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    Vista do rio Negro em Manaus, no estado da Amazônia (Brasil), 8 de dezembro de 2015

    Sob escrutínio da inteligência brasileira, Igreja inicia preparação para Sínodo

    © AFP 2019 / CHRISTOPHE SIMON
    Brasil
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    Começa nesta quinta o seminário “Sínodo da Amazônia: contribuições a partir do desenvolvimento sustentável”. O evento, considerado preparação para um encontro maior no Vaticano em outubro, encontra resistência por parte do governo. Religioso ouvido pela Sputnik Brasil diz que a Igreja não vai se deixar intimidar por postura do governo Bolsonaro.

    O objetivo do encontro é iniciar um debate intra-religioso sobre os principais temas relativos à Amazônia. A proteção de populações socialmente excluída — sobretudo os índios — e a preservação da floresta devem estar em pauta.

    O Sínodo, que inicialmente seria realizado na própria Amazônia, encontrou forte resistência do governo Jair Bolsonaro. A Abin – Agência Brasileira de Inteligência, advertiu a Presidência de que o encontro no Vaticano poderá servir como plataforma para atacar o governo brasileiro e a pauta foi considerada como "interesse à segurança nacional" pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno.

    Em entrevista exclusiva concedida à Sputnik Brasil, Frei Betto, importante teólogo brasileiro e autor de mais de 60 livros, diz que a ingerência do governo ao evento "pegou mal" na Santa Sé. De acordo com o frade, a reação da alta cúpula da Igreja Católica no Vaticano e do próprio papa foi de estranhamento, mas o evento de correr normalmente.

    "Nós estamos acostumados. Na época da ditadura, era comum que o governo enviasse informantes da SNI [Serviço Nacional de Informações, órgão criado em 1964 para supervisionar grupos considerados 'subversivos']. Uma vez chegamos a surpreender um bispo usando gravador a mando do governo", conta Frei Betto, mencionando ainda que não descarta tal postura no governo atual.

    Frei Betto porém, diz que a Igreja não se deixará intimidar e realizará o evento normalmente por "não ter nada a esconder". Ele critica a postura do governo e diz que a ingerência dos militares ligados a Jair Bolsonaro pode ajudar a desgastar ainda mais a imagem do presidente na comunidade internacional.

    "Este é um tema sobre o qual o Papa Francisco está especialmente atento e preocupado. No encontro em Manaus, participarão bispos de 9 países amazônicos. Se Bolsonaro assumir oposição ao evento, isso mostrará ao mundo que ele não se importa nem com a Amazônia e nem com os povos que vivem lá", pontua.

    Frei Betto diz ainda que, "embora o governo considere a proteção de índios e da floresta uma pauta de esquerda, esta é uma questão humana que independe de ideologias" e critica o despreparo das pessoas escolhidas pelo presidente para cuidar das pastas de Meio Ambiente [o ministro Ricardo Salles] e Agricultura, Pecuária e Abastecimento [a ministra Tereza Cristina].

    "O ministro [Salles] já assumiu que nunca tinha visitado a Amazônia antes de se tornar chefe do Meio-Ambiente. Mostra o despreparo e a pouca importância do tema no governo", acusa.

    Agenda

    De acordo com o G1 Amazonas, o evento que começa nesta quinta vai debater a história e a realidade social, ambiental e econômica da Amazônia. São esperados o presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e arcebispo emérito de São Paulo, Dom Cláudio Hummes, do chanceler da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, Marcelo Sorondo e do superintendente-geral da FAS, Virgílio Viana.

    Tags:
    Ministério do Meio Ambiente, Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Santa Sé, Serviço Nacional de Informações, Abin, Papa Francisco, Dom Cláudio Hummes, Virgílio Viana, Marcelo Sorondo, Ricardo Salles, Tereza Cristina, Augusto Heleno, Jair Bolsonaro, Frei Betto, Manaus, Vaticano, Brasil, Amazônia
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