06:03 19 Agosto 2017
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    Filhote do movimento LGBT contra o governo Temer (foto de arquivo)

    'LGBT tem mais potencial para formar oposição a Temer que PT'

    © AFP 2017/ MIGUEL SCHINCARIOL
    Brasil
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    Lucas Rohan
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    A Sputnik falou com o deputado federal do PSOL, Jean Wyllys, que compartilhou a sua visão sobre as causas da queda de Dilma e formação da oposição contra o novo governo brasileiro.

    Sputnik: Deputado, o senhor participou em Portugal de um debate falando sobre as "perspectivas da esquerda" no Brasil. Nesse momento de golpe consumado, que perspectivas são essas?

    Jean Wyllys: Não posso dizer de maneira tão clara quais são as perspectivas porque as esquerdas no Brasil são assim, plurais. Não podemos falar de esquerda, mas de esquerdas. Mas de maneira geral eu diria que a perspectiva é enfrentar o governo Temer, não reconhecer, não dar legitimidade e fazer uma oposição ferrenha ao governo ilegítimo. Nós não temos que aceitar esse governo, ele não foi eleito, o programa que ele está implementado no Brasil não foi debatido com a sociedade e não passou pelo crivo das urnas. Então a perspectiva das esquerdas no Brasil é enfrentar o governo Temer, fazer oposição ferrenha, não só nós parlamentares que estamos lá no Congresso Nacional, mas também os movimentos sociais, as categorias profissionais vão ter que se opor a esse governo. E também eu acho que dar prioridade às suas convergências e não às suas divergências. As esquerdas nesse momento têm que partir para suas convergências. E isso implica em certos setores da esquerda fazerem autocrítica. Um desses setores é o PT. O PT tem que fazer uma autocrítica.

    S: O senhor não estava no Brasil durante a votação do impeachment. Como foi acompanhar à distância?

    JW: Se por um lado eu gostaria de estar lá, por outro as novas tecnologias da comunicação e da informação nos permitem estar simultaneamente em dois lugares. Presencialmente não estava lá, mas estava virtualmente. Acompanhei daqui toda a sessão, intervi fazendo comentários e publicando textos e análises nas minhas redes sociais. A minha equipe estava acompanhando presencialmente e, ao mesmo tempo, eu estava fora denunciando aquele golpe. Creio que foi até mais eficaz eu estar fora, porque eu intervinha lá, o meu nível de intervenção era aquele, eu não poderia fazer mais que aquilo, análises, declarações. Eu não podia impedir o processo de impeachment, se dependesse só de mim eu impediria. Se por um lado eu intervi como faria se estivesse lá, por outro lado eu pude, por estar fora, denunciar o que está acontecendo no Brasil.

    Sputnik: O que o senhor ouviu dos portugueses sobre a situação política do Brasil?

    JW: Me parece que a grande maioria dos portugueses está alheia ao que está acontecendo no Brasil. Agora, entre os mais politizados, os de direita parecem silenciar em relação ao golpe ou estão constrangidos por terem, num primeiro momento, apoiado essa turma. E os portugueses de esquerda – sobretudo o Bloco de Esquerda – estão empenhados em denunciar o golpe contra a Dilma e denunciar o governo que se compôs depois do golpe.

    S: O senhor soube que em Portugal uma aliança entre os partidos de esquerda depois das últimas eleições possibilitou que António Costa formasse governo. Foi algo inédito. Até o Partido Comunista, que nunca tinha se aliado ao PS e ao Bloco de Esquerda, se uniu. Que lições isso ensina ao Brasil? Mais diretamente: não seria hora de a esquerda deixar velhos ranços de lado (como o que o PSOL tem com o PT) e formar uma grande aliança para conter o avanço da direita?

    JW: Sua pergunta é até pertinente desde que você não atribua ao PSOL a responsabilidade pela desunião das esquerdas. Se tem uma responsabilidade na desunião das esquerdas é do PT, que ao invés de fazer um governo inclinado à esquerda, fez um governo inclinado à direta. Foi o PT que cedeu às pressões das forças conservadoras, reacionárias e de direita que compunham os seus governos. As esquerdas, fora o PT, têm todo o direito de se colocarem em uma posição crítica porque se chegamos aonde chegamos, foi justamente porque o PT acreditou numa conciliação entre classes que todos nós da esquerda achávamos que não era possível. Achávamos que essa conciliação, na verdade, obliterava algo grave no Brasil, que é a desigualdade, que é a luta de classes, que é o sistema de privilégios. Então não responsabilize o PSOL por isso, não diga que o PSOL tem ranço com o PT. Eu acho que muita gente do PT tem ranço com o PSOL porque o PSOL conserva características e um programa que parte do PT não conserva mais. A despeito dessa ressalva, demonstrando que o problema da desunião das esquerdas está muito mais no PT do que no restante das esquerdas, eu acho que é importante esse diálogo e essa convergência.  

    S: O senhor também estava fora do Brasil quando o STF rejeitou acusação contra o senhor por ter chamado Eduardo Cunha de ladrão. Qual o significado disso, na sua opinião?

    JW: Foi muito bom. Agora, na verdade, o Supremo Tribunal Federal não podia fugir de sua própria jurisprudência. Se não houvesse a jurisprudência de que nenhum deputado pode ser condenado por expressar sua opinião, já que ele tem imunidade parlamentar, talvez o resultado fosse outro. Mas como havia, o STF não poderia contrariar sua própria jurisprudência me condenando. Eu acho que foi muito importante porque garante a liberdade de expressão num momento em que a democracia está sendo ameaçada, desmoraliza Eduardo Cunha, que é um gangster, um bandido mesmo, um gangster com fortes relações internacionais, réu pelos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, tráfico de influência, enfim… a humilhação dele é algo significativo. E por outro lado fortalece o trabalho de oposição à esquerda que venho fazendo.

    S: O senhor se reuniu com os brasileiros que vivem em Lisboa e têm organizado há meses protestos contra o golpe? Qual a avaliação? Para que servem, na sua opinião, esses movimentos?

    JW: Me reuni sim e acho que são movimentos importantíssimos, primeiro porque os brasileiros que vivem fora contribuem com a economia do país, não deveriam ser invisíveis, o país deveria reconhecer a existência deles e o quanto eles movimentam em termos de recursos para a economia. Depois, mesmo vivendo em outras terras, os brasileiros têm um vínculo, têm famílias no Brasil, então a situação política do Brasil os preocupa. É natural que eles desejem intervir de alguma maneira. Se eles não podem intervir lá, eles interveem através das redes sociais, mantendo uma articulação virtual, publicando textos e realizando protestos onde que vivem para chamar a atenção da opinião pública daquele país. Ou seja, sensibilizar a comunidade política e a imprensa internacional é muito importante num momento em que a imprensa no Brasil é partidária, parcial e manipuladora. Foi graças a ação das comunidades de brasileiros vivendo fora do país que a imprensa internacional pode noticiar o que de fato está acontecendo e não a versão fantasiosa das TVs e rádios do Brasil.

    S: O PSOL é alvo de críticas dos defensores de Dilma por ter feito oposição ferrenha e, segundo eles, isso colaborou para a queda dela. Que avaliação o senhor faz? Acha que o seu partido errou a mão ao ter um discurso opositor muito próximo da direita?

    JW: Não, quem errou a mão foi a presidenta Dilma ao confiar demais nas forças reacionárias e conservadoras que compunham o governo dela. O PMDB é um partido de corruptos, todos sabíamos disso, entretanto o PT fez coligação com o PMDB em todos os seus governos. Se há um erro aí, foi do PT, que foi, no mínimo, ingênuo em relação ao PMDB. Culpar o PSOL, achar que o PSOL tem responsabilidade na queda da Dilma é uma piada porque o PSOL fez uma oposição coerente, responsável com seu programa, com sua história, com as políticas que propõe para o país. Isso não é ajudar a derrubar o governo, isso é fazer uma oposição responsável. Qualquer pessoa que pegue o histórico das votações do governo Dilma verá que nós votamos com o governo todas as vezes que foram apresentados projetos e políticas públicas favoráveis à população. Não por acaso nós fomos chamados de petralhas e de linha auxiliar do PT. Ou seja, vocês precisam se informar mais antes de fazer esse tipo de pergunta acusatória em relação ao PSOL. Eu, por exemplo, sou tratado como petralha, sou visto como petista, justamente porque sempre fiz uma oposição responsável, crítica e honesta intelectualmente em relação ao PT. A queda da Dilma se deve à traição do PMDB, a queda da Dilma se deve à confiança excessiva que ela teve nessas forças reacionárias e conservadoras, a queda da Dilma se deve ao fisiologismo, à distribuição de cargos para garantir governabilidade. Jogar a culpa no PSOL é tudo o que o PT deseja para não fazer a devida autocrítica que tem que fazer. Ele deve isso às esquerdas, deve isso a ele mesmo, à história do partido. Então não me venha com essa de culpar o PSOL que nós não temos culpa de nada. Nós fizemos oposição de maneira coerente como deve ser feita e estivemos ao lado do governo quando foi necessário. Eu votei na Dilma no segundo turno, não só votei como fiz campanha pra ela, e fui uma das primeiras pessoas a denunciar o golpe sendo do PSOL. Então é injusto, e muito injusto, esse tipo de pergunta que insinua que o PSOL tem responsabilidade pela queda do governo Dilma.

    S: Na sua opinião, a queda de Dilma é reflexo dos protestos conhecidos como "Jornadas de Junho"? Se não é reflexo, admite que eles colaboraram para criar o clima de instabilidade no Brasil?

    JW: Eu acho que a queda do governo é reflexo da crise econômica. Com a crise econômica as elites econômicas do Brasil, a plutocracia decidiu que no condomínio do poder não cabia mais o PT. O PT era membro do condomínio do poder e era o membro que, apesar de ter cedido às velhas práticas das oligarquias políticas brasileiras, inclusive às práticas de corrupção, ainda mantinha uma certa preocupação com o social, com os mais pobres. Quando a crise chegou, os mais ricos do país, os plutocratas, as elites econômicas, decidiram que não tinham que manter mais nesse condomínio um partido que se preocupasse o mínimo com o social, com os mais pobres. Então eles decidem tirar a presidenta Dilma e armam essa farsa, esse circo que foi o processo de impeachment. Agora, claro que as Jornadas de Junho contribuíram. Elas são reflexo da crise econômica, dos erros do PT e, depois, foram descaradamente manipuladas pela imprensa brasileira, que fez uma espécie de cobertura-convocação. A massa foi levada às ruas graças ao noticiário manipulado, manipulador e partidário da imprensa brasileira.

    S: Com o governo Temer empossado, o senhor teme retrocessos na pauta LGBTT?

    JW: Sim, vai haver retrocesso porque as forças que sustentam o governo Temer… O Temer, para derrubar a Dilma, precisava de maioria na Câmara e no Senado e para conseguir essa maioria, fez promessas a essas forças reacionárias e conservadoras. Ele fez promessas e vai ter que cumprir. Ele vai ter que pagar por esse apoio. E uma delas são as forças fundamentalistas cristãs, os deputados da chamada Bancada Evangélica, que são inimigos ferrenhos da comunidade LGBT. Então, certamente haverá um retrocesso. O retrocesso já se apresentava no governo Dilma. É sempre bom lembrar que cedendo a essas forças conservadoras a Dilma suspendeu o projeto Escola Sem Homofobia, que era um projeto muito bacana de erradicação do bullying homofóbico na escola. E ela cedeu justamente por isso. Então, eu creio que vai haver um retrocesso.

    S: O senhor e o seu partido se unirão ao PT no que a presidenta Dilma chamou de "oposição mais determinada" que será feita contra o governo de Temer?

    JW: Certamente nós vamos nos unir a todas as forças políticas de esquerda progressistas que farão oposição ao governo Temer. Não necessariamente vamos nos unir ao PT. E nem acho que o PT tem condições morais nesse momento para liderar qualquer oposição ao governo Temer. Eu acho que o PT tem que ceder agora às novas forças políticas em torno das quais se pode construir um consenso. O antipetismo é muito forte hoje no país. O antipetismo é uma construção midiática, mas se baseou em erros cometidos pelo PT, erros inegáveis. Não vou dizer que não vamos nos unir ao PT, é claro que se o PT estiver nessa grande frente de esquerda progressista de oposição ao governo Temer ninguém vai pedir a expulsão deles, muito pelo contrário. Eu gosto e tenho afinidades com pessoas do PT, mas não pode ser colocado nesses termos: "vai se unir ao PT". Não, nós vamos nos unir aos movimentos de esquerda, às categorias profissionais, a todas as forças progressistas que vão se opor ao governo Temer, entre elas o PT. Mas eu creio que nesse momento o PT não tem as condições para ser protagonista. Eu acho que muito mais o MTST, que é o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o movimento LGBT, o próprio PSOL, tem mais condições de produzir esse consenso do que o PT. O PT nesse momento deveria estar fazendo uma autocrítica, lambendo suas feridas e identificando quais foram os seus erros nessa coligação com a direita brasileira nos seus últimos governos. 

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    Tags:
    esquerda, golpe, opinião, oposição, impeachment, deputado, PSOL, PMDB, PT, Michel Temer, Dilma Rousseff, Brasil
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