17:39 17 Junho 2019
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    'Desaprovação recorde de Temer é fruto da falta de diálogo com a população'

    Beto Barata / PR
    Brasil
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    Câmara dos Deputados decide futuro de Michel Temer (10)
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    "A desaprovação recorde de 94% do governo e do presidente Michel Temer, captada pela pesquisa Ipsos Public Affairs este mês, é fruto do descompromisso do Planalto em estabelecer consultas à sociedade antes de promover modificações radicais em temas tão importantes como as reformas trabalhista e da Previdência."

    A análise é de Dário de Sousa e Silva, professor de Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e do Instituto de Ciências Sociais, que em entrevista à Sputnik Brasil analisou ainda duas outras pesquisas incluídas pela Ipsos: as dos nomes com maior reprovação e aceitação junto à população. A sondagem ouviu 1.200 pessoas em 72 municípios, tem margem de erro de 3% para mais ou para menos e foi realizada antes do aumento de PIS/Cofins sobre combustíveis, que chegou a levar o litro da gasolina a R$ 4,40.

    Na avaliação de Sousa e Silva, os votos de reprovação e aprovação de uma pesquisa vão quase sempre para os nomes que estão há mais tempo sendo veiculados nas mídias. Segundo ele, se a enquete é feita por meio de pergunta dirigida — por exemplo, aprova as ações de fulano?— , enquanto a seondagem sobre que mais se se aprova ou reprova se constitui em outro tipo de pesquisa. Para o professor da UERJ, numa sondagem não estimulada, o resultado deve ser interpretado em vista da intensidade da exposição de alguém na mídia. 

    "Outras ações importantes que exigiriam não só uma popularidade, mas uma delegação da sociedade civil, foram tomadas sem esse aval, como a aprovação da reforma trabalhista. Nenhum parlamentar que apoiou esse mudança tão radical fez campanha para se eleger tendo como plataforma a mudança tão radical da CLT. Trata-se de uma gestão, e não só do presidente, que não precisa de aprovação popular. Numa sociedade democrática, há pelo menos algum tipo de consulta, ainda que plebiscitária, à população. Não há qualquer preocupação com resultados eleitorais ou impopularidade nas eleições do ano que vem", diz o professor.

    Esse distanciamento da sociedade só é possível, segundo Sousa e Silva, se políticos que têm como profissão a política forem representantes de si mesmo ou de representantes daqueles de que dependem do voto. 

    "Quando se quebra a legitimidade da ação política do governante, isso se esprai para todos os campos. Os países de língua inglesa têm uma palavra que nos falta neste momento: 'accountability', a necessidade de prestar contas. O presidente e seus apoiadores no Congresso agem como se não precisassem prestar contas. Àqueles a quem deveriam prestar contas são os que estão se expressando através da desaprovação, da aprovação de personagens de que a mídia dispõe. Há uma tendência, em momentos de crise, que imagens de celebridade que puxem mais radicalmente para a idealização da bondade", diz Sousa e Silva. 

    Entre os nomes mais citados de forma favorável na sondagem da Ipsos, o juiz Sérgio Moro lidera, com 46% das respostas, seguido pelo apresentador de TV Luciano Huck (45%). Na sequência aparecem o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa (44%) e o ex-presidente Lula (29%). Na contramão, os mais impopulares, além de Temer, são o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (93%), o senador Aécio Neves (90%) e empatados o senador Renan Calheiros e a ex-presidente Dilma Rousseff (80%).

    Para Sousa e Silva, alguns políticos confiam na continuidade desse ambiente em que a consulta popular se torna menos importante, um típico cenário de despolitização. Ele cita os casos de figuras proeminentes da mídia que migrarem para o campo da política institucional, o que é muito significativo no sentido de uma mensagem antipolítica que começou a surgir em todo o mundo a partir de 2011 e no Brasil em 2013, quando a população passou a ir às ruas rejeitar a política tradicional.

    "O atual presidente dos Estados Unidos era apresentador de um reality show. O João Dória era editor de revista, tinha um programa na televisão, um campo que se apresenta como se não fosse político. No Brasil isso não é  novidade. Quando o Collor se elegeu, também se apresentava com uma imagem que pairava acima da política, o Caçador de Marajás, alguém que age em nome da moralidade."

    Segundo Sousa e Silva, as mudanças na Constituição foram radicais e profundas: padrões de investimento em educação e saúde, a legislação trabalhista, proximamente a da Previdência. Segundo ele, essas mudanças não chegam em detalhe e complexidade para a maior parte do público. Para o professor, há uma tendência, especialmente em grupos mais identificados à direita de não se apresentarem assim. 

    "O Brasil tem uma característica interessante: os ricos se apresentam socialmente como classe média e os políticos de direita como de centro. Estamos na possibilidade de resolver o quadro das eleições do ano que vem, se houver eleições, que podem ser decididas por personagens do BBB (Big Brother Brasil)", conclui Sousa e Silva.

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    desilusão, reformas, diálogo, eleições, política, popularidade, Dário de Sousa e Silva, João Dória Jr, Luciano Huck, Joaquim Barbosa, Sérgio Moro, Donald Trump, Aécio Neves, Michel Temer, Renan Calheiros, Fernando Collor, Lula, Eduardo Cunha, Dilma Rousseff, Brasil
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