo para a Reforma da Previdência, o que deve promover alterações ao texto enviado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

    Nas redes sociais, a hashtag "Impeachmentbolsonaro" aparece no topo do Twitter neste sábado, seguida de outra em apoio ao presidente, intitulada "Boldonaronossopresidente", com um erro de grafia do nome do mandatário brasileiro.

    Leia a íntegra do texto, da forma como o presidente compartilhou em grupos de WhatsApp:

    TEXTO APAVORANTE - LEITURA OBRIGATÓRIA

    Alexandre Szn

    Temos muito para agradecer a Bolsonaro.

    Bastaram 5 meses de um governo atípico, "sem jeito" com o congresso e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores. Sejam eles de esquerda ou de direita.

    Desde a tal compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal "presidencialismo de coalizão", o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público.

    Não só políticos, mas servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder. Os verdadeiros donos do orçamento. As lagostas do STF e os espumantes com quatro prêmios internacionais são só a face gourmet do nosso absolutismo orçamentário.

    Todos nós sabíamos disso, mas queríamos acreditar que era só um efeito de determinado governo corrupto ou cooptado. Na próxima eleição, tudo poderia mudar. Infelizmente não era isso, não era pontual. Bolsonaro provou que o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável.

    Descobrimos que não existe nenhum compromisso de campanha que pode ser cumprido sem que as corporações deem suas bênçãos. Sempre a contragosto.

    Nem uma simples redução do número de ministérios pode ser feita. Corremos o risco de uma MP caducar e o Brasil ser OBRIGADO a ter 29 ministérios e voltar para a estrutura do Temer.

    Isso é do interesse de quem? Qual é o propósito de o congresso ter que aprovar a estrutura do executivo, que é exclusivamente do interesse operacional deste último, além de ser promessa de campanha?

    Querem, na verdade, é manter nichos de controle sobre o orçamento para indicar os ministros que vão permitir sangrar estes recursos para objetivos não republicanos. Historinha com mais de 500 anos por aqui.

    Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Até o momento, como todas as suas ações foram ou serão questionadas no congresso e na justiça, apostaria que o presidente não serve para NADA, exceto para organizar o governo no interesse das corporações. Fora isso, não governa.

    Se não negocia com o congresso, é amador e não sabe fazer política. Se negocia, sucumbiu à velha política. O que resta, se 100% dos caminhos estão errados na visão dos "ana(lfabe)listas políticos"?

    A continuar tudo como está, as corporações vão comandar o governo Bolsonaro na marra e aprovar o mínimo para que o Brasil não quebre, apenas para continuarem mantendo seus privilégios.

    O moribundo-Brasil será mantido vivo por aparelhos para que os privilegiados continuem mamando. É fato inegável. Está assim há 519 anos, morto, mas procriando. Foi assim, provavelmente continuará assim.

    Antes de Bolsonaro vivíamos em um cativeiro, sequestrados pelas corporações, mas tínhamos a falsa impressão de que nossos representantes eleitos tinham efetivo poder de apresentar suas agendas.

    Era falso, FHC foi reeleito prometendo segurar o dólar e soltou-o 2 meses depois, Lula foi eleito criticando a política de FHC e nomeou um presidente do Bank Boston, fez reforma da previdência e aumentou os juros, Dilma foi eleita criticando o neoliberalismo e indicou Joaquim Levy. Tudo para manter o cadáver procriando por múltiplos de 4 anos.

    Agora, como a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente NENHUMA corporação (pelo jeito nem dos militares), o sequestro fica mais evidente e o cárcere começa a se mostrar sufocante.

    Na hipótese mais provável, o governo será desidratado até morrer de inanição, com vitória para as corporações. Que sempre venceram. Daremos adeus Moro, Mansueto e Guedes. Estão atrapalhando as corporações, não terão lugar por muito tempo.

    Na pior hipótese ficamos ingovernáveis e os agentes econômicos, internos e externos, desistem do Brasil. Teremos um orçamento destruído, aumentando o desemprego, a inflação e com calotes generalizados. Perfeitamente plausível. Claramente possível.

    A hipótese nuclear é uma ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível. É o Brasil sendo zerado, sem direito para ninguém e sem dinheiro para nada. Não se sabe como será reconstruído. Não é impossível, basta olhar para a Argentina e para a Venezuela. A economia destes países não é funcional. Podemos chegar lá, está longe de ser impossível.

    Agradeçamos a Bolsonaro, pois em menos de 5 meses provou de forma inequívoca que o Brasil só é governável se atender o interesse das corporações. Nunca será governável para atender ao interesse dos eleitores. Quaisquer eleitores. Tenho certeza que esquerdistas não votaram em Dilma para Joaquim Levy ser indicado ministro. Foi o que aconteceu, pois precisavam manter o cadáver Brasil procriando. Sem controle do orçamento, as corporações morrem.

    O Brasil está disfuncional. Como nunca antes. Bolsonaro não é culpado pela disfuncionalidade, pois não destruiu nada, aliás, até agora não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou. Ele é só um óculos com grau certo, para vermos que o rei sempre esteve nu, e é horroroso.

    Infelizmente o diagnóstico racional é claro: "Sell".

    Autor desconhecido

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    Tags:
    impeachment, renúncia, establishment, governabilidade, oposição, política, forças ocultas, reforma da previdência, Congresso Nacional, Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Paulo Guedes, Paulo Portinho, Otávio Rêgo Barros, Jânio Quadros, João Goulart, Michel Temer, Aloysio Nunes, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Brasil
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