15:13 26 Setembro 2017
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    Michel Temer (foto de arquivo)

    Tiro pela culatra: Temer se queima ainda mais após vazamento de carta a Dilma

    © Sputnik/ Aleksei Nikolsky
    Brasil
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    Pedido de impeachment de Dilma Rousseff (132)
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    A carta enviada pelo vice-presidente Michel Temer à presidenta Dilma Rousseff e divulgada ontem à noite (7) pela Globonews provocou uma onda de memes nas redes sociais e uma enxurrada de críticas à atuação ressentida do presidente nacional do PMDB, que, de acordo com diversos analistas, está apenas tentando avançar o golpe contra a líder eleita.

    ​“Temer alegou que a carta tinha teor pessoal. Dificilmente se pode acreditar que foi o governo, e não seu próprio grupo, o responsável pelo seu vazamento à imprensa. A alegação beira o ridículo. Ela claramente foi escrita com o intuito de justificar sua atuação pelo impeachment. Do ponto de vista político, fica claro que o vice-presidente atuará em consonância com Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e setores da oposição para promover a deposição da presidenta. Os motivos alegados, entretanto, são vergonhosos, mesquinhos e pouco críveis. Pode ser que a repercussão seja muito negativa e prejudique a posição de condutor de uma saída mediada que Temer procurava construir”, disse Leonardo Barbosa, doutorando do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre o Congresso (Necon), em entrevista à Sputnik.

    Outras vozes da sociedade civil brasileira também se levantaram em peso contra o impeachment de Dilma após a repercussão da carta.

    “A ‘carta’ de Temer ‘a Dilma’ (…) é praticamente uma declaração de guerra, encharcada de ressentimento. Indica que o vice estaria mesmo a conspirar contra a titular, de olhos grandes sobre sua cadeira. Revela a estatura moral do remetente e, mais uma vez, o caldo antiético de toda a tentativa de impedimento em curso”, opinou Adriano Pilatti, professor de Direito Constitucional da PUC-Rio e um dos nomes mais importantes por trás da Constituinte de 1988. 

    Para o editor da revista Fórum, Renato Rovai, a carta “destrói Temer politicamente”. 

    “Sua biografia está marcada daqui para diante como a de um político vaidoso, egoísta e de certa forma sem limites. Dilma pode cair, mas Temer não sairá maior deste processo. Ele caiu hoje”, escreveu o jornalista e professor em seu blog no Portal Fórum.

    ​Além disso, muitos políticos da oposição de esquerda ao PT também saíram em defesa da presidenta. 

    O deputado Jean Wyllys, do PSOL, declarou que a carta foi escrita claramente para ser tornada pública, ao contrário do que disse Temer a respeito do caráter supostamente “confidencial e pessoal” do documento vazado à imprensa.

    “A carta não tem nada de pessoal e confidencial; muito pelo contrário, é ‘bombástica’ no estilo, conteúdo e formato, exatamente como aquelas em geral abertas para a imprensa. Leiam e percebam a construção do texto, claramente feita para exposição e consumo midiático. A destinatária da carta nunca foi a Dilma, mas a redação dos jornais! O nome disso é cinismo!”, escreveu o deputado em sua página no Facebook, acrescentando que, na verdade, a carta tem como objetivo “deixar bem claro que Temer está disposto a assumir a Presidência”.

    O golpe da carta (temos algo a Temer?)#CartaDoTemerA carta que "vazou" para a imprensa teria sido escrita,…

    Posted by Jean Wyllys on Monday, December 7, 2015

    Em entrevista ao programa ‘Mariana Godoy Entrevista’, Ciro Gomes, pré-candidato do PDT à Presidência da República em 2018, declarou por sua vez que Temer é o “capitão do golpe”.

    “Vai não, porque se ele for, quem vai entrar com um pedido de impeachment no primeiro dia sou eu”, disse Ciro, depois que a entrevistadora lhe perguntou se Temer, de fato, poderia vir a ser presidente. 

    O ex-ministro disse ainda que já está com cópias em mãos dos decretos de pedaladas fiscais que o próprio Temer assinou como interino da Presidência da República. “Só para você ver a molecagem, como é que funciona no Brasil”, afirmou Ciro, explicando que as pedaladas fiscais – justificativa usada pela oposição para “fundamentar” o pedido de impeachment – não constituem crime de responsabilidade, apesar de serem problemáticas.

    De fato, uma reportagem do Estadão apurou sete decretos de pedaladas fiscais com assinatura de Michel Temer, os quais teriam aberto um crédito suplementar de R$ 10,8 bilhões. Segundo artigo do jornalista Luis Nassif para o GGN, “tudo indica que o levantamento do Estadão foi o estopim para que ele [Temer] soltasse a carta aberta, um gesto de desespero para se livrar de ser impedido juntamente com a presidente, no mesmo pedido e pelos mesmos motivos”.

    Para Barbosa, cujo tema de pesquisa é a evolução dos conflitos políticos no sistema partidário brasileiro contemporâneo como chave para entender a polarização entre PT e PSDB, a avaliação de Nassif é interessante.

    “A carta foi também uma tentativa de se isolar do governo, afinal ele [Temer] assinou decretos do mesmo tipo que estão sendo usados para pedir o impeachment de Dilma. É uma tentativa de dizer que ele não participou”, disse o cientista político à Sputnik, acrescentando que, de qualquer maneira, o caso “continua sendo patético”.

    Tema:
    Pedido de impeachment de Dilma Rousseff (132)

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