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    Uma seita cristã caiu sob o "olho" da sociedade sul-coreana devido ao seu papel na propagação da infecção. Além disso, há evidências da participação da seita no epicentro em Wuhan, China.

    O surto de coronavírus na Ásia está se espalhando pelo mundo, atingindo não só a China, mas também os países vizinhos. O segundo país em número de pessoas doentes é a Coreia do Sul, onde as vítimas ultrapassaram os 1.750.

    Nesta semana, as ruas das maiores cidades da Coreia do Sul, que geralmente estão muito cheias, estão surpreendentemente vazias. Muitas pessoas têm medo de sair de casa e só saem em casos de extrema urgência. Uma dessas cidades é Daegu, no sudeste do país, onde o coronavírus teve seu maior impacto. A cidade está desértica: os habitantes se reúnem apenas perto de farmácias para comprar máscaras.

    Características do grupo 'culpado'

    É provável que mais da metade dos casos de infecção estejam relacionados a uma seita religiosa que se destaca pelo seu elevado secretismo, o que permitiu que a doença se espalhasse rapidamente e sem ser notada. A seita no centro da epidemia na Coreia do Sul tem o nome de Igreja de Jesus Shincheonji. Seus membros praticam rituais que só incentivam a propagação da infecção, de acordo com várias fontes.

    Homem usa máscara e óculos de proteção enquanto espera na fila para comprar máscaras em um posto de correios perto da filial da Igreja de Jesus Shincheonji em Daegu, 27 de fevereiro de 2020
    © AFP 2020 / Jung Yeon-je
    Homem com máscara de proteção, Coreia do Sul

    Em particular, as fontes relatam que durante as cerimônias, os seguidores de Shincheonji têm que se ajoelhar a uma distância de apenas 10 centímetros uns dos outros. Ao mesmo tempo, eles têm de dar as mãos uns aos outros. Além disso, segundo relatos, os praticantes desta seita são proibidos de usar máscaras dentro dos edifícios. Neste grupo religioso, acredita-se que estar doente é um pecado, porque impede os membros de "fazer o trabalho divino".

    No entanto, o chefe do Secretariado do Instituto para a Liberdade Religiosa e Culto da Coreia, Bae Byungtae, não concorda com estas reivindicações.

    "O rápido aumento do número de infectados pela COVID-19 entre os seguidores de Shincheonji levantou suspeitas sobre possíveis ligações entre o surto e as práticas religiosas de seus membros, mas isso não é verdade", afirmou.

    "A forte coesão é usada para atrair novos seguidores e as ações coordenadas são as marcas dos novos movimentos religiosos. Tanto quanto sei, eles não têm nenhuma prática extraordinária", disse o entrevistado à Sputnik Mundo.

    As autoridades sanitárias sul-coreanas acreditam que uma mulher de 61 anos é uma das primeiras a ser infectada dentro deste grupo religioso. As autoridades tentaram transferi-la para um hospital para testar a existência de coronavírus, mas por um período de tempo ela se recusou a ser internada no hospital.

    O teste de SARS-CoV-2 depois deu positivo. A administração está ciente de que a mulher frequentava congregações no culto, o que muito provavelmente levou a mais infecções na população.

    Identidade da Igreja de Jesus Shincheonji

    A Igreja de Jesus Shincheonji foi fundada em 1984 por Lee Man-hee, que é considerado um falso profeta. Aos seguidores da igreja é ensinado que Lee é a reencarnação de Jesus Cristo, e que a Bíblia está escrita em metáforas, então somente Lee é capaz de interpretá-la corretamente.

    De acordo com diferentes estimativas, em 2020 esta seita tem cerca de 200.000 membros. Como muitas pessoas na Coreia do Sul acreditam que é um culto, muitos praticantes preferem esconder sua filiação.

    Uma mulher e crianças usam máscaras para se protegerem contra o novo coronavírus em Seul, Coreia do Sul, 3 de fevereiro de 2020
    © REUTERS / Heo Ran
    Mulher com crianças usam máscaras de proteção em Seul, Coreia do Sul

    "As razões para o segredo dentro de Shincheonji estão no fato de que as denominações cristãs dominantes na sociedade sul-coreana a acusaram de heresia, o que levou a um forte ressentimento em relação ao grupo", afirmou Bae.

    "A mídia também a ataca, e isso faz com que a situação atual pareça uma caça às bruxas. Se tivéssemos uma sociedade aberta onde os seguidores de Shincheonji pudessem se abrir para outros, eu não acho que teria ocorrido um surto tão forte", lamentou.

    Como mencionado acima, os membros da seita consideram a doença uma fraqueza, tornando ainda mais difícil encontrar infectados pela SARS-CoV-2. É por isso que a localização de alguns dos seguidores do culto ainda não foi rastreada.

    Embora a própria organização religiosa afirme cooperar plenamente com as autoridades, foi recentemente revelado que a Shincheonji não incluiu os nomes de alguns de seus seguidores na lista de membros dada ao governo sul-coreano.

    De acordo com informações do site Business Insider, uma dúzia de chineses praticantes de Shincheonji na cidade chinesa de Wuhan, o epicentro do surto, está ligada ao recente surto de coronavírus em Daegu. O número de infectados, cuja doença está ligada à propagação do vírus dentro da seita atualmente corresponde a 730 pessoas, quase metade de todos os casos notificados no país asiático.

    A súbita propagação do vírus na Coreia do Sul provavelmente não se deve apenas às atividades da seita em Daegu, mas também possivelmente ao fato de que ela tinha uma filial em Wuhan. Ainda falta determinar sua ligação com a situação agravante do coronavírus na cidade sul-coreana.

    Muito provavelmente, quando surgiu informação sobre o vírus, ninguém a levou a sério, e foi precisamente isso que fez com que o número de pessoas afetadas pelo vírus disparasse.

    Seita está relacionada à propagação do vírus?

    O papel da Shincheonji na propagação do coronavírus teve um enorme impacto social sobre a população sul-coreana, virando objeto de fúria popular. O descontentamento chegou a tal ponto que mais de meio milhão de pessoas assinou uma petição pedindo a dissolução da Igreja de Jesus Shincheonji.

    As autoridades estão atualmente monitorizando o estado de saúde dos membros desta organização religiosa. Seu líder, Lee Man-hee, em uma mensagem interna de 21 de fevereiro, chamou a propagação do vírus de "obra do diabo". De acordo com o fundador da igreja, com este vírus o diabo está tentando impedir o rápido crescimento da Shincheonji.

    Funcionários trabalhando para prevenir um novo coronavírus na estação de Suseo em Seul, Coreia do Sul, 24 de janeiro de 2020
    © AP Photo / Ahn Young-joon
    Trabalhadores desinfetando a estação de Suseo em Seul para controle do coronavírus, Coreia do Sul

    Entretanto, o peticionário disse que a chamada igreja ordenou o impedimento de investigações epidemiológicas e a sabotagem dos esforços de quarentena pelas autoridades da cidade de Daegu. Em resposta, as entidades governamentais, particularmente o Ministério da Justiça sul-coreano, estão investigando se o movimento violou alguma lei de saúde pública.

    Segundo o jornal Washington Post, Kim Si-mon, o porta-voz de Shincheonji, declarou no domingo (23) que todas as 1.100 igrejas e edifícios em toda a Coreia do Sul foram fechadas, ao mesmo tempo que os praticantes foram alertados para o perigo das congregações. De acordo com o porta-voz, a direção da seita apelou aos seus membros para se absterem de atividades externas. A chamada igreja até publicou uma lista de endereços em seu site, mas as autoridades alegaram que estes não correspondiam às informações disponíveis para eles.

    Em comentários à Sputnik Mundo, Bae Byungtae enfatizou que a Coreia do Sul tem que reconhecer que Shincheonji faz parte da sociedade, e que eles são pessoas comuns que também têm seus direitos. Ao mesmo tempo, porém, salientou que se violarem as leis, devem assumir a responsabilidade e ser responsabilizados pelos seus atos.

    "Sem dúvida, eles, os seguidores de Shincheonji, também devem ser punidos legalmente pela sua recusa em cumprir a política estatal na área da imposição de quarentena", concluiu o entrevistado.

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    Tags:
    Coreia do Sul
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