00:39 27 Maio 2018
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    Policiais Militares do Rio  recebendo treinamento sobre como agir durante os Jogos com a polícia da França
    André Gomes de Melo/Governo do RJ

    Policiais rebatem críticas às suas ações na segurança do Rio

    Brasil
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    Rio 2016 (253)
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    A ONG Human Rights Watch (HRW) divulgou relatório sobre a violência policial no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. Após entrevistar mais de 30 policiais, a HRW afirma que a Polícia carioca mata e fica impune.

    Segundo a Human Rights Watch, no ano passado 645 pessoas foram mortas no Rio em ações envolvendo policiais civis e militares, e houve mais de 8 mil mortes na última década. Conforme o relatório, dos 64 casos identificados nos últimos 8 anos pela ONG, apenas 8 foram a julgamento, e comente 4 tiveram conclusão com a prisão dos policiais envolvidos nos assassinatos.

    Em entrevista exclusiva à Sputnik, o assessor de Comunicação do SindPol – Sindicato dos Policiais Civis do Rio de Janeiro, Cláudio Alves, diz não concordar com as acusações da ONG, e conta o outro lado da situação dos policiais no Estado.

    Cláudio Alves diz que vê com preocupação as críticas da ONG, pois os policiais civis e militares que se envolvem em casos de mortes ou que cometem infrações graves são afastados imediatamente de suas funções, mas nem sempre a Justiça pune na velocidade que a sociedade e as instituições de direitos humanos esperam.

    "A gente vê isso com certa preocupação, porque mesmo se o policial cometeu algum ato infracional, cometeu algum abuso de poder, ele é logo afastado sumariamente. Se for na Polícia Militar, é afastado imediatamente, a partir do momento em que é comprovado que o tiro saiu da arma de um policial militar ou até mesmo de um policial civil. Ele, normalmente, fica sem as funções de trabalho de rua e fica trabalhando internamente. Esse é o procedimento padrão. A questão da punição cabe à Justiça, com base nas investigações feitas. Não temos como dizer que não se pune ninguém, porque infelizmente a Justiça brasileira é muito morosa."

    Ao ser questionado se é possível haver bons policiais no perigoso Rio de Janeiro de hoje, Cláudio Alves ressalta que ante as dificuldades pelas quais passam os policiais cariocas atualmente sem salários e benefícios, que não vêm sendo pagos devidamente pelo Governo do Estado, tem sido difícil para eles cumprir completamente suas funções.

    "É difícil, porque com essa crise no Estado do Rio de Janeiro faltam recursos para tudo. O policial civil não tem aparelhos modernos para poder investigar os crimes, não tem armamento suficiente, não tem munição, o treinamento também não é continuado. Ele se forma na Academia de Polícia e depois não faz nenhuma reciclagem. Isso, além das gratificações que não são pagas corretamente, como o pagamento do Regime Adicional de Serviço (RAS) e a premiação por meta."

    Sobre a petição que a Anistia Internacional entregou ao Comitê Organizador dos Jogos, contendo mais de 120 mil assinaturas, de 15 países, pressionando a Rio 2016 a impedir abusos e mortes a inocentes pelas forças de segurança durante o período olímpico, o assessor de Comunicação do SindPol aproveitou para criticar a falta de apoio da Anistia às famílias dos policiais mortos em confrontos no Rio.

    Segundo dados do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, até maio deste ano 151 pessoas foram assassinadas por agentes públicos de segurança na Cidade do Rio de Janeiro – 40 somente em maio, o equivalente a 135% a mais que no mesmo mês de 2015. A Polícia Militar, no entanto, diz que houve redução de 60% na vitimização de policiais militares de maio a junho/2016. 

    "Os atos infracionais contra os direitos humanos, de não respeitar a pessoa e agir o policial com violência, são muito preocupantes. Só que a Anistia Internacional fala muito sobre o problema de abuso de poder, mas quando um policial civil morre, eles não entram no assunto, não falam nada. Muitas vezes um policial civil ou militar morre barbaramente na mão da criminalidade e dos bandidos e não é defendido por ninguém. A Anistia atua muito em cima das estatísticas e também não traz nenhuma solução, só faz críticas."

    Em meio às críticas da Human Rights Watch e da Anistia Internacional, e das explicações dadas pelo SindPol, estão a população e os turistas no Rio, que também conversaram com nossa reportagem sobre como estão se sentindo quanto à segurança na cidade para os Jogos.

    Para a carioca Priscila Fazollo, de 40 anos, que acompanhou nesta quarta-feira (3) toda a mobilização de segurança da passagem da Tocha Olímpica pelo Centro do Rio, por enquanto não há o que reclamar sobre a segurança. Priscila disse estar se sentindo segura com o reforço do policiamento na região, e não viu ação truculenta da Polícia na passagem do símbolo olímpico.

    "Eu vi a Tocha passando na Avenida Rio Branco, e realmente tinha muita segurança, muitos policiais, e não senti hostilidade de nenhum deles, apesar de que na hora em que a Tocha se movimenta, eles passam com força. Se você estiver na frente, tem que sair. Fiquei emocionada vendo a Tocha passar. Em relação à segurança, o Centro da cidade está bem policiado. Toda hora passam os policiais em bicicletas e em motos. Por enquanto não estou podendo reclamar de nada, não."

    Já Lucas Sena, de 25 anos, carioca que mora há um ano em Portugal e veio ao Rio de férias para os Jogos, observou como está a segurança no Aeroporto Tom Jobim e no percurso pela cidade até chegar ao Estádio do Engenhão, onde assistiu à partida de futebol feminino entre Suécia e África do Sul.

    De acordo com Lucas, para quem chega ao Rio há uma grande sensação de segurança pela quantidade de policiais na cidade, mas ele acredita que seja algo passageiro, pois quem mora no Rio sabe que a violência é uma realidade. Mesmo assim, Lucas Sena diz que vai aproveitar as atrações no Rio e os Jogos.

    "Quando chegamos, a sensação de segurança é enorme, pelo grande número de policiais que foram deslocados para o Rio, mas nós, que temos amigos e familiares morando na cidade, sabemos que a insegurança é enorme para todos os moradores. Acredito que há segurança no Rio hoje em prol das Olimpíadas, mas sabemos que é passageiro e o medo dos moradores existe. Estou há um ano morando fora, e aqui tenho receio de ir a alguns lugares, levar meu celular. Não saio de relógio, e levo pouca coisa na carteira, porque a qualquer momento pode acontecer alguma coisa. A gente sempre tem receio, mas eu vim acompanhar, e gosto dos Jogos. Acho bacana poder acontecer aqui no Rio, e estou aproveitando. Vim hoje ao jogo no Engenhão, o transporte foi muito bom, viemos de trem e foi muito tranquilo. A segurança no entorno do estádio está muito boa, mas sabemos que isso é momentâneo."

    Apesar da falta de melhores condições de trabalho para os policiais, a mensagem que o assessor de Comunicação do SindPol, Cláudio Alves, deixa é que tudo será feito para garantir a segurança da população durante os Jogos Rio 2016. "Durante as Olimpíadas é claro que vai haver segurança total para todo mundo. Embora o Estado esteja em crise, tem agora o apoio do Governo Federal, das Forças Armadas. Acreditamos que tudo vai correr bem, que não vai haver problema nenhum para os turistas nem para os cidadãos cariocas."

    Tema:
    Rio 2016 (253)
    Tags:
    truculência, Jogos Rio 2016, Jogos Olímpicos, direitos humanos, segurança, SindPol – Sindicato dos Policiais Civis do Rio de Janeiro, Polícia Civil, Polícia Militar, Human Rights Watch, Anistia Internacional, Rio de Janeiro, Brasil
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