21:58 24 Setembro 2018
Ouvir Rádio
    Mohammad Javad Zarif, Ministro das Relações Exteriores do Irã, em encontro com Mauro Luiz Iecker Vieira, Ministro das Relações Exteriores brasileiro, em 2015, em Teerã.

    Longe demais? Brasil pode sofrer prejuízo com tensão entre EUA e Irã

    © AP Photo / Ebrahim Noroozi
    Brasil
    URL curta
    3121

    Na terça-feira (8) o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a saída de seu país do Plano Conjunto de Ação Integral (JCPOA), também conhecido como acordo nuclear iraniano. Apesar da distância, a economia pode trazer impactos dessa tensão sobre o Brasil. A Sputnik ouviu uma especialista que explicou como isso pode acontecer.

    A saída dos Estados Unidos do acordo repercutiu mundo afora, com reflexos diplomáticos de primeira grandeza. Países considerados parceiros dos EUA, como Alemanha, Reino Unido e França, emitiram declarações negativas sobre a atitude do presidente estadunidense.

    O acordo foi assinado em 2015, e apontado como o fim de uma crise diplomática em torno do programa nuclear do Irã. Em troca da diminuição gradual de sanções econômicas sobre o país, Teerã concordou em reduzir seu programa nuclear e permitir livre a acesso de inspeções internacionais rigorosas de suas instalações científicas. As inspeções seriam uma forma de aferir se o programa manteve um desenvolvimento pacífico.

    O Irã tem hoje uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o que o coloca em uma posição importante na decisão do preço desse mineral, ainda fundamental para o funcionamento da economia do planeta.

    E é exatamente esse elemento que poderia trazer impactos significativos para a economia brasileira.

    "Aparentemente a gente está falando de um conflito distante, mas nem tão distante assim. A gente está falando ali de uma região, o Irã, que está no Oriente Médio, onde acontece grande parte da produção de petróleo do mundo. […] Um possível conflito [nessa região] pode causar uma interrupção, uma redução da produção de petróleo no mundo e isso tornaria o petróleo que vem para o Brasil […] mais caro", é o que afirmou à Sputnik Brasil a professora Juliana Inhasz, da Fundação da Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).

    "Aumentou o petróleo, aumenta tudo"

    A professora também apontou algumas possibilidades de fatores de variação do preço da mercadoria com impacto no mercado brasileiro. 

    "Parece que está longe mas não está não. A gente está falando aí, muito provavelmente, com qualquer tipo de conflito que aconteça a partir de agora, de um encarecimento do preço do petróleo, seja por conta dessa dificuldade de transporte, seja pela dificuldade de fazer o deslocamento dessa mercadoria, seja mesmo pela própria interrupção ou diminuição da produção do petróleo".

    Inhasz afirma que o fator de primeiro impacto é o preço dos transportes no Brasil, que terão reflexo direto de qualquer variação no preço da mercadoria. Um situação indesejável, visto a abrangência da malha rodoviária brasileira.

    "Para a gente issso é um problem muito sério porque o nosso sistema de distribuição de mercadoria, de escoameto, ele é feito praticamente, quase que totalmente em rodovias. Então a gente hoje têm um transporte que depende demais de derivados de petróleo, essencialmente diesel".

    Outro impacto possível é o preço da matéria-prima. Produtos que têm derivados de petróleo como matéria-prima poderiam ter acréscimo de preço para o produtor final. É, portanto, uma soma de fatores. "Aumentou o petróleo, aumenta tudo", afirma a professora.

    Efeito em cadeia pode impactar duplamente a inflação no Brasil

    Juliana Inhasz, da FECAP, também falou à Sputnik da possibilidade de um efeito internacional do preço ter reflexos no Brasil. 

    "A economia americana também muito provavelmente vai sofrer com esse efeito. Acontecendo isso […] a inflação americana também sobe. E o aumento da inflação americana vai acabar pressionando a economia americana a também aumentar a taxa de juros deles, porque ele têm um sistema bem parecido com o nosso de metas de inflação".

    Com isso, segundo a professora, o mecanismo de regulação econômica tende a ser o mesmo utilizado no Brasil, a taxa de juros. Dessa forma, o investimento nos Estados Unidos, considerado menos arriscado, torna-se mais rentável e atraente, o que novamente aponta para um cenário negativo para os brasileiros.

    Ainda na situação hipotética de flutuações causadas por atritos do Irã e reflexos de sua influência sobre a produção e circulação do petróleo, Juliana Inhasz afirma que: "Muito provavelmente a gente perde um pouco desses investimentos para a economia americana, e isso acontecendo a taxa de câmbios sobe mais ainda. E com a taxa de câmbio subindo mais ainda nossos produtos importados ficam ainda mais caros. Então a gente provavelmente vai ter um duplo efeito sobre a inflação caso aconteça qualquer tipo de descontinuidade da produção ou problemas de escoamento da produção de petróleo daqui para a frente".

    Com a economia brasileira ainda em ritmo lento de recuperação, esses efeitos seriam maus ventos para a retomada econômica. Com produtos mais caros, menos investimentos e impacto na inflação, a economia brasileira torna-se uma fator a mais para torcer contra crise que se instala entre o Irã e os Estados Unidos.

    Mais:

    Ministro turco elogia Teerã: Um Irã forte significa ter uma Turquia forte
    Irã ameaça 'destruir por completo' maiores cidades de Israel
    UE quer liderar após EUA deixarem acordo com Irã, mas oferece mais dúvidas do que soluções
    'EUA e Israel de fato começaram guerra em duas frentes contra Irã'
    Tags:
    taxa de câmbio, inflação, petróleo, acordo nuclear, Fundação da Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Juliana Inhasz, Donald Trump, Irã, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar no FacebookComentar na Sputnik