09:57 26 Setembro 2017
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    Bolivarianos Temer

    Convocação de embaixadores no Brasil terá consequências a médio prazo na América Latina

    Palácio Miraflores/Reuters
    Brasil
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    A convocação de Venezuela, Bolívia e Equador de seus embaixadores no Brasil após o impeachment de Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer abre um novo capítulo nas relações diplomáticas na América do Sul, que terá consequências maiores a médio prazo, na visão de especialistas em política internacional.

    Dos três países, a Venezuela foi a mais dura até agora, com o governo do presidente Nicolás Maduro anunciando o rompimento de relações políticas e diplomáticas com o Brasil e a retirada de seu embaixador. Rafael Correa, do Equador, classificou o afastamento de Dilma como "uma apologia ao abuso e à traição", enquanto Evo Morales confirmou a convocação do embaixador em Brasília. Cuba não convocou seu representante diplomático, mas em dura nota condenou o "golpe de estado parlamentar-judicial que se consumou contra a presidente Dilma". Do lado contrário, até agora, Temer só foi parabenizado pelos governos americano e argentino.

    Em reação, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro divulgou nota em que lamenta e repudia os comunicados de Venezuela, Bolívia e Equador. "Os governos desses países reincidem em expressões equivocadas que ignoram os fundamentos de um Estado democrático de direito, como o que vige de maneira plena no Brasil. O governo brasileiro conclama as autoridades desses países a manterem a serenidade e a respeitarem os princípios e valores que regem as relações entre as nações latino-americanas", diz a nota.

    Para Daniel Aarão Reis, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), as reações dos três países não significarão um rompimento imediato a curto prazo, mas terão sérias consequências a médio prazo.

    "A vitória do impeachment, desse golpe que derrubou a presidente Dilma, representa mais um elo do processo de enfraquecimento daquilo que eu chamava 'onda nacional estatista' que vinha caracterizando, a partir do final dos anos 90, vários países aqui da América do Sul. Tivemos primeiro a derrota eleitoral da Cristina Kirchner na Argentina e agora a substituição da Dilma pelo Temer."

    Reis observa que Brasil e Argentina eram os governos mais moderados dessa onda, mas sempre representavam uma retaguarda importante para aqueles países mais decididos nesse processo que eram exatamente a Venezuela, a Bolívia e o Equador. Graças a isso, segundo ele, os atritos diplomáticos foram evitados.

    "Não penso que isso vá levar a rompimento de relações diplomáticas. Nem em termos imediatos se deva esperar um aprofundamento das contradições. A médio prazo, porém, é possível esperar que as relações vão passar por um processo de tensão, porque a orientação desses três Estados mais o da Nicarágua e o de Cuba são completamente contraditórias com as orientações pelo governo atual brasileiro e pelo de Macri, na Argentina."

    Na visão do especialista, isso vai ter repercussões negativas do ponto de vista do Mercosul.

    "Não que eu pense que o Mercosul vai ser abandonado, pois ele tem uma política relativamente consolidada, mas não devemos esperar nenhum passo no sentido do aprofundamento da integração, que representava bem a orientação dos governos de Cristina Kirchner e Dilma Rousseff. Temos aí para o Brasil e a Argentina notícias de tempos mais difíceis, mais sombrios do ponto de vista dos interesses das camadas populares e de todas as políticas que almejavam fazer da América do Sul um continente integrado e soberano em relação aos ditames das grandes potências internacionais."

    Para Reis, a cultura política nacional-estatista tem profundas raízes na América Latina, sobretudo na América do Sul.

    "Ela não está liquidada, morta, tem reservas e está agora diante do desafio de se reinventar."

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    Tags:
    integração regional, bolivarianismo, potência, relações diplomáticas, impeachment, UFF, Itamaraty, Mercosul, Mauricio Macri, Daniel Aarão Reis, Cristina Kirchner, Rafael Correa, Evo Morales, Nicolás Maduro, Dilma Rousseff, Bolívia, Nicarágua, Venezuela, Equador, Cuba, América Latina, Brasil
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