21:26 03 Dezembro 2020
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    A retórica estranhamente conciliadora de Kim Jong-un em relação ao seu vizinho do sul fez com que muitos especulem sobre a possibilidade de o líder norte-coreano estar disposto a mudar a política externa de seu país.

    Em seu discurso de Ano Novo, o líder norte-coreano apareceu diante das câmeras com uma roupa de estilo ocidental, em lugar de sua típica e tradicional jaqueta. Afirmou querer aliviar as tensões com a Coreia do Sul e estar disposto a enviar uma delegação norte-coreana aos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang 2018.

    A notícia foi recebida bem em Seul, e o ministro da Unificação da Coreia do Sul, Cho Myoung-gyon, propôs conversas com Pyongyang ao mais alto nível em 9 de janeiro, na zona desmilitarizada que separa os dois países.

    Como se fosse pouco, em 3 de janeiro surgiu a notícia de que Kim Jong-un abriu, pela primeira vez desde há muitos anos, um canal de comunicação entre as duas Coreias.

    Dividir para conquistar

    Alguns analistas sugerem que Kim Jong-un, ao dar este passo na direção ao diálogo, tenta afastar Seul de Washington, aliado dos sul-coreanos.

    "Kim Jong-un pode estar tentando abrir uma brecha entre as duas nações, entre a nossa nação e a República da Coreia. Não posso assegurar que isso não ocorrerá", disse à imprensa a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Heather Nauert, a 2 de janeiro.

    De acordo com Robert Litwak, docente do Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson, o comportamento de Kim Jong-un é bem calculado, levando em consideração que Pyongyang mostrou que é capaz de alcançar com seus mísseis a parte continental dos Estados Unidos.

    "O que Kim está vendo é uma oportunidade rara de colocar os sul-coreanos contra os Estados Unidos", garante Litwak ao jornal The New York Times.

    Shin Beomchul, da Academia Diplomática Nacional da Coreia do Sul, aponta à Associated Press que, apesar desta nova retórica mais conciliadora, a estratégia do líder norte-coreano "continua sendo a mesma".

    "Está desenvolvendo bombas nucleares, enquanto tenta reduzir a pressão internacional e a aliança militar entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, bem como fazer com que as sanções internacionais sejam canceladas", assegura Beomchul.

    Daniel Russel, pesquisador no Instituto Asia Society, aponta no The Washington Post que não há nada de novo nas últimas ações de Pyongyang.

    "Seria ingênuo esperar que a Coreia do Norte negocie de boa fé […] O padrão de Pyongyang consiste em aumentar as tensões até o limite, deixar cair uma proposta conciliadora, pegar todas e cada uma das concessões e voltar a fazer o mesmo uma e outra vez".

    Uma pausa

    Evan Medeiros, ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos para a Ásia durante a administração Obama, assegura no The Washington Post que é possível "reduzir temporariamente" as tensões e, como resultado, as relações entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul serão seriamente afetadas.

    "Especula-se muito que Kim Jong-un está a tentar fazer com que a Coreia do Norte seja vista como um país mais moderno e internacional", disse ao The New York Times, Robert Kelly, professor de ciências políticas da Universidade Nacional de Pusan (Coreia do Sul), a propósito da mudança de atitude do líder norte-coreano durante seu discurso de Ano Novo. "Está fazendo um espetáculo", afirma.

    As opiniões, de suspeita e desconfiança, aparentemente não deixam de apresentar Kim Jong-un como um líder ingênuo e empenhado em semear a discórdia. Mas, para o diretor para a não proliferação e política nuclear do Royal United Services Institute, Tom Plant, as últimas declarações do líder norte-coreano são de boa fé, mas também são parte de uma estratégia.

    "Eu as veria como algo positivo, no sentido de que [Kim Jong-un] não está dizendo 'vamos hoje para a guerra'. É uma oportunidade para fazer uma pausa. Querem baixar um pouco o tom. A Coreia do Norte não está interessada na guerra e também tenciona ver como Washington reagirá", diz Plant para o portal News.com.

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    Tags:
    negociações de paz, diálogo, Jogos Olímpicos, Kim Jong-un, Coreia do Sul, Coreia do Norte
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