09:11 23 Agosto 2017
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    Cena de uma rua no distrito de Wan Chai em Hong Kong, 24 de agosto de 2000

    Mãe mata quatro filhos com machado e gera debate sobre desigualdade na China

    © AFP 2017/ PETER PARKS
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    Uma chinesa de 28 anos usou um machado para matar seus quatro filhos e depois cometeu suicídio. Duas semanas mais tarde, seu marido também se matou. Para além do sensacionalismo barato, o trágico relato levantou um importante debate na China a respeito do abismo social que separa ricos e pobres.

    Explica-se: segundo relatos locais, a família da jovem Yang Gailan era uma das mais pobres do vilarejo de Agushan, mas ainda assim não conseguiu que o comitê local lhe aprovasse o recebimento de um pequeno subsídio do governo. E a justificativa usada pelo comitê foi a de que a renda anual da família, por pessoa, colocava-a acima da linha de pobreza de 2.300 yuans por ano – o equivalente a cerca de US$ 343. 

    Vários relatos da mídia local, entretanto, afirmam que a corrupção foi um fator determinante na tragédia, e que o subsídio financeiro à família tinha sido cancelado porque ela não havia subornado os funcionários locais.

    Segundo a polícia da província noroeste chinesa de Gansu, Yang assassinou com um machado suas três filhas, com idades de 6, 5 e 3 anos, bem como seu filho, de 5, e se matou em seguida bebendo pesticidas. Seu marido, Li Keying, se envenenou duas semanas mais tarde, após os funerais.

    A história chocante gerou um grande debate no país, especialmente nas redes sociais."A nossa é uma sociedade brutal, devoradora de homens", diz um cartaz publicado no Weibo (rede social chinesa semelhante ao Twitter) nesta terça-feira.

    A situação "reflete exatamente a realidade dolorosa da extensão da pobreza na China", escreveu por sua vez Xiang Songzuo, economista-chefe do Banco Agrícola da China, em sua própria conta na rede social.

    "De um lado estão os funcionários corruptos desviando centenas de milhões em cada turno e os ricos gastando milhares todos os dias, lutando para comparar quem pode gastar mais, enquanto do outro lado estão aqueles em situação de tamanha pobreza que perdem a esperança de viver".

    Yang, Li e seus quatro filhos moravam com a avó e o pai de Yang em um pequeno casebre com piso de terra e seus bens mais valiosos eram três vacas e 12 frangos, segundo relata o jornal China Youth Daily.

    Yang ainda estava viva e conseguia falar quando sua avó a encontrou deitada na grama, ao lado de uma garrafa vazia de pesticidas, vestígios de sangue e os corpos de seus quatro filhos. Ainda de acordo com a publicação, a mulher foi levada para um hospital local e, embora não tenha chegado a recusar o tratamento, não parou de repetir uma única frase: "não me salvem".

    A China relaxou sua rígida política de filho único no início deste ano para permitir que as famílias do país tenham dois filhos cada, mas mesmo durante as décadas em que esteve em vigor, a política permitia que as famílias rurais tivessem dois filhos se o primeiro fosse uma menina.

    Em muitos casos, principalmente em áreas rurais remotas como Agushan, onde faltam os recursos para que o governo garanta o cumprimento rigoroso da lei, as famílias não raro acabam tendo mais filhos do que o permitido.

    O crescimento relativamente recente da China elevou o país ao status de segunda maior economia do mundo, mas a desigualdade permanece avassaladora. Segundo estatísticas levantadas pelo Global Times, 70 milhões de chineses vivem atualmente abaixo da linha da pobreza, principalmente nas áreas rurais.

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    suicídio, redes sociais, filhos, mãe, assassinato, corrupção, economia, política de filho único, linha de pobreza, desigualdade, pobreza, Yang Gailan, Agushan, China
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