00:01 04 Julho 2020
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    Insegurança, economia instável, decepção com a política, qualidade de vida e de serviços públicos são alguns dos motivos que têm levado mais brasileiros a cada ano a deixar o país e fixar residência em Portugal. A Sputnik conversou com uma brasileira e um brasileiro que tomaram essa decisão e que contam agora o porquê não querem voltar ao Brasil.

    Nos últimos anos, destino das classes média e alta endereços como Miami na Flórida (EUA) começaram a ser trocados por cidades portuguesas como Lisboa, Porto ou Coimbra. Atento ao aumento dessa procura por parte dos brasileiros, e para estimular sua economia, o governo português começou a conceder uma série de incentivos para atrair esse tipo de público. Uma das iniciativas de maior sucesso foi a oferta de visto permanente para estrangeiros que investam um mínimo de 500 mil euros (cerca de R$ 2 milhões) na abertura de negócios ou aquisição de imóveis no país. 

    O aumento de brasileiros interessados em viver em Portugal pode ser medido pela procura no mercado imobiliário local. Em 2014, os brasileiros correspondiam a 6% dos estrangeiros que procuravam adquirir imóveis no país. Hoje, esse percentual é de 10%. Até 2015 foram concedidos 69 vistos gold — aqueles dados em troca de investimento de US$ 1 milhão de euros —, enquanto hoje esse total é de 282. Contribui também para esse crescimento o preço médio do metro quadrado em Lisboa, ainda bem mais em conta do que em outras capitais europeias. Lá, ele oscila na faixa dos 8 mil euros, ao passo que em Paris chega a 18 mil euros e a 27 mil euros em Londres. Consultorias imobiliárias, como a JLL confirmam o aumento da procura de brasileiros por imóveis em várias cidades do país.

    A professora carioca Glória Dettmar foi uma das que resolveu fazer o caminho inverso ao de Pedro Álvares Cabral e descobrir Portugal como um novo país onde é possível viver com qualidade de vida superior à do Brasil de hoje. Glória, que mora na região metropolitana de Lisboa, diz que trabalhava como pedagoga e pesquisadora em comunidades no Rio e que o clima de insegurança no dia a dia e a violência foram determinantes na decisão.

    "Eu vim para cá em 2011 fazer uma pós-graduação em História e acabei ficando para fazer o mestrado. Por problemas pessoais tive que voltar ao Rio em 2013, fiquei seis meses, mas não consegui colocação de trabalho. Chegando a Portugal e ter uma qualidade de vida, eu como mulher podendo ter o direito de ir e vir sem ninguém me incomodar foi uma coisa que me deu muito contraste quando eu voltei com uma realidade diferente da do Rio", diz a brasileira.

    Glória reconhece que a concessão de visto permanente ainda não é tão simples hoje em Portugal, sendo bem mais fácil para pessoas de alto poder aquisitivo. Segundo ela, como o processo de legalização ainda está em andamento, a sua situação ainda é de imigrante. Contam pontos a favor o fato de que ela trabalha como assistente de educação em uma escola, o que lhe permitiu, com o contrato de trabalho, ter autorização de moradia. 

    "Nós que somos do Rio de Janeiro temos como característica maior a comunicabilidade. Aqui as pessoas são muito fechadas, mas eu tive a sorte de ter feitos bons amigos. O primeiro ano foi muito difícil porque as pessoas não interagem. Não é uma sociedade aberta, e a questão da colocação profissional também é um problema. Vejo muitos profissionais liberais que não conseguem se inserir no mercado", afirma Glória, ressaltando que, apesar dessas dificuldades, o custo de vida compensa.

    "Uma pessoa que ganha um salário mínimo (649,83 euros ou R$ 2.248) consegue viver de um modo muito modesto, mas com dignidade porque o poder aquisitivo é maior."

    Outro brasileiro que resolveu fazer ao inverso "o caminho das Índias" foi Igor Damasceno, que mora no bairro do Alto em Lisboa há 11 anos. Nascido no Rio de Janeiro, morador de São Gonçalo e Florianópolis, de onde partiu para viver em Portugal, Igor trabalha com gestão imobiliária para turistas e é outro que garante não ter planos de voltar a viver no Brasil. Assim como Glória, ele também admite que no início a adaptação foi um pouco difícil, uma vez que ele viajou sozinho.

    "Decidi vir para Portugal porque os laços culturais são muito fortes, a facilidade com a língua também e desde então passei por uma série de trabalhos. Nesses 11 anos tenho visto que muita coisa encareceu. Eu me lembro quando cheguei a gente entrava no supermercado e ficava impressionado com um pacote de massa que custava 30 centavos. Hoje em dia é mais caro. Gasto por semana em média 30 a 40 euros com alimentação."

    Igor explica que a maioria das pessoas que quer viver em Portugal deve chegar com um contrato de trabalho, se inscrever no INSS local, chamado Segurança Social, tirar o equivalente ao CPF na área de finanças e esperar seis meses para ser chamado pelo departamento que concede a autorização de residência. Normalmente o visto permanente é concedido após seis anos de residência do solicitante. Segundo ele, o grande sonho das pessoas é conseguir, com a naturalização, obter um passaporte europeu que permite viagens por todo o continente. 

    "Pouca gente sabe, mas é extremamente importante: o Brasil é o único país que tem um acordo com Portugal, o Tratado de Porto Seguro, que permite à pessoa que vive legalmente no país por três anos ganhar os direitos civis de um cidadão português, votar, fazer crédito, diz Igor.

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    Tags:
    trabalho, legalização, violência, qualidade de vida, emigração, sociedade, Igor Damasceno, Glória Dettmar, Europa, EUA, Portugal, Brasil
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