10:37 23 Agosto 2017
Ouvir Rádio
    Rodolfo Novoa

    Especialista: 'Polêmica no Mercosul é mais uma trapalhada do governo'

    José Cruz/Agência Brasil
    Brasil
    URL curta
    1154070

    A cobrança de explicações feita pelo governo brasileiro ao uruguaio sobre declarações do chanceler Rodolfo Nin Novoa, de que Brasília estaria pressionando Montevidéu para que apoiasse o rebaixamento da Venezuela e impedisse sua posse na presidência rotativa do Mercosul, provocou efeitos.

    Após o governo ter convocado o embaixador uruguaio para confirmar as declarações, o próprio Novoa telefonou ao ministro das Relações Exteriores, José Serra, e disse que as frases foram um mal-entendido. Pouco depois, a chancelaria uruguaia divulgava nota oficial, confirmando ter havido um ruído de comunicação nos diálogos. 

    Brasil, Argentina e Paraguai têm pressionado para que a Venezuela não assuma o cargo, conforme previsto nas normas do bloco, no último dia 31, após o fim da vigência rotativa de seis meses exercida pelo Uruguai. Como os uruguaios não transmitiram oficialmente a presidência, os três sócios do Mercosul declararam que o posto está vago e que deve ser ocupado por uma comissão conjunta até se resolverem os problemas políticos na Venezuela. O governo de Nicolás Maduro, por sua vez, rejeitou a solução e disse que vai exercer o comando do bloco até o fim do ano.

    Armada a polêmica, quem está com a razão?

    Para Caio Manhanelli, coordenador em São Paulo da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCP) e considerado um dos maiores especialistas em Mercosul, existem muitos culpados nessa história e no final das contas a polêmica não trouxe qualquer alteração no funcionamento do bloco. 

    "O Mercosul continua funcionando, os carros argentinos e brasileiros continuam transitando de um lado para o outro, a soja continua transitando entre portos. O próprio Mercosul tem uma espécie de proteção contra oscilações políticas. Que instituição política é séria quando você tem uma alternância automática de seis em seis meses? O presidente não tem condições de impor mudanças devido às burocracias internacionais e nacionais. Não existe seriedade política em termos de Mercosul, o que existe é seriedade econômica e comercial."

    Segundo Manhanelli, Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela estão politizando o Mercosul.

    "O que o Brasil está demonstrando, desde o início do governo Temer, é equívoco atrás de equívoco, trapalhadas em cima de trapalhadas. O Uruguai lavou as mãos e fez o que tinha que fazer: cumpriu o mandato e saiu. Todos eles, inclusive esse chanceler (José Serra) que mal fala espanhol, machista inclusive, está tentando rechaçar a alternância automática na presidência, uma coisa que estava prevista, que o Brasil assinou e todo mundo concordou, e não foi no governo Dilma, foi lá atrás no de Fernando Henrique. O chanceler brasileiro está usando isso de palanque para se mostrar como uma figura de influência internacional, acreditando talvez em um portfólio para 2018. O Maduro, por sua vez, também está usando de palanque internacional, vitimizando a Venezuela, que não me parece cômoda em integrar o Mercosul. Dos dois lados você tem argumentos muito falaciosos e demagogos. No final das contas, o Mercosul não é político. A missão do Mercosul falhou em ser política."

    Na avaliação de Manhanelli, a melhor solução hoje para esse impasse seria que a presidência do bloco passasse a um conselho da entidade, já que existe uma indisposição política de países como Argentina e Brasil, hoje não mais alinhados com a Venezuela como eram à época do ex-presidente Lula e da presidenta afastada Dilma Rousseff. Para o especialista, o Mercosul também falhou na integração cultural entre seus países-membros. Quanto à Venezuela, Manhanellli diz que, na verdade, o país nunca se integrou realmente ao bloco.

    "O Mercosul com a Venezuela se transforma na quinta maior potência econômica do mundo e também em termos populacionais e territoriais. Acontece que a Venezuela de fato nunca entrou no Mercosul. São dois acordos principais, o aduaneiro, para facilitar o trânsito de produtos de um lado e de outro, em que a Venezuela não cumpriu com as alterações na legislação que necessitava para entrar no bloco. O segundo ponto é a legislação migratória, que também foi descumprida."

    Mais:

    Senadora denuncia pressões ilegais do Brasil contra posse da Venezuela no Mercosul
    Rússia trabalha em acordo entre Mercosul e União Eurasiática
    Tags:
    presidência temporária, bloco econômico, exclusão, acordos, política, economia, Mercosul, Caio Manhanelli, Rodolfo Nin Novoa, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Argentina, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar no FacebookComentar na Sputnik