11:17 26 Outubro 2020
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    Os Estados Unidos estão alarmados que o Paquistão decidiu que a Rússia tem a melhor chance de ser uma força estabilizadora para um resultado pacífico no Afeganistão. Mais do que isso: os EUA não querem acabar com a guerra, que é uma "galinha dos ovos de ouro", diz Brian Becker, da coalizão anti-guerra ANSWER.

    Durante o discurso do presidente dos EUA, Donald Trump, na última segunda-feira, no qual ele apresentou a nova estratégia do Afeganistão, o líder dos EUA criticou o Paquistão ao chamá-lo de "refúgio" para terroristas.

    "O Paquistão também abrigou as mesmas organizações que tentam todos os dias matar nossas pessoas. Pagamos bilhões de bilhões de dólares ao país e, ao mesmo tempo em que eles estão hospedando os terroristas que estamos combatendo. Mas isso terá que mudar, e isso mudará imediatamente. Nenhuma parceria pode sobreviver ao acolhimento de militantes e terroristas de um país que se dirigem a membros e funcionários do serviço dos EUA", disse Trump.

    O presidente dos EUA ameaçou mudar a posição dos Estados Unidos sobre o Paquistão se "continuar a abrigar criminosos e terroristas".

    No dia seguinte, o Paquistão respondeu à afirmação de Donald Trump, afirmando que o país está sendo identificado como um "bode expiatório" para as falhas dos EUA.

    "Eles não deveriam fazer do Paquistão um bode expiatório por suas falhas no Afeganistão", disse o ministro paquistanês das Relações Exteriores, Khawaja Asif, em uma entrevista à Geo TV, citada pela Reuters. Ele acrescentou que seu "compromisso com a guerra contra o terrorismo é incomparável e inabalável".

    Papel russo

    Para o especialista Brian Becker, a razão pela qual o presidente Trump "anunciou animosidade em relação ao Paquistão […] é que o Paquistão vem se aproximando da Rússia nos últimos meses, pedindo que a Rússia seja a principal força estabilizadora em um possível resultado pacífico no Afeganistão".

    "Os EUA ficaram alarmados de que o Paquistão, apesar das relações com a Rússia terem sido historicamente tensas, ter mudado. Os paquistaneses já decidiram que a Rússia, e não os EUA, tem a melhor esperança de um país da comunidade internacional trazer outros à mesa e, possivelmente, reunindo um governo de unidade nacional no Afeganistão, o que certamente será a única maneira que essa guerra poderia fim. O Pentágono não quer acabar com a guerra. Eles estão perfeitamente felizes com o impasse como está. É uma galinha dos ovos de ouro para o Pentágono e para os empreiteiros dos EUA", disse Becker ao RT.

    Segundo o especialista, os EUA estão mesmo utilizando o Paquistão como um bode expiatório.

    "Não há dúvida de que houve uma fronteira porosa entre o Paquistão e o Afeganistão. Não há dúvida de que as agências de inteligência paquistanesas tiveram um relacionamento de longa data com os talibãs que eles consideraram ser uma autoridade entre as muitas facções guerreiras lutando no Afeganistão", disse ele.

    O que mudou, acrescentou Becker, "é a abertura da paz do Paquistão à Rússia, pedindo à Rússia que ajude a criar uma região e uma interna — no interior do Afeganistão – possível arquitetura para novas negociações de paz".

    Washington não quer "a Rússia se intrometer no Afeganistão", disse Becker, acrescentando que já gastou "alguns trilhões de dólares" na guerra e perdeu mais de 2.000 soldados.

    "É uma grande galinha dos ovos de ouro. Existem muitas bases do Pentágono no Afeganistão. Estes são projetos de longo prazo por parte do Pentágono. Eles não querem que a Rússia entre. Eles não querem que a paz chegue ao Afeganistão".

    Trump, Nixon e o Vietnã

    Em seu discurso sobre o Afeganistão esta semana, Trump também descartou "uma retirada apressada" e disse que não há limites nos números de tropas.

    Quanto ao fato de o presidente Trump ter chance de ter sucesso onde seus predecessores falharam, Becker referiu-se à experiência passada.

    "Quando Richard Nixon, por exemplo, se tornou presidente em 1969, ele e Henry Kissinger sabiam que a Guerra do Vietnã não pode ser vencida pelos EUA, mas eles não queriam se responsabilizar por terem sido derrotados. Então continuaram a arrastar a guerra de uma forma ou outra. Então, parte da definição de sucesso aqui para o Trump também não é assumir a responsabilidade pela saída das forças dos EUA do Afeganistão, que seria uma derrota aceita", explicou.

    "A segunda motivação em termos do que o sucesso significa é que isso é muito bem sucedido para o Pentágono porque eles estabeleceram bases militares permanentes em um país soberano, no Afeganistão, e sim a maior parte do derramamento de sangue recai sobre os afegãos, talvez 100 mil deles morreram, apesar de a maioria deles nunca ter ouvido nada sobre o World Trade Center e não ter nada a ver com o 11 de Setembro", concluiu Becker.

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    Tags:
    guerra, diplomacia, terrorismo, Khawaja Asif, Brian Becker, Donald Trump, Rússia, Estados Unidos, Paquistão, Afeganistão
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