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    Esforços de Mike Pompeo para selar acordo de paz no Afeganistão fornecem legitimidade e devolvem o poder ao grupo Talibã, com quem os EUA lutam há dezenove anos.

    Nesta sexta-feira (21), o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, publicou na sua conta no Twitter que os EUA "chegaram a um acordo com o Talibã para reduzir significativamente a violência no Afeganistão" e anunciou que um acordo de paz poderia estar próximo.

    "Após décadas de conflito, nós chegamos a um acordo com o Talibã para reduzir significativamente a violência no Afeganistão. Este é um passo importante em uma longa jornada rumo à paz, e eu peço a todos os afegãos que aproveitem esta oportunidade."

    O analista Michael Hirsh, da revista norte-americana Foreign Policy, lamenta que "ninguém reclamou da relegitimação do Talibã, que agora terá uma voz poderosa no comando do país". Segundo ele, o Talibã estaria inclusive em posição de "retomar o controle" do Afeganistão.

    Para Hirsh, os EUA cometeram um erro estratégico grave ao invadir o Iraque enquanto os ganhos militares da operação no Afeganistão não estavam consolidados. A insurgência que se seguiu à invasão do Iraque, que teria pego a administração George W. Bush de surpresa, reduziu a capacidade dos EUA de influenciar o campo de batalha no Afeganistão.

    Nesse contexto, o então secretário de Defesa de Bush, David Rumsfeld, teria "decidido manter o que ele chamou de 'pequena marca' no Afeganistão porque ele não gostava da ideia de construção nacional", que consistiria no investimento dos EUA na construção e consolidação de novas instituições no Afeganistão.

    O Talibã, que teria recebido um golpe muito forte durante as primeiras operações dos EUA no Afeganistão, gradualmente se reconstruiu, a partir de bases no Paquistão, e utilizou o vácuo de poder deixado pelos EUA para retomar sua influência na política interna do país asiático.

    Cerimônia de transporte do caixão de um militar norte-americano morto no Afeganistão, em 14 de fevereiro de 2020
    © AP Photo / Steve Ruark
    Cerimônia de transporte do caixão de um militar norte-americano morto no Afeganistão, em 14 de fevereiro de 2020

    Quando o retorno do Talibã já era uma realidade, a administração Obama debateu qual seria a melhor estratégia para conter o avanço do grupo, "que havia tomado a cidade de Kunduz em 2015 e voltado a representar uma ameaça a áreas urbanas e ao próprio governo de Cabul".

    "A administração Bush cometeu três erros fundamentais logo no início [da guerra] no Afeganistão", disse James Dobbins, que serviu como enviado especial da administração Bush para o Afeganistão.

    "O primeiro foi acreditar que um país devastado, sem exército ou polícia, poderia garantir a segurança de seu território ou da sua população sem ajuda", disse Dobbins ao analista. "O segundo foi a incapacidade de atrair os membros do Talibã que estavam preparados para entregar as armas, inclusive os de alto escalão", acrescentou.

    "O terceiro foi não entender que, mesmo que o Paquistão tivesse deixado de fornecer apoio ao governo do Talibã após [os ataques terroristas de] 11 de setembro, não deixou de apoiar o movimento Talibã", explicou.

    Esses erros teriam levado o Talibã a "se reagrupar, rearmar e [voltar a] operar" do território paquistanês, "projetando uma insurgência de larga escala de volta para o Afeganistão", concluiu.

    Por ter compreendido que Washington deixaria um vácuo de poder no Afeganistão, o Paquistão teria retomado seu apoio ao Talibã, considerando-o como um aliado islâmico.

    Crianças refugiadas afegãs no campo de Kabobayan, em Peshawar, no Paquistão, em 13 de fevereiro de 2020
    © AP Photo / Muhammad Sajjad
    Crianças refugiadas afegãs no campo de Kabobayan, em Peshawar, no Paquistão, em 13 de fevereiro de 2020

    Hirsh relata que o ex-embaixador do Paquistão nos EUA, Mahmud Ali Durrani, em entrevista concedida ao analista no início dos anos 2000, havia relatado que, pouco antes de Bush invadir o Iraque, "a Al-Qaeda [organização terrorista proibida na Rússia e demais países] estava praticamente destruída, no sentido operacional. Mas depois eles pegaram o vácuo deixado no Afeganistão. E encontraram a sua motivação no Iraque. A Al-Qaeda estava rejuvenescida".

    O historiador militar David Kilcullen acredita que a "guerra contra o terror", iniciada por Washington após os ataques terroristas de 11 de setembro, pode ter resultado no "maior erro estratégico feito por um líder de relevância desde que Adolf Hitler decidiu [...] invadir a União Soviética".

    Em contexto favorável a seu Exército na Europa, o líder nazista decidiu iniciar uma campanha militar de larga escala contra Moscou, decisão apontada por muitos historiadores como o motivo da derrota alemã na 2ª Guerra Mundial.

    "Hitler achou que o Reino Unido iria cair sozinha, e que ele iniciaria uma campanha que achava que seria mamão com açúcar" contra a União Soviética, disse Kilcullen.

    "Isso é literalmente o que aconteceu com o Afeganistão e o Iraque. Enquanto a batalha de Tora Bora [montanhas nas quais se dizia que bin Laden estaria escondido] ainda estava em curso, a administração Bush começou a fazer planos para [invadir] o Iraque", explicou.

    Enquanto as consequências desse erro são multifacetadas, o analista lembra que, nestes dezenove anos de guerra, os grupo armados aprenderam a lutar contra os EUA, em condições de guerra assimétrica.

    Fronteira entre Paquistão e Afeganistão, na cidade paquistanesa de Angore Adda
    © AP Photo / Mohammad Yousaf
    Fronteira entre Paquistão e Afeganistão, na cidade paquistanesa de Angore Adda

    "Se na Guerra do Golfo, em 1991, mostramos a todos como não se deveria lutar conosco, na invasão do Iraque em 2003 mostramos para todos como se deve lutar conosco", concluiu Kilcullen.

    Desde dezembro de 2019, o jornal norte-americano Washington Post vem publicando uma série de reportagens que demonstraram que, apesar das autoridades dos EUA estarem cientes dos erros cometidos no conflito afegão, elas continuaram a solicitar financiamento e declarar apoio à manutenção das tropas dos EUA no país asiático.

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    Tags:
    The Washington Post, Obama, George W. Bush, Iraque, EUA, Afeganistão
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