19:42 18 Junho 2019
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    Venda de unidades do JBS tem desconto de R$ 200 milhões

    Escândalos abrem a temporada de aquisição de empresas no Brasil

    © AFP 2019 / Rodrigo Fonseca
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    O aumento de empresas com dificuldades financeiras e de acesso ao crédito, sobretudo aquelas envolvidas em escândalos de corrupção, estão deixando o Brasil no foco de grandes grupos estrangeiros e mesmo de companhias nacionais para aquisições e mesmo fusões, segundo vários consultores.

    O diretor da 4E Consultoria, Juan Jensen, admite que há muitas empresas hoje no Brasil com dificuldades financeira e de crédito, sobretudo as envolvidas em escândalos de corrupção. Segundo ele, com isso os custos de crédito sobem e bons ativos na mão de outras empresas passam a valer mais do que os desses grupos, como o da própria Alpargatas, controlada pela JBS, até porque há um movimento de consumidores e empresas boicotando a compra de produtos dessas companhias. Por isso, elas precisam se desfazer de ativos bons, mesmo a preços mais baixos. Lá fora, há bastante grupos com dinheiro que podem ter interesse nessas aquisições. 

    Embora não preponderante na decisão de investimento, o diretor da 4E Consultoria diz que a questão política acaba afetando o valor de mercado das empresas. Um dos exemplos citados por Jensen é o do J&F Investimentos, controlador do grupo JBS dos irmãos Wesley e Joesley Batista, após a divulgação do encontro e da gravação entre o empresário e o presidente Michel Temer. Após fechar acordo para pagar multa de R$ 10,3 bilhões, aplicada pelo Ministério Público Federal, com o boicote a seus produtos e com dificuldades de acesso a crédito, o grupo vendeu suas operações de carne bovina no Paraguai, Uruguai e Argentina por US$ 300 milhões. O negócio, ainda assim, só foi concretizado após o JBS recuar do preço inicial de R$ 500 milhões.

    "O valor das empresas não dá para ficar independente da questão do presidente Temer. Isso influi sobretudo na velocidade se vai ou não se vai aprovar as reformas econômicas. A partir da velocidade com que  economia brasileira se recupere, você pode ter um quadro em que os preços estão relativamente baixos, ou se você achar que as reformas não avançam e a crise política se estende e o Brasil vai crescer menos aí os preços estão até caros, e se pode esperar oportunidades melhores para compra", diz o consultor, observando que os ativos têm oscilado bastante a sabor dos acontecimentos e das notícias no campo político. 

    Quanto à aparente calmaria do mercado financeiro frente ao agravamento da crise política, com o surgimento de mais denúncias envolvendo a linha de frente do governo, Jensen afirma que parte do mercado está considerando o cenário de resolução política mais rápida, recuperação de governabilidade, seja com Temer, seja com outro nome sucessório, e que as reformas avancem, não só a trabalhista, como a da Previdência. Na avaliação de Jensen, se a reforma da Previdência não passar, ou passar muito desfigurada em relação ao projeto original — com as concessões feitas até agora pelo governo, ela já perdeu 30% de sua capacidade financeira —, ativos financeiros como câmbio e Bolsa vão refletir mais esse novo cenário.

    "Um bom pedaço do mercado financeiro ainda não incorporou a possibilidade da reforma da Previdência não avançar", diz Jensen.

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    Tags:
    crédito, endividamento, estrangeiros, ativos, empresas, corrupção, fusões e aquisições, MPF, 4E Consultoria Internacional, Alpargatas, JBS, J&F, Michel Temer, Juan Jensen, Joesley Batista, América do Sul, Brasil
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