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    Etanol: vem aí uma nova queda-de-braço entre Brasil e EUA

    Nelson Almeida/AFP
    Brasil
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    "Os problemas enfrentados pelos produtores brasileiros de etanol — entre eles o aumento da importação dos Estados Unidos — são fruto da política de preços equivocada adotada nos governos Dilma, que fecharam diversas usinas e impactaram os resultados da Petrobras."

    A opinião é de Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Agro). Em entrevista à Sputnik, ele explica que o Brasil é hoje autossuficiente na produção do combustível, mas que o etanol americano chega nos portos do Norte e Nordeste a custo mais baixo do que o produzido no restante do país e despachado para a região.

    No primeiro trimestre deste ano, as compras de etanol americano cresceram cinco vezes em comparação com igual período de 2016, atingindo 720 milhões de litros. Segundo Rodrigues, ao segurar os reajustes da gasolina, para não impactar os índices de inflação, a presidente Dilma Rousseff acabou desestimulando a produção de etanol no país. Como nem todas as usinas são equipadas para produzir açúcar e álcool simultaneamente, diversas fecharam no país. Para tentar proteger o produtor brasileiro, o governo estuda agora adotar uma sobretaxa ao etanol dos EUA.

    "Entre os instrumentos que ela (Dilma) escolheu para combater a inflação estava o rígido controle do preço da gasolina, o que produziu dois efeitos trágicos: a descapitalização da Petrobras, porque comprava lá fora a gasolina por um preço e vendia mais barato aqui dentro. Como o etanol é competitivo com a gasolina até um valor de 70% a 75% do valor da bomba de gasolina, e os preços do etanol sobem a cada ano, chegou uma hora em que os preços não ficaram mais competitivos com os da gasolina", explica o consultor, afirmando que isso possibilitou o avanço do etanol americano que é produzido a partir de milho.

    Rodrigues afirma que, com os avanços da tecnologia, o etanol produzido a partir do milho se tornou competitivo com o da cana-de-açúcar. Tanto isso é verdade, diz ele, que no Brasil já existem projetos para construção de usinas no Mato Grosso e há uma expectativa de surgimento de novos acoplados aos de etanol de cana, o que permitiria as unidades trabalharem mais tempo durante o ano. Ele observa, porém, que tudo isso dependerá do preço do milho, que é muito mais volátil do que o do açúcar.

    Com relação à ideia do governo de criar uma sobretaxa para importação do etanol americano, Rodrigues diz que é favorável ao livre comércio por convicção, mas admite a hipótese de uma sobretaxação compensatória caso se comprove que a produção do milho americano é subsidiada pelo governo. "A gente não pode ser meio liberal e meio protecionista. Até admito uma tarifa que compense o subsídio lá estabelecido, o que não temos aqui. Só que esse número ninguém conhece."

    Como um alternativa temporária à taxação, o governo determinou que os agentes que trabalham com importação de biocombustíveis devem atender às mesmas obrigações de manterem estoques mínimos para atendimento ao mercado nos mesmos parâmetros dos exigidos aos produtores. As usinas precisam ter estoques de pelo menos 8% das vendas totais no ano anterior até a data de 31 de março. A regra foi criada visando  à garantia de entrega do combustível na entressafra de cana na região Centro-Sul, que vai de dezembro ao fim de março.

    A proposta da sobretaxa ainda divide governo e produtores. Para alguns especialistas, a cobrança de uma sobretaxa de 20%, como defendida por alguns setores da indústria, colocaria o Brasil em rota de colisão comercial com os EUA, que poderia retaliar sobre o etanol brasileiro ou outros setores.

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    Tags:
    importação, sobretaxa, guerra de preços, produção, combustíveis fósseis, economia, FGV Agro, Dilma Rousseff, Roberto Rodrigues, Brasil
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