00:04 25 Novembro 2017
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    Professores, servidores, alunos e ex-alunos da UERJ participam de protesto contra a falta de recursos da instituição

    Sem salários, sem bolsas, sem aulas: UERJ agoniza com o descaso pela educação no Rio

    Tânia Rêgo / Agência Brasil
    Brasil
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    Considerada uma das melhores universidades do país e com quase 70 anos de tradição, a UERJ se vê abandonada pelo governo em meio à falência do Estado do Rio de Janeiro. De quem é a culpa? Como as quase 60 mil pessoas da comunidade da UERJ estão sendo afetadas?

    Em nota publicada em 31 de julho, a reitoria da UERJ anunciou a suspensão por tempo indeterminado do ano letivo de 2017, agravando ainda mais a crise de uma das mais importantes universidades do país e deixando incerto o futuro de mais de 45 mil estudantes. O cenário também é desesperador para os mais 8,5 mil funcionários ligados à UERJ. Os servidores já estão há quatro meses sem receber salário, além do 13º que também não foi pago.

    Ainda em janeiro deste ano, o reitor da universidade Ruy Garcia Marques publicou uma carta aberta acusando o governo do Estado de “sucatear a UERJ por absoluta falta de visão estratégica”. 

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o professor do Departamento de Letras da UERJ, Renê Forster, afirmou que a crise em que se encontra a UERJ tem como causa a "inversão de prioridades do governo" em relação à educação. 

    "A crise da UERJ é fruto de uma crise geral do Estado e o principal causador dessa crise é uma inversão de prioridades do governo", afirma. 

    "A gente tem um governo hoje que gastou bilhões com as Olimpíadas e concedeu alguns bilhões em isenção fiscal; tem uma dívida ativa que é de cerca de R$ 66 bilhões que não é cobrada. E com todo esse dinheiro que foi gasto e deixou de ser arrecadado de alguma forma, o governo não investe nas universidades e na educação como um todo", acrescenta Forster.

    Vale lembrar que há apenas um ano atrás eram realizadas as Olimpíadas no Rio, evento que ilustra a contradição entre as promessas de desenvolvimento da cidade e a posterior deterioração dos serviços públicos. Os Jogos Olímpicos receberam mais R$ 40 bilhões de investimento e o estádio do Maracanã, vizinho da universidade, recebeu um investimento de R$ 1,3 bilhão para as suas obras e também sofre com o abandono e enfrenta grave crise.

    Já o orçamento previsto para a UERJ funcionar em 2017 é de R$ 1,136 bilhão, mas o repasse não deve alcançar a metade do valor necessário. Já em 2016, o orçamento também foi de R$ 1,136 bilhão, mas apenas R$ 767,4 milhões foram repassados.  

    'Sistema político viciado'

    Para o professor Renê Forster, a causa da crise da educação está associada ao próprio funcionamento atual sistema político. Segundo ele, "o Estado optou por dar isenção a grandes empresas que financiam as campanhas políticas ao invés de fazer os investimentos que são obrigatórios pela legislação". O acadêmico afirma que "o Estado deixou de cumprir o mínimo que deveria ter investido em saúde; deixou de cumprir o mínimo que a constituição estadual garantiria em ciência e tecnologia". 

    "Então, a crise é fruto de um sistema político viciado […] a gente vê no Rio, por exemplo, que o Estado escolheu não pagar a UERJ. Os servidores da UERJ são os últimos a receber. Os aposentados são os últimos a receber", disse.

    O professor do Departamento de Letras também citou o drama em que se encontram os servidores que estão sem receber salários. 

    "O principal problema hoje é que a falta de pagamento já não é mais uma dificuldade pontual. Ela já se arrasta há muito tempo. É mais de um ano convivendo com atrasos e calotes no pagamento", destacou.

    "A situação que a gente tem hoje na UERJ é que nós temos muitas pessoas que, de fato, não têm condições de custear sequer a sua ida à universidade para custear o transporte e a alimentação. Isso está acontecendo com muitos docentes. Os docentes não têm dinheiro pra trabalhar", afirmou Forster.

    Professores, servidores, alunos e ex-alunos da UERJ participam de protesto contra a falta de recursos da instituição
    Tânia Rêgo / Agência Brasil
     

    Além disso, os estudantes e pesquisadores também sofrem com atraso no recebimento de bolsas, sem verba para se deslocar e se alimentar na universidade. E o cenário de infra-estrura no campus só ilustra o descaso e a deterioração da universidade. A mais recente nota divulgada pelo reitor Ruy Garcia Marques diz que "as condições de manutenção da universidade degradam-se cada vez mais com o não pagamento das empresas terceirizadas, contratadas por meio de licitação pública: limpeza, vigilância e coleta de lixo estão restritas, além de o Restaurante Universitário permanecer fechado”.

    Somando professores, alunos, funcionários técnicos, a UERJ soma comunidade de 60 mil pessoas. "Isso é maior do que a metade dos municípios do Estado do Rio de Janeiro", observa Renê Forster. "Então é uma comunidade muito grande e quando você afeta uma instituição deste porte, você afeta muita gente", completa.  

    De acordo com o ranking das melhores universidades mundiais  de 2017 divulgado pela Times Higher Education, a UERJ ficou na 13ª colocação entre as universidades brasileiras, levando em conta critérios como pesquisa, ensino e projeção internacional. Não é difícil imaginar o quanto o desenvolvimento do ensino superior no Rio de Janeiro perde com o abandono que sofre a UERJ. 

    Enquanto professores, alunos e funcionários da UERJ lutam pela sobrevivência da universidade e buscam soluções para a crise, é impossível não se lembrar da célebre frase do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro: "a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto".

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    Tags:
    falência, crise no Rio, universidade, ensino, educação, Times Higher Education, UERJ, Renê Forster, Ruy Garcia Marques, Brasil, Rio de Janeiro
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