04:25 11 Dezembro 2018
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    Exército faz operação na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro.

    Que consequências o combate ao crime organizado pode ter para as Forças Armadas?

    © Foto : Tomaz Silva/Agência Brasil
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    Com o fim do governo de Michel Temer e a preparação para a posse do presidente eleito, Jair Bolsonaro, volta à tona a pergunta sobre o papel que deverão desempenhar as Forças Armadas daqui para frente. Elas ficarão restritas ao serviço de defesa nacional ou continuarão sendo utilizadas na segurança pública?

    Em entrevista à Sputnik Brasil na última semana, o jornalista e especialista em Defesa e Relações Internacionais Pedro Paulo Rezende afirmou que essa prática de utilização do exército no combate ao crime organizado foi defendida pelos Estados Unidos como um papel importante das forças latino-americanas, contaminando todo o continente. Segundo ele, essa linha de atuação tem sido motivo de discórdia hoje no meio militar brasileiro, com alguns adeptos e outros contrários ao uso das Forças Armadas em missões que, originalmente, seriam da polícia.  

    Para o cientista político e analista criminal Guaracy Mingardi, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, não há dúvidas de que a ideia básica é a de que tem que controlar a criminalidade são a polícia e a justiça. De acordo com ele, as Forças Armadas só devem entrar em última instância e por um período bem curto. 

    "Nós já temos várias experiências no mundo em que isso não deu certo. O caso do México é exemplar. O México colocou as Forças Armadas por alguns anos para controle do narcotráfico, a corrupção, que já era bem grande, aumentou muito. E tanto que um dos principais grupos, um dos principais cartéis, o Zetas, eles foram formados inicialmente só por militares oriundos dos grupamentos especiais, das forças especiais do Exército Mexicano", disse o analista à Sputnik Brasil. 

    O caso do Brasil, onde os militares vêm sendo utilizados para controle de traficantes em área urbana, é pior ainda, segundo Migardi. Ele destaca que, desde os anos 1990, já foram cinco ou seis intervenções só no Rio de Janeiro, sem levar a nenhuma mudança efetiva na dinâmica da criminalidade e ainda abrindo espaço para corrupção, devido a ligações que vão se criando entre criminosos e militares. 

    "Muitos oficiais do Exército são contra isso. E são contra com razão. Porque isso aí não é função deles, eles não têm know-how para isso", afirmou. 

    Mesmo no caso das operações contra o narcotráfico nas fronteiras, Mingardi acredita que as Forças Armadas não devem ser protagonistas, mas ajudantes de grande importância:

    "Na prática, o que nós necessitamos no Brasil é de uma polícia de fronteira. Nós não temos. É a Polícia Federal que faz essa função também, entre várias outras. Mas nós não temos uma polícia de fronteira. Enquanto não temos, o Exército pode ajudar bastante nessa função. Mas não sendo o principal ator, como ator subsidiário. Porque o trabalho é policial."

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    Tags:
    intervenção, Forças Armadas do Brasil, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Guaracy Mingardi, Rio de Janeiro, América Latina, EUA, México, Brasil
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