01:15 17 Julho 2018
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    Argentina cobra Brasil por permitir pouso de aviões britânicos rumo às Malvinas

    Malvinas: há algo a mais nos céus do que aviões de carreira

    Martin Berneti/AFP
    Brasil
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    O recém-empossado ministro da Relações Exteriores, Aloysio Nunes, que substituiu José Serra no cargo, já tem o primeiro imbróglio diplomático para desatar. A Argentina está cobrando explicações ao Brasil pelo fato de o governo ter autorizado, entre 2015 e 2016, escala técnica a 18 aviões militares britânicos que se dirigiam às ilhas Malvinas.

    A chanceler argentina, Suzana Malcorra, cobrou um posicionamento do Brasil a respeito, lembrando que o país, assim como os outros integrantes do Mercosul (Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) têm um compromisso assinado de impedir o pouso de aeronaves de guerra do Reino Unido que tenham como destino o arquipélago, também chamado de Falklands pelos ingleses, e que foi palco de uma guerra entre os dois países no início dos anos 80. A única exceção aberta é para casos de emergência ou por motivos humanitários, o que não foi o caso em nenhuma das 18 aterrisagens, segundo o governo argentino. O chanceler brasileiro prometeu ao governo argentino apuração sobre o caso.

    O pesquisador do Núcleo de Estudos das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) João Carlos Pitillo diz que a diplomacia brasileira nunca esteve num momento tão desprestigiado a nível internacional.

    "Foram raros os momentos da história do Brasil em que tivemos um chanceler tão pequeno, só não menor que o seu antecessor, figuras que foram escolhidas por um governo ilegítimo. Essas pessoas estão ocupando esse cargo como um prêmio pelos seus serviços ao golpismo. O fato prova como temos um governo que não tem nada de nacional e que está acocorado aos ditames internacionais. O apoio para esse governo se impor em parte veio do exterior, e isso fica claro nesse número. Não foi nem um, nem dois pousos, foram 18. O Brasil está se tornando uma base de apoio para os ingleses em seu trânsito até as Malvinas, e sabendo que a situação das Malvinas não está resolvida. Elas ferem a soberania argentina. O Brasil tem um histórico de estar ao lado da Argentina na sua demanda."

    O pesquisador lembra que até mesmo no período da ditadura no Brasil, em 1982, o governo do então presidente João Baptista Figueiredo garantindo o apoio aos argentinos não permitindo que o bombardeiro Avro Lancaster, que integrava o comboio, seguisse para atacar o arquipélago. Ao passar pela costa brasileira, o avião teve um problema técnico e foi autorizado a aterrissar. Após os reparos e constatado o objetivo da missão, o governo brasileiro o impediu de prosseguir viagem. 

    "Passados todos esses anos, vemos essa postura do governo Temer de traição aos nossos irmãos, ao Mercosul e se coloca frontalmente contra essa ordem na América do Sul que é de solidariedade à Argentina. Acho pouco provável que algum país na América do Sul fosse permitir que aviões ingleses fizessem de seu solo uma base", diz Pitillo.

    Indagado sobre o que seria mais custoso em termos diplomáticos para o Brasil: a ordem para suspensão dessas escalas ou o endurecimento com a Argentina, o pesquisador é sucinto:

    "O Brasil se apequenou tanto com a questão do golpe que está sendo tratado como pária. O Brasil, que sempre teve uma representação muito forte e responsável no cenário internacional, está sendo visto como pária. Essas benesses à Inglaterra estão sendo feitas no âmbito de tentar recuperar algum espaço no cenário internacional. Arrisco a dizer que não haverá investigação nenhuma e esse assunto é capaz de ficar soterrado, a não ser que a nossa querida imprensa vá fuçar isso."

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    Tags:
    soberania, guerra, diplomacia, disputa, América do Sul, geopolítica, Ministério das Relações Exteriores, UERJ, Mercosul, João Carlos Pitillo, João Baptista Figueiredo, Michel Temer, Suzana Malcorra, Aloysio Nunes Ferreira, Argentina, Brasil
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