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    Fundo Brasil-China: Por que acordo bilionário pode causar problemas aos brasileiros

    © AFP 2019 / Greg Baker
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    Os governos do Brasil e da China formalizaram na última terça-feira a criação do Fundo de Cooperação para Expansão e Capacidade Produtiva Brasil-China, cujo aporte de US$ 20 bilhões vai visar o financiamento de projetos de interesse comum para os dois países. Porém, há componentes que demandam cuidado ao Palácio do Planalto.

    Em um momento de crise profunda e seguidas quedas de arrecadação – somadas a uma política de austeridade no Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), principal financiador de obras no Brasil –, o governo brasileiro vê com muito otimismo a parceria com os chineses, que possuem muito interesse nos setores de logística, energia, recursos minerais, tecnologia avançada, agricultura, agroindústria, manufatura e serviços digitais.

    A ideia do Fundo Brasil-China foi anunciada em outubro do ano passado, logo depois da visita do presidente Michel Temer (PMDB) ao país asiático. No total, os chineses entrarão com US$ 15 bilhões, e o Brasil com outros R$ 5 bilhões. Em comunicado oficial, o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento, Jorge Arbache, exaltou o acordo.

    “É um mecanismo inovador de financiamento. De todos os fundos geridos pelo Claifund (fundo chinês para investimento na América Latina), este é o único que tem acordo paritário, ou seja, com decisões do mesmo peso dos dois lados. É uma conquista”, avaliou Arbache.

    Anteriormente, em 2015, a China já havia firmado acordos para investimentos no Brasil da ordem de US$ 50 bilhões. O volume e a amplitude dos investimentos, que aparecem em um bom momento para que a economia brasileira volte a andar, atacando ainda velhas mazelas que dificultam o desenvolvimento do país há décadas, parece que não pode dar errado.

    Mas pode.

    'Negócio da China'

    Quem recentemente destacou um ponto importante (e pouco comentado) das relações de Pequim com outros países foi Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos no Centro de Pesquisas em Políticas e Pesquisador de Nova Déli, na Academia Robert Bosch, em Berlim.

    “A China está apoiando projetos de infraestrutura em países em desenvolvimento estrategicamente localizados, muitas vezes estendendo empréstimos enormes a seus governos. Como resultado, os países estão se tornando atraídos em uma armadilha de dívidas que os deixa vulneráveis à influência da China”, avaliou.

    Em seu artigo publicado no site Project Syndicate, em janeiro deste ano, Chellaney destaca que “a concessão de empréstimos para projetos de infraestrutura não é inerentemente ruim”. E quando não é o caso de emprestar dinheiro, mas sim participar dos investimentos – como parece mais aplicável ao caso do Fundo Brasil-China –, a situação também pode não ser a melhor possível.

    "Os projetos que a China está apoiando são muitas vezes destinados a não apoiar a economia local, mas a facilitar o acesso chinês aos recursos naturais, ou a abrir o mercado de produtos chineses de baixo custo e de baixa qualidade. Em muitos casos, a China envia seus próprios trabalhadores da construção, minimizando o número de empregos locais criados", analisou.

    Os fortes investimentos chineses em outros países já deram a Pequim uma vantagem econômica e, por consequência, política em disputas na Ásia. Foi assim em casos registrados em Sri Lanka, Camboja, Laos, Mianmar e Tailândia.

    "A China está tomando medidas para garantir que os países não possam escapar de suas dívidas. Em troca do reembolso do reescalonamento, a China exige que os países adjudiquem contratos para projetos adicionais, tornando intermináveis as crises da dívida. Em outubro passado, a China cancelou US $ 90 milhões da dívida do Camboja, apenas para garantir novos contratos importantes", emenda Chellaney.

    'Não há almoço grátis'

    Outra iniciativa geopolítica que expõe os planos geopolíticos chineses é a "Nova Rota da Seda", megaprojeto de infraestrutura que abarca 70 países, desde a Ásia, passando pela Eurásia, Oriente Médio e parte da África, uma área que abriga 60% da população mundial e 25% do comércio global de bens e serviços. E o volume total de investimentos alcança o total de US$ 1,3 trilhão.

    Todavia, como diz um certo mantra liberal – "não existe almoço grátis" –, há aqui também um interesse chinês que vai além do econômico. É o que publicou no último dia 17 de maio o especialista em assuntos geopolíticos e econômicos da Ásia, Richard Javad Heydarian, autor do livro "Novo Campo de Batalha da Ásia: os EUA, a China e a luta pelo Pacífico Ocidental".

    "Acima de tudo, no entanto, [a Nova Rota da Seda] permite que a China bloqueie os recursos minerais preciosos e transforme as nações da massa terrestre euro-asiática e do Oceano Índico em devedores a longo prazo. Uma agência de classificação de crédito líder recentemente advertiu que o [plano] é 'impulsionado principalmente pelos esforços da China para ampliar sua influência global', na qual 'as verdadeiras necessidades de infraestrutura e a lógica comercial podem ser secundárias a motivações políticas'".

    Os altos investimentos no Brasil ainda podem se justificar pela política isolacionista adotada pelos EUA, tão logo o republicano Donald Trump entrou na Casa Branca. "Órfã" do seu principal parceiro comercial, a América do Sul como um todo vem sendo seguidamente cortejada pelo governo chinês, disposto a assumir um papel que parece vago.

    Que a "armadilha dos débitos" não faça do Brasil mais uma vítima.

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    Tags:
    nova rota da seda, Fundo Brasil-China, investimento estrangeiro, geopolítica, infraestrutura, diplomacia, economia, Richard Javad Heydarian, Brahma Chellaney, Michel Temer, Xi Jinping, China, Brasil
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