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    A retirada desorganizada dos EUA do Afeganistão contrasta fortemente com a forma como a URSS deixou o país em fevereiro de 1989, diz o jornalista independente norte-americano Max Parry.

    No domingo (15), os EUA evacuaram apressadamente seu pessoal da embaixada na capital afegã Cabul, quando os Talibãs (organização terrorista, proibida na Rússia e em vários outros países) entraram na cidade.

    Nos últimos dias da Guerra do Vietnã, helicópteros americanos foram usados para evacuar quase 7.000 pessoas da embaixada dos EUA em Saigon, nos dias 29 e 30 de abril de 1975. O mesmo ocorreu hoje [15] em Cabul.

    Em abril de 1975, o fotógrafo holandês Hubert van Es tirou uma foto de pessoas subindo uma escada para um helicóptero dos EUA em um telhado em Saigon, no final da Guerra do Vietnã.

    A Casa Branca não parecia preparada para mais um "momento Saigon": na última quinta-feira (12), os serviços de inteligência dos EUA previram que Cabul cairia em 90 dias; depois corrigiram seu prognóstico para 72 horas. No entanto, a capital caiu mais rápido que isso, provocando o colapso do governo de Ashraf Ghani e o pânico no aeroporto de Cabul.

    Ironicamente, há mais de 40 anos, Washington planejou criar um "atoleiro vietnamita" semelhante para a URSS no Afeganistão. A Operação Cyclone, destinada a armar e financiar insurgentes afegãos, foi lançada meses antes da entrada das tropas soviéticas no Afeganistão a pedido de Cabul, de acordo com as memórias de Robert Gates, ex-vice-diretor da CIA.

    Zbigniew Brzezinski, ex-assessor de Segurança Nacional dos EUA na administração de Jimmy Carter (1977-1981), disse que o truque era "induzir uma intervenção militar soviética". No entanto, após dez anos de guerra, as forças soviéticas conduziram uma retirada ordeira entre 15 de maio de 1988 e 15 de fevereiro de 1989.

    Retirada da URSS vs. retirada dos EUA

    "A principal diferença entre a retirada soviética em 1989 e a retirada dos EUA hoje é a natureza completamente desorganizada e aleatória desta última", diz à Sputnik o jornalista independente americano Max Parry, referindo-se à desordenada evacuação do pessoal da embaixada e ao envio de um contingente militar adicional para o país para encerrar a retirada o mais rápido possível.

    Max Parry, jornalista independente dos EUA, aponta a "natureza completamente desorganizada e aleatória" do país norte-americano, em contraste com a URSS, que apesar de ter sido envolvida em um prolongado e exaustivo impasse com os militantes mujahideen, conseguiu realizar sua retirada "de forma ordenada e responsável".

    "Os americanos fizeram de tudo para garantir que a retirada não ocorresse ou, se ocorresse, com enormes perdas para nós", contou o coronel-general Boris Gromov, último comandante do 40º Exército no Afeganistão, em uma entrevista de 2019 à Sputnik.

    A tarefa soviética também foi dificultada devido aos mujahideen serem armados pelos EUA, uma ideia revelada em uma entrevista de 15 de janeiro de 1998 ao jornal Le Nouvel Observateur por Brzezinski.

    "Lamentar o quê?" perguntou o ex-alto responsável.

    "Essa operação secreta foi uma excelente ideia. Ela teve o efeito de atrair os russos para a armadilha afegã e você quer que eu me arrependa? [...] O que é mais importante na história mundial? O Talibã ou o colapso do império soviético"?

    Na época, o geoestrategista não poderia ter imaginado que essa operação secreta acabaria se virando contra os EUA.

    Militares norte-americanos defendem a aeronave no Aeroporto Internacional Hamid Karzai em Cabul, Afeganistão
    © REUTERS / Força Aérea dos EUA
    Militares norte-americanos defendem a aeronave no Aeroporto Internacional Hamid Karzai em Cabul, Afeganistão

    Parry comentou, no entanto, que a URSS, em contraste com os EUA, "deixou intacto um governo relativamente estável para presidir ao país", envolvendo um acordo com Ahmad Shah Massoud, um dos líderes dos mujahideen e um dos principais senhores da guerra afegãos, para retirar suas tropas.

    Realidade norte-americana no Afeganistão

    Por sua vez, o conteúdo dos acordos entre Washington e o Talibã ainda não está claro, após uma queda do governo do Afeganistão muito mais rápida que o previsto e o desagrado do grupo militante pelo adiamento do prazo de saída de maio para setembro de 2021. Ashraf Ghani, até recentemente presidente do Afeganistão, abandonou o país e quebrou acordos anteriores sobre uma transferência de poder ordenada. Além disso, parecia não haver confiança mútua entre Ghani e os EUA.

    Parry sublinhou que, apesar de o povo norte-americano desejar o fim da guerra no Afeganistão, a forma caótica como a retirada ocorreu levou a críticas tanto da esquerda como da direita, aumentando a possibilidade de ganhos pelo Partido Republicano nas eleições de meio de mandato de 2022.

    "Quando os EUA recentemente desocuparam a base aérea de Bagram, eles o fizeram sem sequer deixar o comandante afegão encarregado do aeródromo saber disso com antecedência, o que indica uma séria ruptura na comunicação entre Washington e o governo de Ghani em Cabul", referiu o analista. Segundo ele, o episódio "deveria servir como um aviso aos governos lacaios de Washington em todo o mundo de que também eles poderiam ser abandonados ao cair do chapéu".

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    EUA, Afeganistão, URSS, Vietnã, Cabul, Bagram, Partido Republicano, Ashraf Ghani, Talibã, Twitter, Sputnik, Sputnik News, Zbigniew Brzezinski, Jimmy Carter, Casa Branca, Guerra do Vietnã, Guerra do Afeganistão
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