08:41 26 Abril 2019
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    O presidente da Bolívia, Evo Morales, com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro

    Evo Morales pode ajudar no diálogo entre Bolsonaro e Maduro, avalia especialista

    © REUTERS / David Mercado
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    Tido como um "peixe fora d' água" na cerimônia de posse do presidente brasileiro Jair Bolsonaro na última terça-feira, o líder boliviano Evo Morales pode ter um papel importante no desafio que envolve a manutenção das relações entre Brasil e Venezuela no curto e médio prazo.

    É o que acredita o professor de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Rafael Araújo, especialista em assuntos da Venezuela. Em entrevista à Sputnik Brasil, ele relembrou que Morales é praticamente o último grande apoiador do presidente venezuelano Nicolás Maduro na região.

    "Potencialmente o Evo Morales tem condições de fazer esse papel de um intermediador entre Bolsonaro e Maduro. A minha dúvida, sendo muito sincero, é se o Bolsonaro vai querer isso. Para o Maduro é interessante ter uma interlocução com o Brasil, até pela questão fronteiriça que citamos aqui, pelo peso econômico na América do Sul", avaliou.

    Ao ser chamado para cumprimentar Bolsonaro durante a cerimônia de posse em Brasília, Morales acabou vaiado, sobretudo por ser identificado como uma figura da esquerda latino-americana, hoje varrida do comando das principais nações na América do Sul. É o que faz Araújo ser pessimista quanto à postura brasileira quanto à colaboração de Morales.

    "Para o Maduro é interessante ter no Brasil, se não um aliado porque neste momento é difícil, ao menos um neutro, por assim dizer, nas tensões que a Venezuela tem principalmente com os EUA. Tendo a acreditar que o Bolsonaro não irá aceitar, tanto pelas declarações dele quanto pelas do [chanceler] Ernesto Araújo. Mas espero estar enganado, que o Evo Morales possa ser visto como um negociador para os dois lados. Seria muito positivo para os dois países. Não sou daqueles que acreditam que a crise da Venezuela possa ser boa para o Brasil", acrescentou.

    Idas e vindas

    A troca de farpas entre Bolsonaro e os governos venezuelanos não é nova. Quando parlamentar na Câmara dos Deputados, o atual presidente brasileiro chegou a flertar com o então candidato à Presidência da Venezuela, Hugo Chávez, no fim da década de 1990. Mas ao longo dos anos 2000, o tom mudou e o discurso do ex-capitão do Exército Brasileiro passou a ser hostil a Caracas, fosse sob o comando de Chávez ou de Maduro, seu sucessor.

    Atualmente, a ampla crise política, econômica e humanitária vivida pela população venezuelana respingou no Brasil, o segundo país a mais receber refugiados que fogem da fome da miséria do país caribenho. A ascensão de Bolsonaro, porém, pode azedar ainda mais a situação, sobretudo com a eleição de um aliado, Antônio Denarium, um defensor do fechamento da fronteira com a Venezuela.

    "Eu acho que esse risco existe [de fechamento da fronteira. Tanto que o Antônio Denarium, que é aliado do Bolsonaro sugeriu isso, tal como a [ex-governadora] Suely Campos. E pelas declarações que Bolsonaro e seus assessores deram em alguns momentos da campanha e depois da vitória eleitoral, essa possibilidade existe. Há a argumentação que o estado de Roraima não comporta a quantidade de imigrantes. Se o processo de interiorização não se intensifica, o estado fica imprensado. Então dá ainda mais argumentos para que o fechamento da fronteira ocorra", ponderou o professor da UERJ.

    Araújo afirmou ainda que, caso o governo Bolsonaro adote esse caminho, "seria mais um tiro no pé que o Brasil daria em sua política externa, já que as últimas movimentações de Ernesto Araújo têm sido muito criticadas, não só por intelectuais, mas por setores também de dentro do Itamaraty".

    "Tradições da diplomacia brasileira, sobretudo depois da redemocratização, têm sido esquecidas", complementou.

    Tensão x solução da crise

    O cenário de aumento das tensões vem de desenhando de maneira ainda mais clara nos últimos dias, sobretudo pelo tom da conversa entre Bolsonaro e o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que disse contar com o Brasil para "libertar povos oprimidos por ditaduras" na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua – coincidentemente, os três países cujos líderes foram desconvidados para a posse do presidente brasileiro.

    Em Caracas, Maduro já fez fortes críticas a Bolsonaro, a quem se referiu como alguém "fascista e intolerante". Além disso, chegou a desafiar o vice-presidente brasileiro Hamilton Mourão a fazer uma visita, diante das críticas feitas durante a campanha eleitoral pelo general da reserva (ele chegou a sugerir que uma intervenção militar com o aval da ONU poderia ter o apoio de Brasília).

    "A utilização de um inimigo externo é uma tradição da política chavista. Há alguns anos apenas Colômbia e Estados Unidos eram utilizados, e agora o Brasil entra como ator importante, já que colocar o Brasil ao lado desses países com uma política interventora põe o Brasil como um adversário. Só que o Brasil não é a Colômbia, é o maior país da América do Sul. Isso daí tende a ser uma moeda importante que o Maduro vai usar para fomentar o discurso nacionalista, que é muito típico do chavismo", pontuou Araújo.

    O professor da UERJ argumentou ainda que, para ele, as justificativas do governo Bolsonaro de "diferenças ideológicas" possam inviabilizar o diálogo com Caracas são infundadas, sobretudo pelos recentes alinhamentos que o governo fez com os EUA e com Israel. "Para quem diz que fará uma política externa sem viés ideológico, eu acho que a dupla Bolsonaro e Ernesto Araújo já demonstra bem que não há nada de não ideológico. Muito pelo contrário", sentenciou.

    A saída que beneficiaria os dois governos é mesmo a diplomacia, segundo o especialista. Uma solução para a crise migratória que vem causando problemas em Roraima passa por isso. O fim da crise política, econômica e social também pedirá que o Brasil exerça o seu papel de “definidor” do destino venezuelano, como explicou Araújo.

    "Talvez o diálogo entre Brasil e Venezuela seja importante para que esse movimento de retorno [de refugiados] se intensifique. Eu acho que, mais do que ninguém, os venezuelanos querem ficar em seu país, então a saída migratória é a de quem está com a vida totalmente imprensada. Se houver sinalizações de entendimentos de Maduro com os governos vizinhos da região, de que a Venezuela pode receber apoio financeiro, apoio de alimentos para que a situação da população venezuelana se atenue e melhore, pode ser que os venezuelanos retornem e fiquem na Venezuela. Acredito que é o desejo da maioria. Não é o desejo migrar, migrar é uma necessidade", concluiu.

    O encontro do Grupo de Lima, que acontece no Peru nesta sexta-feira (com a primeira aparição internacional do chanceler Ernesto Araújo), poderá dar um bom indicativo de como Brasília tratará Caracas: se com um aceno conciliatório, ou se uma indicação rumo a um esgarçamento ainda maior das relações entre os dois governos.

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    Tags:
    crise na venezuela, refugiados venezuelanos, chavismo, relações bilaterais, diplomacia, política, Grupo de Lima, UERJ, Itamaraty, Ernesto Araújo, Mike Pompeo, Jair Bolsonaro, Rafael Araújo, Hugo Chávez, Evo Morales, Nicolás Maduro, Estados Unidos, Bolívia, Venezuela, América Latina, Brasil
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