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    COVID-19 no mundo no final de março de 2021 (98)
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    Em entrevista à Sputnik, Eduardo Crespo, professor da UFRJ, explicou que as consequências sociais e econômicas da COVID-19 na América Latina devem acirrar a polarização político-ideológica entre os países.

    O dia da posse presidencial de Alberto Fernández, 11 de outubro de 2019, guarda uma história curiosa. Enquanto chegavam as delegações internacionais, o representante do governo de Nicolás Maduro, o parlamentar Jorge Rodríguez, era esperado.

    Ele havia sido convidado, mas estava na lista de funcionários venezuelanos vetados pelos países do Grupo de Lima. Até aquele dia, o então presidente argentino Mauricio Macri mantinha uma proibição expressa sobre o ingresso de funcionários do governo de Maduro no país.

    A questão envolvendo Jorge Rodríguez foi resolvida no bom senso. Ele desembarcou em Buenos Aires, foi à cerimônia de posse, e uma foto tirada naquele dia representou muito mais do que a sua participação na solenidade de Alberto Fernández e Cristina Kirchner.

    Ele prestou juramento e a faixa presidencial foi imposta ao novo presidente da Argentina, Alberto Fernández, junto com sua vice-presidente Cristina Kirchner. Em nome do presidente Nicolás Maduro e o povo da Venezuela, acompanhamos o povo argentino neste alvorecer da integração americana.

    Era o primeiro sinal do governo de Fernández com relação ao tratamento que viria a ser adotado para a Venezuela. Dias depois, o argentino tornou sem efeito algumas sanções contra o país governado por Nicolás Maduro. Na tarde de ontem (24), o presidente da Argentina tomou mais uma decisão neste sentido

    "A República Argentina formalizou sua saída do denominado Grupo Lima, considerando que as ações que o grupo vem promovendo em âmbito internacional, visando isolar o governo da Venezuela e seus representantes, não deram em nada".

    A presidente argentina,  Cristina Kirchner, e o presidente Venezuelano, Nicolás Maduro, durante encontro do Mercosul em Caracas, em julho de 2014
    © AFP 2021 / LEO RAMIREZ
    A presidente argentina, Cristina Kirchner, e o presidente Venezuelano, Nicolás Maduro, durante encontro do Mercosul em Caracas, em julho de 2014
    Eduardo Crespo, especialista em política internacional da UFRJ, explicou à Sputnik que, na Argentina, a "resistência já era grande ao Grupo de Lima", e após a entidade não ter se posicionado sobre o golpe na Bolívia, o apoio ao bloco se tornou insustentável.

    Grupo de Lima 

    Formado em 2017 por iniciativa do governo peruano sob a justificativa de "denunciar a ruptura da ordem democrática na Venezuela", o Grupo de Lima é formado por 13 países, incluindo Brasil, Colômbia, México, Canadá e Peru. Apesar de não integrarem oficialmente o bloco, os EUA já chegaram a participar de reuniões como ouvintes por videoconferência.

    Ao deixar o bloco, o governo da Argentina reiterou: "A melhor forma de ajudar os venezuelanos é facilitando um diálogo inclusivo que não favoreça nenhum setor em particular, mas sim conseguir eleições aceitas pela maioria com controle internacional".

    Encontro do Grupo de Lima
    © AP Photo / Martin Mejia
    Encontro do Grupo de Lima
    Eduardo Crespo entende que o Grupo de Lima foi "feito em grande medida para insular o governo da Venezuela". Ele ressaltou que, por outro lado, "não houve manifestações muito claras, mesmo na OEA [Organização dos Estados Americanos], com relação ao golpe na Bolívia".

    "Ficou uma situação de defesa parcial e seletiva da democracia e dos direitos humanos. Houve, em muitos setores da América Latina, principalmente na Argentina, rejeição ao papel tanto da OEA quanto do Grupo de Lima [na questão do golpe na Bolívia]. Parece uma coisa feita em função dos EUA, porque isso tudo está precedido pela dissolução da Unasul", afirmou.

    O professor entende que "o Grupo de Lima é uma aliança de direita", e na Argentina há uma resistência grande a isso. Ele ainda cobrou a ausência de manifestações contundentes sobre o golpe na Bolívia, principalmente das principais organizações multilaterais da América Latina.

    Um momento de divisões?

    Questionado se seria o melhor momento para deixar o Grupo de Lima, o professor entende que o momento é de união na América Latina, sobretudo nos esforços para conter as consequências socioeconômicas da pandemia, mas enfatizou que "há muitas feridas para fechar".

    Ele afirmou que este é um período de consenso e fraternidade, e lembrou que a Venezuela ajudou Manaus, no Brasil, e o Chile ajudou o Paraguai. "É o momento para união, mas há muitas feridas para fechar", reiterou.

    Sepultadores carregam caixão com vítima da COVID-19 no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, em 16 de março de 2021
    © Folhapress / Lalo de Almeida
    Sepultadores carregam caixão com vítima da COVID-19 no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, em 16 de março de 2021

    Vale lembrar que no comunicado em que avisou que se retiraria do Grupo de Lima, a chancelaria argentina ainda criticou as sanções e os bloqueios impostos contra o governo venezuelano, "bem como as tentativas de desestabilização", que junto ao contexto da pandemia da COVID-19, "agravaram a situação da população".

    Como o Brasil reagirá?

    Confrontado sobre as possíveis reações do Itamaraty com a saída argentina do Grupo de Lima, Eduardo Crespo observa a questão com ceticismo. Ele entende que o Brasil não pode, no momento, envolver-se em questões internacionais em função dos problemas internos do país. "Você vê manchetes no mundo todo: Brasil é uma ameaça sanitária", afirmou.

    Presidente Jair Bolsonaro durante videoconferência com o Presidente da Argentina, Alberto Fernández, no dia 30 de novembro de 2020
    Presidente Jair Bolsonaro durante videoconferência com o Presidente da Argentina, Alberto Fernández

    "O Bolsonaro tem muitos problemas em casa", afirmou, dizendo em seguida que não acha que a Venezuela possa ser uma preocupação. "O Brasil é centro da pandemia mundial. É o país que mais tem mortos, mais infectados. E há essa nova variante do vírus que está se espalhando pelo país", disse Eduardo Crespo.

    'Uma polarização agravada'

    Apesar de entender que o Brasil não adotará um posicionamento contundente com relação ao futuro do Grupo de Lima, Eduardo Crespo explicou que o acirramento da polarização no continente é iminente. 

    "O continente já estava com uma polarização ideológica. Mas a isso se acrescenta a questão da pandemia e suas consequências econômicas. Eu diria que dificilmente vai se evitar uma polarização política em um contexto onde a economia está muito atingida pela pandemia", afirmou. "É uma polarização agravada pela situação [da COVID-19]", concluiu.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    COVID-19 no mundo no final de março de 2021 (98)

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    Tags:
    Grupo de Lima, Mercosul, relações internacionais, relações estratégicas, Relações diplomáticas, América do Sul, América Latina, COVID-19, Brasil, Argentina
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