08:09 23 Julho 2019
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    A estudante de Letras, Stephane Marçal (Dia da Consciência Negra)

    Juventude negra continua ocupando espaços e lutando para ser ouvida

    © Foto : Arquivo Pessoal
    Brasil
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    Igor Patrick
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    Stephane Marçal fazia compras em uma loja quando um senhor branco entrou no estabelecimento e, sem constrangimento, afirmou querer reclamar porque a equipe de funcionários negros parecia "vinda da senzala". Também negra e moradora do Morro do Borel, zona norte do Rio, a estudante diz presenciar racismo todos os dias.

    "Naquele dia demorou alguns minutos para entender aquela situação toda, o que eu e aquelas pessoas negras da loja estávamos sofrendo. E quando eu percebi, também notei como os outros clientes ficaram em silêncio. É o silêncio a tônica de um discurso como esse", avalia Stephane, estudante de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

    E é em busca de vencer a normatização do racismo que cada vez mais jovens como Stephane, vindos de origem periférica e em desigualdade de condições de competição, se articulam nas universidades e tentam se fazer ouvir por meio de coletivos e grupos de pesquisa.

    De 2005, ano em que entrou em vigor a política de cotas em instituições públicas de ensino superior, até 2015, ano do último levantamento do IBGE sobre o tema, o número de alunos negros em idade universitária mais que dobrou: de 5,5% para 12,8%. A estatística, porém, ainda é tímida quando comparada aos números de estudantes brancos: o salto foi de 17,8% para 26,5% no mesmo período.

    O IBGE justifica a dificuldade de acesso dos negros a um diploma universitário culpando o atraso escolar. Majoritariamente alunos de escola pública, os estudantes enfrentam defasagem e repetência: na idade em que deveriam estar no terceiro grau, 53,2% dos negros estão cursando nível fundamental e médio (entre brancos, o número é bem menor, 29,1%).

    Stephane lamenta as barreiras enfrentadas por jovens da raça dela, já que, na opinião da estudante, a falta de acesso à universidade priva o povo negro do debate em torno do racismo e resistência. "Foi no espaço acadêmico, pelo contato com professores e colegas negros, que consegui me entender como um ser capaz de ter sua intelectualidade trabalhada. Só aí me dei conta que existe todo um processo de luta que não chega na favela. Quando se é preto na favela, você passa a vida imaginando que é muito difícil chegar lá", diz a jovem, que admite ter internalizado racismo quando mais nova.

    "Passei a minha infância toda com um problema de auto-estima como pessoa negra. Tentei embranquecer de muitas formas, quando era pequena 'botava' pregador no nariz para tentar afiná-lo, tive problemas em achar meu cabelo bonito e usava química para deixá-lo mais aceitável socialmente. Não entendia porque era preterida pelos meninos que eu gostava, de ser hostilizada em espaços frequentados por amigas brancas, de sofrer preconceito por ser favelada", relembra. 

    Presença negra

    Os problemas não terminam no momento em que o estudante negra finalmente ocupa uma cadeira no ensino superior. Muitas vezes, a aprovação também pode significar o aprofundamento de fronteiras raciais, já que a representatividade é pequena. Essa é a opinião do estudante de Relações Internacionais, William Marinho.

    "Na maioria das vezes, quem são as referências do negro na universidade? Os professores são brancos, os textos são escritos por brancos. Quem a gente vê negro é a pessoa que limpa o prédio, a funcionária que abre as salas, a 'tia' da xérox. Isso afasta as pessoas da minha raça, fico vendo que mesmo meus vizinhos ainda enxergam a continuidade dos estudos como algo distante. O negro ainda é condicionado a pensar que só pode ser motorista, dono de salão, pedreiro, nunca intelectual", conta Marinho, que mora na favela do Vidigal, zona sul do Rio de Janeiro.

    O estudante encara a presença em espaços públicos como um desafio. "A minha luta é não deixar a nossa voz morrer. Da minha parte, tento ser bastante ativo no coletivo negro do meu curso, uma forma que os alunos encontram de se fazer ouvir e expandir a militância".

    Já Stephane tenta criar oportunidades para que pesquisadores negros possam discutir não só a negritude, mas qualquer tipo de ciência. Ao lado de amigos, ela é uma das integrantes da equipe discente que neste ano realizou o primeiro "Escurescências". Na lista de convidados, homens e principalmente mulheres negras.

    Stephane (terceira, da esquerda para a direita) ao lado dos amigos Alice Meirelles, Lucas Miranda e Gabriel Ferreira: Parceria para viabilizar a fala de pesquisadores negros.
    © Foto : Suane Rodrigues/Escurescências
    Stephane (terceira, da esquerda para a direita) ao lado dos amigos Alice Meirelles, Lucas Miranda e Gabriel Ferreira: Parceria para viabilizar a fala de pesquisadores negros.

    "O vazio do conhecimento negro no currículo é algo bizarro. Demorou vários semestres para que eu tivesse contato com algum material escrito por negros. Hoje curso a disciplina de Intelectuais Negras e tenho contato com isso".

    Universidade é espelho da sociedade, diz pesquisador

    Considerado um dos principais pesquisadores sobre recorte de raça do país, Luiz Alberto de Oliveira Gonçalves diz que a questão do racismo na universidade precisa ser entendido como parte de um processo institucionalizado em todo o país. Doutor em Movimento Negro pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, na França, e ex-secretário executivo da Secretaria de Politicas da Igualdade Racial da Presidência da República, Gonçalves estuda a questão desde 1980 e concedeu uma entrevista exclusiva à Sputnik Brasil.

    "O racismo não escolhe lugar para aparecer. Quem imagina que o mundo acadêmico seria poupado disso não está nesse país, está em Marte, em qualquer outro lugar. É um procedimento que a nossa sociedade carregou por séculos e que ainda vamos levar muitos anos para erradicar. As academias não fogem desse processo, elas estão inseridas nessa mesma realidade. A própria entrada de negros por políticas afirmativas foi alvo de polêmica", reflete o professor.

    Gonçalves vê avanços, como a consolidação da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) criada no ano 2000, mas ainda enxerga problemas no que chama de "ciências nobres" como física quântica ou química. "Existem negros nessas áreas, trabalhando com alta tecnologia, mas na hora de apresentar descobertas, de representar equipes em simpósios e congressos, eles raramente vão. A representação se dá por colegas brancos e este problema não tem visibilidade nacional", apresentando como uma das soluções a articulação das ciência com saberes ancestrais africanos, por exemplo.

    O professor vê com bons olhos a criação e o uso da data do Dia da Consciência Negra para discutir o tema.

    "É importante e benéfico saber que todo dia 20/11, os movimentos negros fazem com que o Brasil desperte dessa amnésia, esse esquecimento. Se não lembrou durante um ano, pelo menos em um dia vamos dizer 'pare de palhaçada e perceba que ainda não resolvemos estas questões'. O racismo está incrustado, encravado no imaginário coletivo brasileiro, então tem que lembrar mesmo", finaliza.

    Tags:
    Dia da Consciência Negra, Secretaria de Politicas da Igualdade Racial da Presidência da República, Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais da França, Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, Luiz Alberto de Oliveira Gonçalves, Stephane Marçal, William Marinho, Morro do Borel, Vidigal, Rio de Janeiro
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