04:37 19 Setembro 2018
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    Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, em sua chegada à Cúpula do Mercosul no Palácio do Itamaraty, Brasília, Brasil

    Quais riscos o Brasil corre diante das sanções dos EUA na Venezuela?

    © AFP 2018 / WENDERSON ARAUJO
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    Roraima pode ficar no escuro durante setembro caso dívida milionária do Brasil com a Venezuela não seja paga. A Sputnik Brasil conversou com Ricardo Gennari, professor, economista e especialista em segurança, inteligência e contra-inteligência empresarial, que explicou o problema e também o que pode ser feito nessa situação.

    A empresa brasileira de energia Eletronorte recebeu ofício do governo venezuelano informando sobre o fim do prazo do pagamento de dívidas com a estatal Corpoelec. O aviso foi emitido em 4 de junho, estipulando um prazo de 90 dias para o pagamento.

    A estatal venezuelana fornece mais de dois terços da energia necessária para a região de Roraima e ameaça cortar o fornecimento caso a dívida de US$ 30 milhões não seja paga. O estado é único que não está ligado ao sistema nacional de energia brasileiro.

    Porém, apesar de ter o dinheiro para pagar a dívida, o Brasil teria que passar por cima das sanções econômicas impostas pelos EUA à Venezuela. Isso porque os bancos responsáveis pelas operações financeiras necessárias para o pagamento estariam diretamente sob efeito das sanções norte-americanas.

    "É um problema estratégico do país", aponta Ricardo Gennari, em entrevista à Sputnik Brasil. Ele explica que o estado de Roraima mantém a dependência da energia elétrica produzida na Venezuela, pois seria "muito mais próximo e muito mais barato [comprar] a energia que vem da Venezuela".

    Gennari, especialista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), também explica que o problema do Brasil nesta questão não é exatamente não pagar a Venezuela, mas sim que por causa das sanções, a Eletronorte não consegue enviar o dinheiro para o país.

    Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a solução para evitar a escuridão em Roraima  seria ativar usinas termelétricas da região. Esse tipo de energia, no entanto, é mais caro e mais poluente, e poderia levar a um acréscimo anual de R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos. Na visão de Gennari, é um exemplo das razões que levam o Brasil a importar energia.

    "O Brasil está cumprindo o seu dever. Está pagando, agora os Estados Unidos vão e congelam as contas, o que é um problema jurídico e político, estão tentando minar a Venezuela", explica o especialista.

    Conforme divulgado pelo jornal Valor Econômico, o Banco do Brasil e a Caixa tentaram fazer a transferência, no entanto, o banco utilizado pela Corpolec não concluiu a operação, que passa pelos EUA, com medo de sofrer punições do Banco Central norte-americano, o Federal Reserve. O último pagamento aconteceu em novembro de 2017.

    Longe do ideal, uma possibilidade para resolver o imbróglio financeiro seria a dedução do valor de uma dívida de R$ 274 milhões em garantias do Tesouro Nacional a empresas brasileiras que exportam para a Venezuela.

    A energia fornecida pela Venezuela é produzida na hidrelétrica de Guri, e chega a Boa Vista e outras nove cidades através de uma linha de transmissão que existe desde 2001, fruto de um acordo entre os ex-presidentes dos países, Hugo Chávez e Fernando Henrique Cardoso.

    O especialista Ricardo Gennari dá ainda mais uma solução para a situação, que ele acredita estar no campo político.

    "O que a Venezuela pode fazer é pedir à ONU, a área de direitos humanos da ONU, para […] negociar a situação. É um órgão administrativo dentro da ONU, não é órgão jurídico. Então, dentro da ONU, ao meu ver, eles poderiam pedir uma intermediação do órgão de direitos humanos, justamente nesse sentido, para tentar negociar os Estados Unidos com a Venezuela", conclui.

    Tags:
    crise de energia, crise na venezuela, energia, Valor Econômico, Corpoelec, Eletronorte, FIPE, Tesouro Nacional, Federal Reserve (Fed), Aneel, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, ONU, Ricardo Gennari, Fernando Henrique Cardoso, Hugo Chávez, Boa Vista, Roraima, Estados Unidos, Venezuela, EUA, Brasil
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