19:12 23 Abril 2019
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    'Como um câncer': milícias do Rio crescem e controlam áreas da cidade

    © AFP 2019 / CHRISTOPHE SIMON
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    O esquema mais recente funciona assim: grupos paramilitares brasileiros compram caixas de cigarros no vizinho Paraguai por 14 centavos de dólar por maço e depois as levam de volta para casa, onde os preços e impostos são muito mais altos, e vendem por até US$ 2,15.

    Os cigarros oferecem às milícias a maior parte dos lucros estimados em US$ 330 milhões e contribuem para um portfólio de operações ilícitas que os grupos aperfeiçoaram em duas décadas, incluindo a imposição de sobretaxas no serviço de TV a cabo, eletricidade e transporte. Os grupos também são conhecidos por realizar extorsão e execuções sumárias.

    Mas enquanto investigavam os cigarros contrabandeados, as autoridades encontraram outras evidências que consideravam mais preocupantes: câmeras, sistemas de monitoramento online e sinais de possíveis conexões entre milícias e membros do Comando Vermelho, a mais poderosa gangue de drogas do Rio de Janeiro.

    São indícios, dizem as autoridades, de que os grupos milicianos que costumavam ser atores menores no submundo do Rio estão se tornando atores dominantes — e não serão facilmente controlados.

    "É como um câncer", disse o investigador policial antipirataria Mauricio Demetrio. "Não vai parar."

    Começando na década de 1990, as milícias eram compostas principalmente por ex-policiais, bombeiros e militares que queriam combater a ilegalidade em seus bairros. Durante anos, eles foram até elogiados por políticos, incluindo o presidente eleito Jair Bolsonaro, um ex-capitão do exército que, como deputado, pediu a sua legalização em 2008.

    Pelo menos em teoria, os grupos estavam ajudando a confrontar o que o Estado não podia, mesmo se as trocas incluíssem tolerar negócios ilícitos e às vezes assassinar. Ao longo do caminho, seus métodos e controle brutais se expandiram. Hoje, alguns especialistas em crime argumentam que as milícias se tornaram a maior ameaça à segurança do Rio, com métodos que estão sendo copiados em outras áreas da maior nação da América Latina.

    "As milícias têm uma cabeça para os negócios", disse Marcelo Freixo, um legislador estadual que é acompanhado por meia-dúzia de guarda-costas à paisana por causa de seu trabalho para combater os grupos.

    As milícias, disse ele, ocuparam tão completamente partes do Rio que enfrentá-las exigiria a coleta de informações de rua, a implantação de serviços estatais e o uso de força física.

    "Se você enviar tropas, não encontrará ninguém", afirma Freixo.

    Ao contrário dos traficantes de drogas que podem ser vistos brandindo armas automáticas, os membros da milícia se misturam ao pano de fundo, executando as coisas nos bastidores. Quando necessário, eles se mobilizam de maneiras que enfatizam o treinamento de comando: eles se vestem de preto, com rostos cobertos, carregam armas e mochilas e se movem em formação.

    Uma das únicas maneiras pelas quais eles são vistos pelo grande público é por acaso: quando helicópteros de notícias, no curso de cobrir alguma outra coisa, os capturam em movimento. Isso já aconteceu algumas vezes nos últimos meses, quando as milícias vêm lutando com narcotraficantes pelo controle de grandes áreas do oeste do Rio.

    "Há uma guerra entre milícias e traficantes, e estamos no meio", disse uma moradora de uma favela no oeste do Rio que, após anos sendo controlada por uma milícia, foi recentemente tomada pelo Comando Vermelho.

    A mulher, que concordou em falar sob a condição de que seu nome não fosse usado, descreveu como a milícia havia controlado muitos aspectos da vida cotidiana.

    A televisão a cabo custa US$ 15 por mês. Água corrente, estacionamento de carros e "segurança" custam US$ 12 por mês. Não pagar pode significar ser espancado — ou pior. Queixar-se às autoridades significa morte certa.

    A mulher também testemunhou o que os especialistas notaram nos últimos dois anos: os membros da milícia estão se envolvendo no negócio das drogas, muito longe dos dias em que grande parte de seu foco estava no combate ao tráfico.

    "Meu sonho é sair daqui", disse ela. Os moradores "sentem-se abandonados, impotentes. Parece que não existimos para o estado".

    Em março, a vereadora negra Marielle Franco foi baleada e morta em seu carro junto com seu motorista. Franco era popular entre muitos moradores do Rio de Janeiro por criticar abertamente a brutalidade policial em bairros pobres.

    Investigadores acreditam que as milícias estavam por trás do ataque por causa de seu planejamento preciso, até garantir que as câmeras de vigilância fossem desligadas no quarteirão onde ela foi baleada.

    "Tudo indica que foi um desses grupos", disse o general Richard Nunes, secretário de segurança pública do estado, à Associated Press.

    Na semana passada, Nunes disse ao jornal Estadão que o mais recente na investigação é que membros da milícia mataram Franco porque a viram como uma ameaça às suas tentativas de tomar terras no oeste do Rio.

    Até hoje, ninguém foi indiciado.

    As autoridades tentam periodicamente atacar as milícias, apenas para retornar ao status quo, ou pior.

    Em 2008, a Assembléia Legislativa do Rio realizou uma grande investigação de milícias e seus tentáculos em toda a sociedade. O relatório pedia a acusação de 225 pessoas, incluindo políticos nos níveis estadual e municipal, policiais, bombeiros e funcionários da prisão.

    Dezenas foram presas e condenadas, enquanto as milícias mostraram como lidavam com qualquer pessoa que cooperasse.

    Freixo, o legislador estadual que supervisionou a comissão, contou o comovente depoimento do ex-vereador Josinaldo Francisco da Cruz, conhecido como "Nadinho", citado no relatório. Da Cruz testemunhou sobre a atividade da milícia em Rio das Pedras, uma área de baixa renda no oeste do Rio que muitos consideram o local de nascimento das milícias modernas.

    "Depois que ele terminou de testemunhar, ele disse: 'Eu vou morrer'", lembrou Freixo. Logo depois disso, da Cruz foi baleado 10 vezes e morto.

    A comissão fez 58 recomendações, desde aumentar a inteligência até investir em programas de assistência social, para recuperar o controle dos serviços que deveriam ser fornecidos pelo estado.

    "Muito pouco foi feito", disse Freixo, acrescentando que hoje áreas de estados nordestinos como o Ceará, o Rio Grande do Norte e a Bahia têm atividade de tipo milícia.

    Ministro da Defesa, Raul Jungmann, visita o sistema integrado de sensoriamento (Sisfron) próximo à fronteira com o Paraguai (foto de arquivo)
    © Foto : Agência Brasil/Valter Campanato
    Parte do desafio de combater as milícias é sua profunda conexão com as forças de segurança. Esses laços tiveram origem na ditadura brasileira de 1964-1985, segundo José Cláudio Sousa Alves, especialista em milícias e professor de sociologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

    Sousa Alves disse que "grupos de extermínio", formados por policiais, militares e bombeiros executaram dissidentes e criminosos, todos com a aprovação tácita dos ditadores.

    Quando o Brasil fez a transição para a democracia nos anos 80, a prática permaneceu, mas os civis estavam cada vez mais misturados em tais grupos. No início dos anos 2000, a crescente presença civil levou as milícias a apresentar candidatos a prefeituras e ao governo do Estado, o que ajudou a controlar as agências responsáveis ​​pela segurança.

    Na prática, isso significa que as pessoas que vivem em áreas controladas pelas milícias raramente recorrem à polícia porque há uma boa chance de envolvimento de qualquer oficial em particular.

    "Isso seria suicídio", disse Sousa Alves, cuja universidade fica na cidade de Seropédica, no oeste do estado do Rio, uma área controlada por milícias.

    O medo é palpável entre os moradores das áreas controladas pelas milícias, que, de fora, parecem ser bairros e cidades normais.

    "Eles vêm, estendem a mão e vão embora", disse um proprietário de loja na área da Baixada Fluminense, onde membros da milícia cobram US$ 15 por semana. "Se você diz 'não', você não sabe o que pode acontecer."

    Pairando sobre a questão está a questão de como, ou se, a administração de Bolsonaro tentará enfrentar as milícias. Depois de repetidamente defendê-las no início de sua carreira, Bolsonaro, que assume o poder em 1º de janeiro, se distanciou durante a recente campanha.

    "Hoje ninguém apóia as milícias", disse Bolsonaro ao jornal O Globo em julho.

    Ainda assim, especialistas em segurança acreditam que algumas das promessas de campanha de Bolsonaro poderiam fortalecer as mãos das milícias. Por exemplo, ele quer proteger a polícia de processos judiciais no caso de assassinatos em serviço, afrouxar as leis de armas para que mais pessoas comuns estejam armadas e, em geral, reprimam a violência com força bruta.

    Claudio Ferraz, um ex-investigador da polícia em uma força-tarefa concentrada em casos de milícia, disse que sente uma certa "acomodação" de milícias no atual clima político. Ele adverte que a complacência seria um erro.

    "O tigre não sobe em cima de você", disse ele. "O tigre come você."

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