20:11 20 Setembro 2019
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    Roseli Machado

    Mulher sobrevive a transplante multivisceral e é nova conquista médica no Brasil

    Divulgação/Albert Einstein
    Brasil
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    O programa brasileiro de transplantes é considerado um dos melhores do mundo, e recentemente deu mais um passo no que diz respeito ao transplante de intestino/multivisceral, que até então não tinha sobreviventes.

    De acordo com os últimos dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), apesar de 2016 ter registrado um aumento no número de doadores de órgãos nos dois primeiros trimestres do ano, passando de 13,1 por milhão de habitantes para 14 por milhão, esse número ainda é abaixo do esperando para o período, que é de 16 por milhão.

    Os dados da ABTO mostram que a quantidade de transplantes realizados no segundo trimestre caiu, em relação a fila de brasileiros que aguardam por um órgão, que aumentou, se comparado ao 1º semestre de 2015, passando de 32 para 33 mil pessoas.

    Os transplantes mais esperados são os de rim, fígado, coração, córnea, pulmão, pâncreas e intestino.

    A auxiliar de serviços gerais, Roseli Machado, de 41 anos, acaba de se tornar a única paciente de seis cirurgias realizadas no Brasil, que sobreviveu a um transplante de intestino/multivisceral, que incluiu a troca do fígado, intestino, estômago e pâncreas.

    Com a doença ascite, popularmente conhecida como barriga d´água, que é o acúmulo de líquido na região do abdome, Roseli fez o transplante no dia 24 de junho deste ano, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo e ficou 80 dias internada.

    Em entrevista exclusiva para a Sputnik, Roseli Machado, contou que sua luta contra a doença teve início no final de 2014, quando começou constantemente a passar mal e ter vida prejudicada pela enfermidade. "Eu começava a passar mal, eu comia ficava enjoada ou não conseguia comer, comecei a emagrecer. Eu ia trabalhar e vinha embora."

    A partir daí, a auxiliar de serviços gerais, deu início a uma bateria de exames e idas constantes ao médico, até conseguir através do Hospital Albert Einstein chegar ao laudo final da necessidade de um transplante tão complexo e praticamente mortal.

    "No começo eu achei que era um tratamento, um remédio e eu ia melhorar, mas a barriga foi crescendo e eu soube que era uma cirrose, que meus órgãos já estavam debilitado, e o meu transplante não podia ser só fígado, tinha que ser o multivisceral. Era um transplante muito grande, de alto risco e que até aquele momento, quem fez não tinha sobrevivido. Foi muito difícil, porque eu não estava preparada. Eu fui para São Paulo na intenção de que eu ia tomar um remédio e ia melhorar, e aí cheguei lá e levei aquele choque."

    Do diagnóstico até a realização do transplante, Roseli esperou 8 meses até que recebeu a notícia de que tinha conseguido um doador, uma pessoa que tinha vindo a óbito, para que ela pudesse voltar a viver. Segundo a paciente, foram cerca de 14 horas de cirurgia. "Depois de oito meses me ligaram, falando que tinha chegado um doador para mim. Foi muito triste, porque eu tenho dois filhos (um casal de 19 e 21 anos), e foi uma coisa bem chocando para todos nós, mas depois eu disse que ia dar tudo certo. Eu não tinha opção ou eu fazia o transplante  e tentava ver se os médicos me ajudavam ou eu viveria retirando água do corpo até quando Deus permitisse. Eu não tinha opção de tratamento."

    Antes de saber sobre a necessidade do transplante de órgãos, Roseli confessa que por falta de informação não queria saber de doação de órgãos e nem pensava em ser doadora, mas agora quer ajudar de todas as formas que puder a alertar sobre a importância do gesto de amor ao próximo.

    "Quando começou a falar sobre isso (o fato de ser um doador no Brasil) eu fiz uma nova carteira de identidade e coloquei que não seria doadora, porque eu não tinha noção, eu não esperava por isso. Hoje a minha vida é totalmente diferente, mas antigamente eu não pensava nisso. Agora tudo mudou, aqui em casa também já conversamos sobre isso, e eles já falaram que vão ser doadores. Eu sei que é muito difícil quando nós perdemos um ente querido, de alguém que amamos, mas precisamos levar para o lado bom de salvar vidas, de você dar com amor também. Hoje eu vejo que é muito importante não pensarmos somente em nós mesmos, mas pensar no próximo também."

    Roseli vem se recuperando muito bem do transplante e diz que agora além do dia 15 de abril, também passou a ter outra data de aniversário, o dia 24 de junho, dia em que voltou a viver.

    Também em entrevista exclusiva para a Spuntik, o cirurgião especialista em transplante do Hospital Albert Einstein, Sérgio Meira ressaltou a importância do resultado positivo do transplante de intestino/multivisceral realizado em Roseli Machado, gratuitamente no hospital através do Sistema Único de Saúde (SUS).

    "Sem sombra de dúvida é um grande feito para o Brasil. Eu acho que todo mundo ganha com isso: a população que tem uma carência enorme desse tratamento hoje, existe uma demanda reprimida desses doentes, a maioria entra com um processo de judicialização hoje para tentar ser operada fora do país, a maioria nos Estados Unidos, então é muito mais fácil ter um serviço no Brasil que consiga acolher essa demanda."

    O médico, que participou do transplante de Roseli, chama atenção para a complexidade desse tipo de transplante, que normalmente atinge o público infantil. "Ele é um transplante que ele acontece muito na população pediátrica, por isso vocês vêem muito na mídia a população pediátrica indo para fora do Brasil fazer esse transplante. É complexo, porque é grande, do ponto de vista mecânico mesmo. Fica bastante tempo na sala cirúrgica, com intervenções repetitivas. Tecnicamente é um dos mais complexos, e é um transplante que também no posto imunológico, é um paciente que requer muita atenção."

    Sobre o percentual de óbitos de transplantados de intestino/multivisceral, onde Roseli seria a única sobrevivente, Sérgio Meira, explica que as cirurgias anteriores não fracassaram, só não tiveram uma sobrevida maior do que um ano após o procedimento. "Eu não gosto muito de usar essa palavra, o Einstein tinha feito três transplantes antes multiviscerais, e na verdade eles deram certo. Uma paciente faleceu com nove meses de transplante. Ela foi para casa, igual a Roseli. Foi bem sucedido. O que nós não tivemos é uma curva de sobrevida acima de um ano. Essa paciente evoluiu com um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Nós tivemos outra paciente transplantada multivisceral que ela também estava bem até o terceiro mês, quando fez uma febre e teve uma doença, que era uma rejeição do enxerto feito, o que era muito raro, e aí perdemos essa paciente, uma fatalidade. O terceiro paciente morreu após uma complicação cirúrgica, com 20 dias, além de outros transplantes, onde os pacientes foram a óbito precocemente."

    O médico Sérgio Meira chama atenção ainda para a necessidade de se aumentar a informação no país para a doação de órgãos. No Brasil não há um registro oficial para as pessoas declararem ser doadoras de órgãos, a única opção é a autorização da família. "O Brasil ainda está atrasado em relação a doação, mas está muito adiantado do que já foi. Houve um crescimento grande nos últimos tempos, mas estamos meio estagnados no número de doadores. O que falta é exclusivamente informação, porque hoje em dia doação independe de carteira de identidade, de vontade da própria pessoa, depende da família. Se você é doadora, você deixa por escrito no cartório registrado, e alguém da sua família depois não quer que você doe, não doa. Nós perdemos 1/3 dos doadores, cerca de 30% de doador, por recusa familiar por falta de informação."

     

    Tags:
    instestino, multivisceral, transplante, Hospital Albert Einstein, Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), Roseli Machado, São Paulo, Brasil
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