Pode retórica anti-China de Harris impulsionar credibilidade dos EUA após fiasco afegão?

© REUTERS / EVELYN HOCKSTEINVice-presidente dos EUA, Kamala Harris, durante sua visita a Hanói, Vietnã, 25 de agosto de 2021
Vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, durante sua visita a Hanói, Vietnã, 25 de agosto de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 25.08.2021
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Vice-presidente Kamala Harris embarcou em uma viagem ao Sudeste Asiático, que inclui visitas a Cingapura e Vietnã, em meio à finalização da retirada dos EUA do Afeganistão. Será que Harris conseguirá tranquilizar os parceiros de Washington na Ásia e formar uma "frente unida" contra Pequim?

Durante sua visita aos países asiáticos, Harris acusou a China de fazer reivindicações "ilegais" no mar do Sul da China, ressaltando que Pequim é engajada em "coerção e intimidação". Ela também acusou a República Popular de "minar a ordem baseada em regras e ameaçar a soberania de nações".

A viagem, considerada pela emissora CNN como a tentativa da administração Biden de "fornecer uma vitória na política externa para uma administração em crise", é destinada a reafirmar seu compromisso com a região perante os aliados asiáticos dos EUA, de acordo com Francesco Sisci, especialista em China.

Enquanto os políticos europeus estão preocupados mais com o potencial surto da atividade terrorista na Ásia, a retirada norte-americana é "vista como um sinal do novo compromisso americano perante a região [do Sudeste Asiático]", conforme o especialista.

© AP Photo / Evelyn HocksteinA vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, participa de uma mesa redonda em Gardens by the Bay, em Cingapura, antes de partir para o Vietnã na segunda etapa de sua viagem ao sudeste da Ásia, 24 de agosto de 2021
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A vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, participa de uma mesa redonda em Gardens by the Bay, em Cingapura, antes de partir para o Vietnã na segunda etapa de sua viagem ao sudeste da Ásia, 24 de agosto de 2021

No entanto, a ofensiva de charme da vice-presidente dos EUA pode ser menos eficaz em Hanói, acredita dr. Stephen Nagy, professor associado sênior da Universidade Cristã Internacional em Tóquio e membro do Instituto Canadense de Assuntos Globais. Ao contrário de Cingapura, que tem mantido relações políticas e militares duradouras com os Estados Unidos, "Vietnã permanece fiel a seu sistema político e continua tendo fortes laços partido-a-partido com o Partido Comunista da China", de acordo com o professor.

"Seus laços econômicos com Pequim também significam que Hanói deve equilibrar as relações com os EUA e a China", sugere.

Conforme The Diplomat, o Vietnã e a China atingiram "uma parceria estratégica abrangente" em 2009, enquanto as relações de Hanói com os EUA "continuam no nível de parceria abrangente", apesar das tentativas de Washington de as promover para um nível estratégico.

O assunto foi tocado durante as negociações em julho entre o secretário de Defesa norte-americano, Lloyd Austin, e o presidente vietnamita, Nguyen Xuan Phuc, segundo a mídia. Os países também compartilham um registro histórico controverso, já que os dois estiveram envolvidos em uma guerra de 19 anos, que terminou com a retirada precipitada de Washington de Saigon em 1975. O Vietnã do Norte venceu a guerra com o apoio da URSS e da China.

"Harris está no Sudoeste Asiático para a proteger das consequências [da questão] do Afeganistão e melhorar sua bona fides geopolítica antes de ela, presumivelmente, substituir Joe Biden que está falhando rapidamente", opina analista geopolítico Tom Luongo.

A vice se focou no mar do Sul da China a fim de evitar o assunto de Taiwan, que assumiu um novo significado "dado o colapso da estratégia dos EUA para a Ásia Central", de acordo com o analista.

© REUTERS / Manan VatsyayanaVice-presidente dos EUA Kamala Harris e presidente vietnamita, Nguyen Xuan Phuc, no palácio presidencial em Hanói, 25 de agosto de 2021
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Vice-presidente dos EUA Kamala Harris e presidente vietnamita, Nguyen Xuan Phuc, no palácio presidencial em Hanói, 25 de agosto de 2021

As declarações de Harris são sinais "típicos da dupla linguagem de Washington", por um lado, de que os EUA não deixam a região, mas por outro lado, de que eles "não desejam confrontar a China em seu brandir de armas face a Taiwan, que é a questão real", sugere ele.

Depois do fracasso de Washington no Afeganistão, o compromisso dos EUA com Taiwan está sob escrutínio, escreve o portal Politico. A questão é se Washington vai interferir e proteger a ilha no caso de uma ofensiva hipotética da China. A mídia admitiu que "o desafio fundamental ao compromisso norte-americano perante Taiwan" é "a tensão crescente" entre a necessidade de manter uma estabilidade bilateral estratégica com a China e um cenário hipotético no qual os Estados Unidos tenham que se confrontar com Pequim por Taiwan.

"Washington reconhece [...] a importância de trabalhar com Pequim para manter a estabilidade bilateral estratégica [...] e enfrentar desafios globais urgentes, como a pandemia e as mudanças climáticas", notou o portal.

EUA, com muita probabilidade, não vão manobrar com vantagem sobre a China na região, prevê o editor da China Rising Radio Sinoland Jeff J. Brown.

"Não há nada de novo sobre Harris dizendo uma coisa – asiáticos não têm que escolher entre os EUA e a China – e fazendo outra – a portas fechadas nossos vassalos aliados têm de evitar a RPC", disse ele.

Enquanto os EUA recorrem a uma técnica clássica do Maquiavel ocidental e do Sun Tzu chinês, enquanto Pequim está "aplicando as ideias nobres da Carta das Nações Unidas e da Declaração de Bandung, para respeitar os interesses essenciais de todos os países, grandes e pequenos", adicionou.

No longo prazo, a estratégia de poder brando de Pequim "vai ganhar os corações e mentes asiáticos contra a hegemonia do Grande Jogo do Ocidente", concluiu Brown.
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