04:54 12 Abril 2021
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    A onda crescente de violência na cidade do Rio de Janeiro, nos seus municípios mais próximos e também no interior, está provocando constantes sensações de sobressalto e inquietações na população.

    Somente nos seis primeiros meses deste ano, mais de três mil pessoas foram assassinadas, segundo o Instituto de Segurança Pública. Outro fato inquietante — 119 policiais militares foram mortos entre janeiro e a primeira quinzena de novembro.  

    Para o Coronel Íbis Pereira, ex-Comandante Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, hoje Pesquisador do Núcleo de Identidade Brasileira e História Contemporânea da UERJ (Universidade do Estado do Rio), apesar de todos estes fatos, o Rio de Janeiro, estatisticamente, ainda não pode ser considerado como a cidade mais violenta do mundo. Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, Íbis Pereira afirmou:

    “O Rio de Janeiro não pode ser considerado como a cidade mais violenta do mundo. Quando a gente fala em cidades violentas, nós estamos nos referindo a mortes intencionais. É a chamada violência letal. Mortes violentas intencionais formam um conjunto que mede a temperatura da segurança nas cidades do mundo inteiro. É um indicador que reúne quatro crimes: homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, latrocínio (morte seguida por roubo da vítima) e as mortes que decorrem por oposição à ação da polícia. Esses quatro indicadores indicam a letalidade violenta e a gente, para medir a violência numa cidade, estabelece uma referência entre o total de mortes intencionais (dolosas) por grupos de cem mil habitantes. A partir daí, tira-se uma taxa para medir a violência numa cidade ou mesmo num país. Em 2014, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública fizeram um levantamento entre 50 cidades de várias partes do mundo consideradas as mais violentas. Das 50 cidades pesquisadas, 46 se situavam na América Latina e 32 delas, especificamente no Brasil", explicou o coronel. 

    "O Rio de Janeiro não estava neste ranking — e continua não estando apesar desta vaga de violência – entre as cidades mais violentas do mundo”, disse o interlocutor da agência.

    Para Íbis Pereira, a crise política e a crise econômica agravaram as dificuldades para a formulação de uma eficaz política de Segurança Pública:

    “Eu acho que nós vivemos um quadro de colapso em nossa política de segurança pública. Sobretudo porque nos últimos dez anos, essa política foi desenhada a partir de dois programas: o Programa de Metas, montado em cima das estatísticas do Instituto de Segurança Pública (ISP), e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A Política de Metas era fixada em cima de estatísticas de violência com objetivo de reduzir o quadro criminal enquanto que o Programa das UPPs foi elaborado com vistas à pacificação das comunidades. Esses dois elementos, principalmente as Unidades de Polícia Pacificadora, entraram em colapso a partir de 2012. Nós não conseguimos dar uma nova direção a este Programa. Isso agudizou o problema da violência no Rio de Janeiro, principalmente pelo impacto que esse Programa promoveu na dinâmica do crime", lamentou o policial.

    "Além disso, nós vivemos, principalmente a partir de 2014, uma grande crise econômica e política no Estado do Rio. Hoje, mais de 50% da frota da Polícia Militar, que faz o patrulhamento das ruas, encontra-se com problemas. Então, nós temos um déficit de policiamento, promovido em parte pelo crescimento das UPPs que envolveu quase dez mil policiais militares. Isso causou um déficit de policiamento nas ruas do Rio. Além disso, uma forte crise econômica com impacto direto nas forças de Segurança (há pouco tempo tivemos uma greve na Polícia Civil do Estado que durou quase três meses) e também tivemos uma crise política profunda. Esse me parece ser o maior problema. Sem decisão política, você não tem política pública, não tem política de Segurança e aliás, você não tem nada. O Estado para. Então me parece que a percepção que temos hoje do Estado do Rio de Janeiro, com relação ao agravamento no cenário da Segurança Pública, essa percepção tem razões profundas, é real e ela traduz uma dimensão visível dessa crise ou dessas crises. Uma crise política profunda, uma crise econômica e uma crise financeira provocaram todo este cenário de agravamento na Segurança Pública do Rio”, concluiu Íbis Pereira.

    O ex-Comandante-Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro considera imprescindível o governo federal se empenhar com afinco para elaboração de uma verdadeira Política Nacional de Segurança Pública:

    “Uma questão bastante importante para se considerar é que não teremos uma política eficaz de Segurança Pública para as unidades da Federação se não tivermos uma Política Nacional de Segurança Pública que seja eficaz comprometida, sobretudo, com a redução da letalidade violenta que é o principal indicador. Homicídios (a morte violenta de pessoas) a gente não consegue enfrentar num país do tamanho do Brasil, com a complexidade dos problemas do Brasil, se não houver uma Política Nacional de Segurança Pública. A gente não enfrenta adequadamente esses problemas sem a participação e o envolvimento do governo federal com a formulação de políticas públicas próprias para esse setor. Essas políticas precisam promover articulações do governo federal com os governos de todas as unidades da Federação: Estados, Municípios e Distrito Federal.”

    Um exemplo claro do quanto a criminalidade afeta a população do Rio é o da empresária Juliana da Silva Alves, de 28 anos. Moradora da Baixada Fluminense somente neste ano de 2017, ela passou por três situações de violência. Na mais grave delas, teve um carro roubado por assaltantes fortemente armados. Em outras duas circunstâncias, conseguiu escapar de dois arrastões. Juliana detalhou para a Sputnik Brasil as situações.

    “Uma destas ações de violência comigo resultou no roubo do meu carro. Aconteceu num domingo, por volta das 7 horas da noite. Eu fui a um supermercado, perto da minha casa na Rodovia Presidente Dutra (Rio-São Paulo), na altura de Belford Roxo, e ao sair do mercado quando peguei o retorno na Rodovia, no sentido Rio, eu fui abordada. 4 ou 5 homens fortemente armados, um deles com fuzil, fizeram a abordagem pelos dois lados do meu carro e levaram o veículo. Além desse assalto, enfrentei dois arrastões mas, graças a Deus, consegui escapar de ambos”.

    A violência fez Juliana mudar de hábitos:

    “Do jeito como a violência matou no Rio em 2017, a gente fica até sem esperanças. Eu, por exemplo, mudei completamente meus hábitos. Eu e minha família adotamos o sistema do alerta total. Estamos evitando sair de casa à noite, e quando tenho de sair à noite nunca vou sozinha porque nas três situações que enfrentei, eu estava sozinha, e por aí vai a nossa situação no Rio. Fica um certo trauma. Certos lugares eu já não freqüento e depois de um certo horário, nós não saímos de casa. No bairro em que moro, nós, os moradores, fizemos uma mobilização para fechar alguns acessos à nossa rua porque, se o Estado não faz nada pela gente, a saída é todos se unirem para tentar fazer alguma coisa para nossa própria proteção”, afirmou a entrevistada.

    A violência no Rio de Janeiro provocou mais um efeito, este no mundo virtual. Em fevereiro de 2016, entrou no ar o site www.ondetemtiroteio.com.br e, em junho de 2017, foi lançado o aplicativo OTT-RJ (Onde Tem Tiroteio). Em janeiro de 2016, o petroleiro Benito Quintanilha e o engenheiro de petróleo Dennis Colli, amigos pessoais, liam a notícia de que uma criança havia sido assassinada, vítima de bala perdida. Segundo Dennis Colli, em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, a princípio, Benito Quintanilha passou a utilizar sua própria página numa rede social para informar sobre violência e, principalmente, troca de tiros no Rio de Janeiro e nos municípios da rede metropolitana. Com o tempo, Dennis sugeriu que a ideia destes registros ganhasse corpo e, com a ajuda de mais um amigo, Marcus Vinícius, os três começaram a elaborar o site. Posteriormente, mais um amigo se juntou ao grupo, Henrique Caamaño e então o site, o aplicativo e as redes sociais do OTT (Onde Tem Tiroteio) entraram no ar e hoje funcionam 24 horas por dia, registrando alertas sobre a violência, o que inclui enfrentamentos de criminosos com a polícia, troca de tiros, invasões de comunidades, arrastões, assaltos e diversos outros incidentes.

    De acordo com Dennis Colli, o site e o aplicativo OTT não têm qualquer conexão com as forças de segurança do Estado do Rio e são abastecidos por informações das pessoas que presenciam as cenas de violência. Porém, antes de entrar no ar, as informações passam por uma verificação e checagem:

    "Temos um sistema que chamamos de círculos. O círculo maior abrange todas as pessoas que registram os fatos ligados à violência, fatos que elas mesmas observam e acompanham. Os registros vão direto para o aplicativo mas não entram direto no ar. Antes, caem no que nós chamamos de círculo menor ou círculo de confiança. É neste momento que fazemos a verificação, confirmação e checagem dos fatos relatados. Só depois de termos as informações confirmadas é que elas vão para o ar. Do contrário, seria uma atitude irresponsável que só serviria para aumentar o caos. Esta verificação é feita por pessoas que moram em comunidades e são as mais indicadas para fazer este procedimento. Nosso objetivo é esse transmitir informações com segurança – as verificações levam no máximo 30 a 40 segundos – e assim podemos emitir os alertas. Tudo para que as pessoas possam ter alguma indicação sobre como está a situação no Rio e nos demais municípios, e assim evitar de passar por locais em que a violência esteja ocorrendo".

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