15:45 10 Julho 2020
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    Completado o 1º mês do novo governo, a figura do vice-presidente Hamilton Mourão já demonstra indícios de como será o arranjo do jogo político no Planalto. A Sputnik Brasil traz uma análise do papel da vice-presidência nestes primeiros 31 dias de governo.

    Após uma campanha eleitoral em que o general Hamilton Mourão se destacou por declarações polêmicas que criaram incômodos na equipe de campanha de Jair Bolsonaro, chegando a ser repreendido por suas falas, o primeiro mês do novo governo demonstrou que Mourão segue sendo enfático nas suas posições, mas com um perfil mais moderado. 

    O cientista político e pesquisador do Instituto Atlântico, Augusto Cattoni, disse em entrevista à Sputnik Brasil que o novo governo tem na vice-presidência uma figura que se destaca dos seus antecessores por suas opiniões contundentes. 

    "A primeira coisa é que esse vice-presidente é diferente dos anteriores sem dúvida nenhuma. Ele é uma pessoa que tem uma opinião consolidada sobre muitos assuntos e não tem nenhum medo de externá-la. Então é um vice-presidente que sabe o que quer e sabe expôr suas ideias. Acredito eu que o Bolsonaro deve ter escolhido ele justamente por causa disso, entre outras qualidades. 

    As posições do vice-presidente neste começo de governo, no entanto, mostraram uma face mais moderada, contrastando em alguns aspectos com o perfil do presidente Jair Bolsonaro. Tais diferenças ficaram explícitas na declaração desta sexta-feira, por exemplo, em que Mourão afirmou que "o aborto deve ser uma decisão das mulheres", o que difere bastante da agenda conservadora do presidente. 

    Moderação como cálculo político? 

    A pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), Giovana Zucatto, afirmou à Sputnik Brasil que o caráter mais moderado apresentado por Mourão neste início de governo tem por trás um calculo político de manter a agenda anti-corrupção uma "imagem limpa" das Forças Armadas, tendo em vista a turbulência que o presidente começa a enfrentar com o envolvimento do seu filho, Flávio Bolsonaro, em investigações sobre corrupção. 

    Marielle Franco, vereadora pelo PSOL, assassinada na noite do dia 14 de março
    © Foto / Mário Vasconcellos/Divulgação/ Câmara Municipal do Rio de Janeiro
    De acordo com ela, há uma percepção do setor militar e de outros grupos que compõem o governo de que Bolsonaro seja "o elo fraco" do governo.  

    "O que eu percebo é que o Mourão e, não só os militares, mas também outros grupos majoritários que compõem o governo, eles perceberam que o elo fraco do governo é justamente o Bolsonaro. Então o Mourão tem buscado fazer um papel mais mediador com a sociedade civil, se colocar como uma figura moderada, o que não é difícil quando se coloca a comparação com uma figura como Bolsonaro. Eu acho que ele procura à maneira dele desatrelar um pouco a figura dele da figura do Bolsonaro", afirmou. 

    "Por exemplo, se essa investigação com o Flávio Bolsonaro for à frente, as Forças Armadas vão ter que dissociar a sua imagem disso, e se colocar justamente como um poder mediador incorruptível capaz de tocar o projeto anti-corrupção, que era a bandeira da campanha", acrescentou Zucatto.  

    De acordo com essa análise, o vice-presidente estaria buscando apartar as Forças Armadas das turbulências que o novo governo enfrenta e conseguir impor uma agenda sendo um interlocutor entre a sociedade civil e o governo.

    "Então, num primeiro momento eu vejo ele fazendo esse papel de moderador e interlocutor com a sociedade civil de maneira mais ampla, mas também que busca apartar um pouco a imagem dos militares e das Forças Armadas diretamente da imagem do Bolsonaro", analisa a pesquisadora.

    Giovana Zucatto destacou que as Forças Armadas construíram após a redemocratização uma imagem "afastada dos escândalos de corrupção que surgiram na política nacional nos últimos anos".

    Decreto sobre Lei de Acesso à Informação

    Um dos momentos de maior destaque da atuação do vice-presidente nestes primeiros 31 dias foi a assinatura de um novo decreto, alterando as regras que regulamentam a Lei de Acesso à Informação (LAI), o que levantou suspeitas sobre a transparência da nova gestão.

    A pesquisadora Giovana Zucatto observa então que ao mesmo tempo que o vice-presidente fez declarações moderadas dizendo que a democracia deve ser respeitada, enquanto presidente interino assinou um decreto reduzindo a transparência dos órgãos públicos, alterando a Lei de Acesso à Informação (LAI). 

    "Então é preciso fazer essa medida de até onde isso não é muito mais um discurso pra alcançar apoio público, para se colocar como essa figura moderada mais do que realmente são as intenções dele", disse à Sputnik Brasil.

    Com o novo decreto, o número de pessoas que podem decidir sobre o sigilo de dados públicos foi ampliado. Com isso, aumenta o volume de dados que não poderão ser acessados pela população.

    A expectativa, de acordo com os especialistas, é que Hamilton Mourão seguirá exercendo um protagonismo relevante na vida pública, seja por impulsionar certas pautas do governo, seja por suas declarações contundentes. O que ficou claro nestes primeiros 31 dias de governo, é que as ausências do presidente Jair Bolsonaro, seja por motivos médicos ou viagens internacionais, não foram preenchidas com um vice meramente decorativo. O que os próximos meses vão indicar melhor é se esta atuação será de complementaridade ou atrito com o presidente da República. 

    "Eu acho que o Mourão vai continuar desempenhando esse papel moderado, ele vai ter cada vez mais uma atuação pública maior, uma atuação política maior, ele tá fazendo um intercâmbio bem relevante com embaixadores, com empresários, vários setores, e tá surgindo como uma figura pública relevante", concluiu a pesquisadora do IESP-UERJ.

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    Tags:
    vice-presidente, governo, Antonio Hamilton Mourão, Jair Bolsonaro, Brasil
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