19:23 22 Julho 2019
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    Mercado de carnes na Rússia

    Brasil aprendeu com autoridades sanitárias russas como manter venda de carne para o país

    NATALIA KOLESNIKOVA / AFP
    Brasil
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    A batalha da 'carne fraca' (31)
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    Embora historicamente a Rússia sempre tenha sido um grande importador da carne produzida no Brasil – bovina, suína e de aves – o relacionamento comercial entre os dois países no que diz respeito a estes itens sempre foi marcado por altos e baixos. Mas o Brasil parece ter aprendido com os russos.

    Uma das maiores questões que opuseram Brasil e Rússia no mercado de carnes foi a utilização por pecuaristas da substância ractopamina.  Segundo os criadores, a ractopamina é utilizada para engorda do gado e não é nociva para os seres humanos. No entanto, logo numa de suas primeiras inspeções a frigoríficos brasileiros e às fazendas de criação de gado em 2011, o veterinário Sergey Dankvert, responsável pelo Rosselkhoznadzor, Serviço de Controle Veterinário e Fitossanitário da Rússia, advertia que aquela substância não é admitida na Rússia, por ser considerada cancerígena.

    A questão se agravou em 2013, quando a Rússia suspendeu a importação da carne brasileira, embargando os estoques de 18 frigoríficos. A alegação era de que suas advertências quanto ao uso da ractopamina não haviam sido observadas, e, como veterinários e biólogos russos constataram a presença da substância na carne destinada à exportação para a Rússia, essa cota não seria admitida no país.

    Naquela ocasião, o veterinário brasileiro Gérson Catalan, diretor do Icasa (Instituto Catarinense de Defesa Agropecuária), dizia:

    "A ractopamina não é um promotor de crescimento e sim um repartidor de energia. Atua principalmente na conversão alimentar (menor consumo de alimento para produzir um quilograma de carcaça), no ganho de peso diário (atinge o peso desejado de abate mais cedo) e faz com que a carcaça do animal tenha um menor percentual de gordura, ou seja, traz benefícios econômicos ao produtor e carne com menor percentual de gordura, que é mais saudável para o consumidor."

    O veterinário acrescentou que a substância era aplicada, preferencialmente, em suínos, mas com o passar do tempo e a evolução dos testes em laboratórios ela passou a ser aplicada também em outros animais, como, por exemplo, no gado bovino confinado.

    Ainda de acordo com Gérson Catalan, não havia registros na literatura médica de que a ractopamina causasse malefícios a seres humanos, e toda polêmica surgida em torno da substância residia no fato de que esses (possíveis) malefícios não puderam ser comprovados.

    A partir do momento em que as autoridades sanitárias russas constataram que os pecuaristas e os industriais processadores de carnes começaram a se adequar às suas exigências, os frigoríficos recuperaram suas habilitações para exportar seus produtos novamente para a Rússia.

    Além das inspeções periódicas nas fazendas e nos frigoríficos brasileiros pelos sanitaristas russos, técnicos e diretores do Ministério da Agricultura do Brasil realizaram algumas viagens à Rússia para apresentar explicações sobre a forma como o Brasil procurava se adequar às exigências do país importador. A tranquilidade perdurou pelo ano de 2014 mas em maio de 2015 novo obstáculo surgiu para o Brasil, com a Rússia ameaçando suspender as importações da carne de 10 unidades de frigoríficos brasileiros. Novamente, os técnicos russos haviam identificado substâncias aplicadas no gado e não permitidas na Rússia. Apenas um ano antes, a Rússia havia se firmado como a maior importadora mundial da carne bovina produzida no Brasil.

    Novos ajustes foram efetuados, com o devido acompanhamento do Ministério da Agricultura do Brasil, e o ano de 2016 transcorreu sem maiores incidentes.

    Até que em 17 de março passado a Polícia Federal anunciou ter realizado “a maior operação de todos os tempos”, embargando frigoríficos e prendendo alguns dos seus diretores por terem ordenado a reutilização de carne com data de validade vencida, assim como a aplicação nos produtos de conservantes tidos como danosos à saúde humana. Passado o impacto, foi esclarecido que, somente em alguns poucos frigoríficos essas adulterações e irregularidades foram constatadas.

    Enquanto alguns países anunciavam a suspensão da compra da carne brasileira "até que todos os fatos sejam esclarecidos", a Rússia decidiu manter as importações. Segundo o Embaixador russo no Brasil, Sergey Akopov, em declarações repercutidas pela mídia russa, a Rússia manterá a confiança no Brasil e acompanhará os esclarecimentos que estão sendo prestados pelas autoridades brasileiras:

    "O Governo brasileiro se comprometeu a compensar os custos para países que possam ter recebido produto de baixa qualidade, e prometeu apresentar o quanto antes informações sobre quais países importaram carne vencida, suspender esses frigoríficos e compensar as despesas", declarou o Embaixador russo.

    As declarações do Embaixador Sergey Akopov foram feitas no domingo, 19, após a reunião do Presidente Michel Temer com embaixadores dos países importadores de carne brasileira.

    O diplomata russo disse ainda que "o Presidente Michel Temer também declarou estar preocupado com a situação, principalmente com a possibilidade de os países importadores colocarem sanções contra o produto brasileiro, o que causará forte dano ao setor".

    Durante o encontro com os embaixadores, Michel Temer destacou que dos 4.837 frigoríficos em funcionamento no Brasil apenas 21 podem estar envolvidos no escândalo, todos passando por investigações das autoridades sanitárias e da Polícia Federal.

    Para Sergey Akopov, "o incidente não pode ser analisado como uma crise em todo o sistema de controle sanitário brasileiro, caracterizado por alto nível de efetividade e por ser um dos melhores do mundo".

    Situada entre os maiores importadores da carne brasileira, a Rússia se afigura como exceção no panorama mundial. O Governo russo não seguiu o exemplo de outros países, e continua permitindo o ingresso da carne brasileira em seu território.

      

    Em termos globais, porém, o estrago está feito, segundo o médico veterinário Antônio Jorge Camardelli, presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne). Em declaração exclusiva à Sputnik Brasil, Camardelli afirma:

    "Não dá para mensurar o prejuízo. Hoje, já temos fechados 55% do mercado mundial. Por isso, eu digo que o prejuízo é intangível."

    Para o presidente da ABIEC, as questões vão muito além das perdas financeiras:

    "Seja no aspecto de imagem, seja no aspecto de prejuízo financeiro, a palavra correta é intangível. Não tem como mensurar um estrago tão grande, tão imediato, em cima de uma conquista de vários e vários anos de trabalho conjunto com o MAPA [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento], melhoramento de rebanho de produtor, qualificação de produtor, adequação da indústria, inserção no mercado internacional. Tudo isso, conceitos adquiridos ao longo do tempo. Tudo isso, repito, foi por água abaixo. Só nos resta agora ver se a gente enxerga uma harmonia ímpar em relação ao Governo."

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    A batalha da 'carne fraca' (31)

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    Tags:
    gado, frigoríficos, operação carne fraca, pecuária, câncer, Abiec, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Rosselkhoznadzor, Serguei Akopov, Rússia, Brasil
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