21:47 11 Novembro 2019
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    Por que antigos reatores nucleares chineses na África representam um risco ao mundo?

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    Especialistas chineses, auxiliados por norte-americanos, substituíram com êxito um reator nuclear de fabricação em Gana, que produziu materiais cindíveis altamente enriquecidos facilmente utilizados na fabricação de bombas nucleares. Uma versão mais segura e confiável foi instalado. O problema é que há mais quatro.

    Em agosto, um esforço conjunto entre especialistas nucleares chineses e norte-americanos resultou na substituição bem-sucedida de um antigo reator nuclear de design chinês localizado em Gana.

    O antigo reator, chamado GHARR-1, serviu principalmente para fins científicos, e era um chamado reator de fonte de neutrons em miniatura (MNSR). Ele só poderia gerar cerca de 30 kW de energia térmica.

    "O reator é projetado para uso em universidades, hospitais e institutos de pesquisa, principalmente para análise de ativação de neutrons, produção de radioisótopos de curta duração, educação e desenvolvimento de mão-de-obra", diz o artigo em World Nuclear News descrevendo a usina de energia desenvolvida na China.

    O problema é que o GHARR-1 possui em 90,2% de urânio altamente enriquecido (HEU),  material necessário para fazer uma bomba nuclear efetiva. Na prática, seria exigido muito material, mas as bombas costumam ser feitas com urânio 85% enriquecido. Ter 90,2% de urânio enriquecido em uma região notória por atividades terroristas provavelmente não é uma boa ideia.

    Considerando a propagação do terrorismo, se grupos radicais colocarem as mãos em materiais nucleares altamente enriquecidos as consequências podem ser muito ruins, particularmente agora que o Daesh está sendo expulso da Síria e do Iraque. Os fanáticos forçados a fugir do Oriente Médio começaram a se alastrar pela África e poderiam ver nos reatores a oportunidade de apreender materiais cindíveis com o propósito de destruição em massa.

    Com todo esse material potencialmente perigoso, a solução é substituir os núcleos HEU por materiais com pouco enriquecimento, denominados LEUs. Os núcleos LEU operam em urânio enriquecido com menos de 20%, tornando ineficaz o seu uso como agente explosivo.

    A iniciativa de substituir o reator GHARR-1 por um núcleo LEU surgiu em 2006, embora a ideia tenha sido adiada por quase dez anos. O esforço pela mudança só se iniciou em 2014. É provável que a longa e difícil história da cooperação nuclear sino-americana, repleta de inúmeras alegações de espionagem e roubo, contribuiu para o atraso da operação.

    A desconfiança mútua entre as superpotências abrangeu décadas, já que os chineses ainda esperam uma desculpa formal por um relatório da Câmara dos EUA de 1999 alegando que a China usou cooperação no laboratório para conduzir a espionagem nuclear enquanto roubava a tecnologia de armas nucleares dos EUA.

    Os especialistas dizem que o relatório de 1999 é falso, mas o governo dos EUA ainda não reconheceu as acusações.

    "Não há evidências apresentadas em nenhum relatório que os visitantes científicos chineses tenham abusado de seu privilégio em visitar os Estados Unidos", escreveu um quarteto de especialistas do Centro de Segurança e Cooperação Internacional da Universidade de Stanford em Palo Alto, Califórnia, em 1999.

    Em 2016, o núcleo antigo foi removido e deixado apenas "fora da sala do reator GHARR-1, encerrado em um barril de 3 metros de altura sob uma lona preta, com um soldado ghanês portando uma arma automática", de acordo com a Science.com.

    Demorou mais um ano para instalar o novo núcleo LEU no reator, e todas as experiências e vários estudos foram colocados em espera até a conclusão o trabalho. O antigo núcleo do reator removido foi transportado de volta para a China em segredo.

    Mas existem mais quatro núcleos de reator de estilo antigo que precisam ser substituídos, de acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica. Um no Irã, um país que se mantém ostensivamente no controle de seu território e suas instalações de energia nuclear. Outro fica no Paquistão, um país com armas nucleares que, em contínuo conflito com a Índia e o notório acolhimento do terrorista Osama bin Laden.

    O terceiro reator de estilo antigo está na Nigéria, onde o grupo fundamentalista religioso Boko Haram reside. A organização terrorista islâmica prometeu fidelidade ao Daesh.

    O quarto e último reator de estilo antigo contendo material cindível que poderia ser usado para fazer uma bomba nuclear está na Síria, onde as forças armadas sírias apoiadas pelos russos destruíram o que restava do Daesh e da Frente al-Nusra.

    O time sino-americano ainda tem muito trabalho a fazer e, com vários militantes armados que se deslocam pela paisagem, precisa ser feito rapidamente. Mas os chineses ainda querem uma desculpa pelo relatório da Câmara dos EUA de 1999 e isso está agarrando as coisas.

    "A China disse que, se os Estados Unidos não reconhecerem a cooperação do passado como legais e mutuamente benéficas, então não há base para avançar", disse Tong Zhao, analista de política nuclear do Centro Carnegie-Tsinghua para Política Global em Pequim. 

    A decisão está nas mãos do tribunal dos EUA, no momento em que militantes fortemente armados estão em movimento.

    Tags:
    LEU, MNSR, HEU, GHARR-1, Universidade Tsinghua, Centro Carnegie-Tsinghua para Política Global, Centro de Segurança e Cooperação Internacional, World Nuclear News, Câmara dos Deputados dos EUA, Universidade de Stanford, Daesh, Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Boko Haram, Tong Zhao, Osama bin Laden, Palo Alto, Estados Unidos, Califórnia, Pequim, Gana, Nigéria, Iraque, Síria, China
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