15:26 26 Setembro 2021
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    Dilma sobre Bolsonaro: Lamentável homenagear maior torturador do regime militar

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    A Presidenta Dilma Rousseff classificou como lamentável o discurso do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), que, ao votar "sim" para o impeachment no último domingo enalteceu a ditadura militar e a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi, órgão repressor criado para prender e torturar opositores ao regime.

    Em coletiva com jornalistas estrangeiros, Dilma citou a sua experiência na ditadura, e afirmou ser terrível “homenagear” alguém reconhecido pela Comissão Nacional da Verdade, que apurou as graves violações de Direitos Humanos durante o regime militar, como o maior torturador do país durante a ditadura no Brasil.

    “Fui presa nos anos 1970. De fato, eu conheci bem esse senhor ao qual ele se referiu. Foi um dos maiores torturadores do Brasil, sobre ele recai não só acusação de tortura, mas também de mortes. É só ler os documentos da Comissão da Verdade. Lastimo que, neste momento no Brasil, tenha dado abertura para a intolerância, para o ódio, para esse tipo de fala. Acho gravíssimo a aventura golpista, porque ela levou a uma situação que nós não vivíamos no Brasil, que é uma situação de raiva, de ódio, de perseguição. Em um processo como é o nosso, em que a democracia resulta de uma grande luta de resistência, é terrível você ver no julgamento alguém votando em homenagem ao maior torturador que esse país conheceu. É lamentável”.

    Sobre a aprovação do impeachment na Câmara dos Deputados, Dilma disse para a mídia estrangeira que está sendo vítima de um processo de impeachment baseado em uma injusta fraude jurídica e política, e voltou a dizer que é vítima de golpe, porque o processo de impeachment não tem base legal, nem provas de qualquer irregularidade que ela tenha praticado com dolo e má fé.

    “Eu me sinto injustiçada e acho grave que tentem diminuir a exigência da base legal para propor e buscar o impedimento de um Presidente da República. Aí pergunto para vocês: por que isso não seria um golpe? É um golpe. É um golpe porque está revestido de um pecado original, que é, não tem base legal para o meu impeachment".

    Segundo a chefe de Estado brasileira, as tentativas da oposição de desestabilizar seu mandato começaram logo após as eleições de 2014, vencidas por pequena margem de votos. Ao ser questionada se o fato de ser a primeira presidenta mulher no Brasil fez aumentar as ações para desestabilizar o seu governo, se ela sofre preconceito por isso, Dilma Rousseff respondeu que com certeza certas atitudes não aconteceriam caso o presidente da República fosse um homem, e citou recente episódio envolvendo um veículo da imprensa que para a Presidenta demonstrou esse tipo de machismo.

    “Falam o seguinte: mulher sob tensão tem que ficar histérica, nervosa e desequilibrada. E não se conformam que eu não fique nervosa nem histérica, nem desequilibrada. Aí tem uma outra ala que diz que não é bem isso, porque eu não estou percebendo o tamanho da crise. Eu até não gosto de falar porque eu tenho uma familiar e acho a forma que tratam essa questão muito desrespeitosa: falam que eu sou autista. Um preconceito tão grande quanto o de gênero. Eu lamento profundamente o grau de preconceito contra a mulher, de que mulher tem que ser frágil. Ora, as mulheres brasileiras não têm nada de frágeis, elas criam filhos e lutam. Tem misturado nisso tudo um grande preconceito contra a mulher. Têm atitudes comigo que não teriam com um presidente homem”.

    Na coletiva, a presidenta ainda criticou novamente Michel Temer, dizendo que é muito triste que o vice-presidente conspire abertamente contra ela.  

    “É muito pouco usual que haja assim um vice-presidente da República. Acho que a conspiração se dá pelo fato de que a única forma de chegarem ao poder no Brasil é utilizando de métodos, transformando e ocultando fatos”.

    Para Dilma, “o processo de impeachment, na verdade, não é um processo de impeachment, mas é uma tentativa de eleição direta de um grupo que de outra forma não teria acesso pelos únicos meios justificáveis num país que tem uma democracia, que foi tão duramente conquistada, que é o voto secreto e direto da população brasileira”.

    Tags:
    Brasil, Brasília, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro, Comissão Nacional da Verdade, tortura, impeachment, ditadura
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