08:32 18 Dezembro 2018
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    Escritor Brígido Ibanhes com sua máquina de escrever queimado pelo atentado que sofreu.

    Molotov e perseguição: o preço de questionar o agronegócio (EXCLUSIVO)

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    Thales Schmidt
    Terra de Sangue: campo, poder e morte (4)
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    Nadar contra o poder do agronegócio no Mato Grosso do Sul significa contrariar interesses poderosos. A Sputnik Brasil encontrou histórias de ameaças, perseguição e pressão política contra quem quebra o silêncio que envolve o latifúndio.

    O escritor Brígido Ibanhes não tem o feitio de agradar a todos. Em uma terra de ouvidos moucos e olhar cabisbaixo, ele costuma usar sua pena para escrever sobre o latifúndio, o poder do agronegócio e a corrupção — atitude que já rendeu ameaças de morte e um atentado que lhe traz sequelas até hoje.

    Com 71 anos, Ibanhes hoje mora em Dourados, no interior do Mato Grosso do Sul, e começou a desagradar o status quo quando trabalhou como fiscal do Banco do Brasil, na década de 1980, em Sidrolândia. Ele era responsável pelo Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), que oferece indenizações para produtores que perdem a lavoura por problemas como pragas e problemas climáticos.

    "A frente agrícola que vinha lá do Sul, vinha subindo, já tinha passado por aqui. As lavouras já estavam estruturadas. Você olhava os campos e se você visse uma árvore lá no horizonte era muita coisa. Já estava tudo limpo, a natureza praticamente já não existia", diz Brígido à Sputnik Brasil.

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    Ruralistas que comandam MS
    Ele afirma diz que notou um padrão em sua agência do BB, com um tratamento diferenciado entre pequenos e grandes agricultores. Quando um dos seus laudos desfavorecia um grande produtor, recebia da chefia um pedido de mudança no texto. Brígido diz que descobriu a prática de fraudes para receber dinheiro do banco estatal. A prática era chamada "plantar Proagro".

    Ao denunciar os casos na Polícia Federal e na imprensa, recebeu uma tentativa de suborno, um convite para ser vereador e, por fim, uma ameaça de morte. Em 1993, foi demitido do Banco do Brasil, como represália por sua atuação, acusa.

    Coquetel molotov

    No mesmo final de semana que o PCC colocava São Paulo de joelhos, em 2006, Ibanhes publicou artigo na imprensa local contra um movimento de protesto dos ruralistas em Dourados. Sob o título de "O grande circo político dos agricultores", o escritor disse que os "grandes lovoureiros" não tinham "o mínimo respeito pelas coisas públicas e pelas pessoas" e desejavam para "os índios, os sem-terras, os miseráveis" a morte pela fome. "O que poderia ser um movimento sério, se transformou em arruaças de baderneiros com chapéu de couro", escreveu.

    Túmulo do indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues, assassinado em Caarapó, Mato Grosso do Sul.
    © Sputnik / Thales Schmidt
    Poucas horas depois depois da publicação, um coquetel molotov atravessa a janela de sua sala. O pé do escritor entrou em chamas, assim como a mão de sua esposa.

    "Eu vi um carro pequeno, preto. Encostou rapidamente ali, do lado da calçada de casa. Tinha outros carros, mas esse veio rápido e entrou ali. Eu até achei que era um amigo meu que tinha um carro daquele tipo. Em questão de 4, 5 segundos depois explodiu a bomba, um coquetel Molotov feito com garrafa de Coca-Cola, de vidro. Com combustível nafta, de avião, que é extremamente explosivo e isso foi muito rápido. Em questão de dois segundos estava tudo pegando fogo", diz à Sputnik Brasil.

    O escritor acusa que após o atentado houve uma tentativa abafar o caso, apesar dele próprio apresentar nomes de suspeitos e testemunhas para a promotoria. "O inquérito não produziu absolutamente nada", conta. Ibanhes foi colocado no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos e levou o caso para a Corte Interamericana de Direitos Humanos e o Conselho Nacional do Ministério Público — mas até hoje ninguém foi acusado pelo crime.

    CPI ruralista

    Vinculado à Igreja Católica, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) é uma organização nacional fundada em 1972 em defesa dos povos indígenas. A partir de diversos escritórios, o Cimi escreve relatórios anuais compilando as violências sofridas pelos povos originários.

    A atuação do grupo, contudo, desagrada setores dos produtores rurais. O presidente do Sindicato Rural de Dourados, Lúcio Damália, acusa o Cimi de atuar de forma sorrateira e diz que o grupo não é reconhecido sequer pela própria Igreja Católica.

    O Conselho Indigenista Missionário foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa de Mato Grosso Sul, em 2016. No relatório final, o grupo foi acusado de "um agir contrário ao Estado de Direito, em âmbito nacional e internacional" e de atuar"deliberadamente contra o desenvolvimento do país".

    A CPI foi presidida pela deputada Mara Caseiro e a relatoria foi de Paulo Côrrea (PR).

    Para o coordenador regional do Cimi Flávio Vicente Machado, o Cimi desagrada por "expor as estratégias do agronegócio de maneira sistemática" e porque os ruralistas não aceitam o modo de vida dos índios. "Para eles só existem um modo de vida".

    Durante as sessões da CPI, houve exposição das fotos dos filhos menores de idade dos membros do Cimi — que eram transmitidas pelo canal da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, afirma Machado.

    "Os interesses do agronegócio estão impregnados em toda a parte no Mato Grosso do Sul. O Governo do Estado é ruralista, boa parte dos deputados estaduais ruralistas e há juízes ruralistas. Então os três poderes estão aparelhados pelos interesses do agronegócio. E também a mídia local, boa parte dela é composta por fazendeiros e defensores dos interesses do agronegócio", diz o coordenador do Cimi. 

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    Tags:
    Conselho Indigenista Missionário (Cimi), PCC
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