Jair Bolsonaro cumprimenta seus apoiadores ao colocar voto no segundo turno das presidenciais no Brasil, em 28 de outubro de 2018

Brasilianista enxerga chance de Bolsonaro 'ser muito corrigido' pelo establishment

© REUTERS / Pilar Olivares
Análise
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Ekaterina Nenakhova
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Após a eleição histórica de Bolsonaro no pleito de ontem, muitos eleitores, especialmente os que não votaram no candidato, se questionam se a retórica da campanha do futuro líder se aplicará realmente nas políticas conduzidas, ou se abrandará para atender às necessidades de todos os grupos sociais.

Com uma diferença superior a 10% entre os dois adversários e em meio à abstenção extrema do eleitorado, a acirrada corrida presidencial de 2018 acabou com a vitória de Jair Bolsonaro. Em uma conversa com a Sputnik Brasil, a brasilianista e especialista em assuntos latino-americanos, professora titular da Universidade de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), Lyudmila Okuneva, chamou atenção ao número de pessoas que decidiram não manifestar apoio nem ao candidato de direita, nem ao petista Fernando Haddad.

"Teve um enorme número de abstenções. Além disso, mais de 10% votaram em branco ou nulo, enquanto mais de 20% não compareceram às urnas. […] Já foi observado que se somarmos todos os brancos e nulos, corresponderá à população de tal país como Portugal [mais de 11 milhões]. Em toda a época de democratização, é a maior taxa de abstenção", sublinha a interlocutora da Sputnik.

A especialista também confessou ter se surpreendido com o pronunciamento da vitória do presidente eleito, onde falou muito sobre respeito à democracia e à Constituição, enquanto durante a corrida eleitoral "de fato tinha demonstrado desprezo" à lei principal.

"Primeiro pronunciamento dele faz reverência à democracia, à Constituição, a um Brasil próspero e a um Brasil grande. Tudo lá soou bem, nem dá para criticar. […] Ao mesmo tempo, um presidente que está chegando ao poder não pode falar algo do tipo — vou expulsar metade do país, claro que não", analisou Lyudmila Okuneva.

Isto, na opinião da brasilianista, pode ser um sinal do futuro abrandamento da retórica do chefe de Estado eleito com o seu encaixamento no sistema político brasileiro e existência de certos pesos e contrapesos no poder.

"Acredito que alguém o instruirá agora, me parece que quando ele estiver no establishment, quando começar a composição do governo […] aqui pode passar a ser muito corrigido. E, talvez, nesse caso, chegue ao poder um político comum, e todo mundo se pergunte: 'Por que o criticamos tanto?'. Isso também pode acontecer", avaliou a especialista à Sputnik.

Contudo, frisa a entrevistada, por enquanto é muito cedo para fazer quaisquer previsões. A única orientação evidente é a via neoliberal apresentada por Paulo Guedes, autor do programa econômico de Bolsonaro e provável ministro da Fazenda no novo governo. Outras "visões mais claras" só aparecerão no período de transição, que, segundo o presidente Temer, começou já a partir de hoje.

Ao falar ainda sobre as principais causas do sucesso do ex-capitão nas eleições, Lyudmila Okuneva opinou que sua não participação nos debates acabou fazendo jogo dele.

"Ele teria muito menos vantagem se tivesse participado dos debates, porque não estava preparado da mesma forma [que o adversário] e ele não sabe formular suas opiniões de modo tão bem como Haddad. Assim, foi mais vantajoso para ele travar uma campanha nas redes sociais, através de vídeos, do Twitter e de declarações mordazes e curtas", analisou.

Quanto à "virada" falha do PT, a brasilianista destacou vários fatores — a escassez de tempo para promover Haddad, a fracassada aliança com os políticos de centro-direita e centro-esquerda e, evidentemente, uma "aversão enorme" para com o Partido dos Trabalhadores entre a população, na sequência de todos os escândalos de corrupção dos anos recentes.

Tags:
novo governo, reformas, PSL, PT, Paulo Guedes, Jair Bolsonaro, Fernando Haddad, Brasil
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