Ex-engenheiro israelense diz que Mossad explodiu peças da usina nuclear iraquiana na França em 1979

Foi revelado que Israel, apoiado pelos EUA, tentou travar, sem sucesso, o apoio de França e de outros países ao Iraque no desenvolvimento de seu programa nuclear.
Sputnik

As tentativas tiveram três fases: primeiro pela diplomacia, seguida pela espionagem e intimidação e, por fim, por ataques de sabotagem em solo francês.

Saddam Hussein, na época vice-presidente do Conselho de Comando do Partido Revolucionário Ba’ath, lançou um projeto conjunto com a França para construção de uma usina nuclear, no início da década de 1970, antes de se tornar presidente do Iraque em 1979. Mesmo com o apoio do presidente estadunidense Jimmy Carter, Israel não conseguiu dissuadir diplomaticamente a França de ajudar a nação árabe.

Agora, um engenheiro atômico israelense revelou que agentes do Mossad, serviço de inteligência israelense, sabotaram equipamento destinado à usina nuclear iraquiana antes de ser exportado da França.

A história por detrás da história

Em seu novo livro de memórias intitulado "The Quiet Sabra" ("O Sabra Silencioso", em português), Micky Ron, um ex-engenheiro no reator de Dimona, em Israel, conta sobre a autoria de Israel de explosões secretas em solo francês.

Ele revela como os agentes explodiram dois núcleos de reatores com destino à usina de Osirak, perto de Bagdá, em 1979, dois anos antes do ataque aéreo Operação Opera de Israel, que destruiu a instalação, também conhecida como Tammuz, antes de sua construção ser concluída.

Ron disse que cientistas da Comissão de Energia Atômica de Israel (IAEC, na sigla em inglês) aconselharam os serviços de inteligência e as Forças Armadas em ambas as operações. Porém, segundo Ron, a operação secreta do Mossad em 1979 falhou porque estes últimos não deram ouvidos aos conselhos dos especialistas.

Sobre a missão

No final de 1977, o novo primeiro-ministro de Israel Menachem Begin, do partido político Likud, pediu ao chefe do Mossad, Yitzhak Hofi, ao comandante das Forças de Defesa de Israel (FDI), o major-general Shlomo Gazit, e ao diretor da IAEC, Uzi Eilam, para encontrarem formas de travar Bagdá de obter energia nuclear – e potencialmente os meios para construção de armas nucleares.

Micky Ron diz que ele e um colega, Matti Halahmi, estavam entre os escolhidos para realizar tamanha missão.

"No escritório do Mossad, analisamos todas as informações que vinham do exterior sobre a construção do reator, para descobrir onde na França eles estavam fabricando as partes, já que o reator em construção era uma cópia exata do reator nuclear central em Saclay em Paris", explicou Ron.

Segundo conta o ex-engenheiro atômico, o Mossad teria conseguido se infiltrar em vários setores da França ligados ao projeto nuclear do Iraque, conseguindo obter os planos do mesmo. A Unidade 8200 grampeava chamadas telefônicas, transmissões de teleimpressor e outras comunicações. Os agentes eram recrutados entre os cerca de dois mil funcionários estrangeiros que trabalhavam no projeto civil iraquiano.

O serviço de inteligência israelense, então, enviava cartas e fazia telefonemas a técnicos, engenheiros, executivos e cientistas franceses e italianos, envolvidos no projeto, "aconselhando-os" para não trabalharem mais no mesmo. Caso se recusassem a fazê-lo, os conselhos viravam ameaças.

Finalmente, em 6 de abril de 1979, os agentes do Mossad receberam a respectiva ordem do premiê e invadiram um depósito da empresa francesa CMIM, em La Seyne-sur-Mer, na costa mediterrânea a oeste de Toulon.

"Fomos informados sobre as operações de fabricação no estaleiro de Toulon", disse Ron. "Um dia, até recebemos informações que mencionavam uma 'sala limpa'. Isso nos levou à conclusão de que era desejável explodir uma parte importante do reator e causar danos para que os franceses precisassem de muitos meses para retomar a construção das estruturas".

Enquanto duas agentes distraiam os seguranças, outros colocavam bombas-relógio em duas estruturas destinadas a serem usadas como núcleos de reator nuclear no reator de Osirak e que deveriam partir para o Iraque em poucos dias.

As explosões danificaram gravemente os núcleos, mas não os destruíram. Algumas horas mais tarde, telefonemas anônimos informaram mídias francesas que o ataque teria sido conduzido por um grupo ambientalista radical, mas as autoridades não acreditaram nessa informação.

Plano B

Após o fracasso da operação em Toulon, foi decidido que a única opção era um ataque direto à usina iraquiana.

Micky Ron conta que lhe tinha sido confiada parte do planejamento para a nova missão – inspecionar o reator francês Osiris em Saclay, um subúrbio de Paris, do qual a instalação de Tammuz era praticamente uma cópia.

No entanto, este novo plano acabou por ser descartado em favor do ataque da Força Aérea israelense em 7 de junho de 1981, do qual resultou a morte de dez militares iraquianos e um contratante francês.

"No dia seguinte à operação, foi realizada uma reunião no Mossad onde expliquei que o bombardeio do reator havia sido muito bem-sucedido e que seria impossível reconstruí-lo", informou Ron.

Contudo, frustrado por não ter sido nomeado diretor das instalações de Dimona, o ex-engenheiro atômico deixou a IAEC em 1982.

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