13:04 22 Janeiro 2021
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    Donald Trump está prestes a deixar a presidência dos EUA, sendo oportuno e essencial analisar seus quatro anos como diplomata e comandante mais importante americano, e os impactos causados nas relações dos Estados Unidos com todo o mundo.

    Na campanha de 2016, Trump prometeu "acabar com as guerras sem fim", apresentando-se como um isolacionista contrário ao legado institucional de Hillary Clinton, ex-secretária de Estado, ex-senadora e ex-primeira-dama dos EUA, e principal candidata democrata à presidência contra o magnata.

    Trump se considera um grande negociador, tomando sua carreira como empresário de corretagem de negócios com clientes obstinados como uma espécie de trunfo que lhe daria uma capacidade única de suavizar conflitos com os adversários dos EUA.

    Negócios são a minha forma de arte. Outras pessoas pintam lindamente ou escrevem poesia. Gosto de fazer negócios, de preferência grandes negócios. É assim que eu consigo meus estímulos.

    Durante a campanha eleitoral, Trump prometeu colocar a "América [em] primeiro", afirmando que as outras nações, de China a Alemanha e México, estavam se aproveitando dos Estados Unidos e prejudicando os americanos. O republicano chegou até mesmo a culpar os democratas por esse "aproveitamento".

    Europa e Reino Unido

    Os relacionamentos de Trump com os líderes europeus foram caprichosos. Não demorava muito para criticá-los duramente após amizade, assim como fez com o presidente francês Emmanuel Macron.

    Trump chegou a falar da obsolescência da OTAN, pressionando seus membros, em particular a Alemanha, a aumentarem substancialmente seus gastos com defesa. Esta atitude contribuiu para o desencadear de conversas sobre um exército independente para a União Europeia (UE).

    No entanto, ironicamente, Trump também expandiu substancialmente a presença da OTAN no Leste Europeu, enviando tropas da Alemanha para países na fronteira com a Rússia e construindo instalações na Polônia. Enquanto isso, o Reino Unido, aliado mais próximo dos EUA na Europa, passou por imensos debates sobre como sair da UE.

    Por um lado, Trump encorajou Londres a "ir embora" se Bruxelas não lhe desse um acordo pós-Brexit justo, mas ao mesmo tempo rejeitou qualquer ideia de assinar com o Reino Unido um acordo de livre comércio separado com os EUA. Ainda assim, a "relação especial" dos dois países perdurou.

    Irã e Oriente Médio

    No que toca ao Oriente Médio, centro da atividade militar dos EUA nos últimos 30 anos, Trump mudou por completo todas as políticas em relação à região, especialmente com o Irã.

    Em 2018, Trump retirou unilateralmente os EUA do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês), um acordo assinado pelos Estados Unidos, Irã, França, Alemanha, Reino Unido, UE, Rússia e China, em 2015, que visava desistência do Irã de construir armas nucleares em troca do cancelamento das sanções econômicas.

    Trump alegou que o Irã havia violado secretamente o acordo nuclear, apesar de inspetores nucleares não conseguirem encontrar provas para suas alegações. Isto criou fricções entre os EUA e muitos de seus aliados, que continuaram adeptos ao acordo por não acreditarem na violação iraniana, e pelo acordo ser benéfico economicamente.

    As tensões com a nação persa aumentaram ainda mais depois que Trump designou o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) do Irã como organização terrorista, novamente sem qualquer prova concreta. Em 3 de janeiro de 2020, Trump autorizou o assassinato do major-general Qassem Soleimani em um ataque de drones no Iraque.

    Procissão fúnebre do major-general iraniano Qassem Soleimani, morto no Iraque em 3 de janeiro após ataque organizado por Washington, 6 de janeiro de 2020
    © REUTERS / Agência de notícias WANA
    Procissão fúnebre do major-general iraniano Qassem Soleimani, morto no Iraque em 3 de janeiro após ataque organizado por Washington, 6 de janeiro de 2020
    Dias após a morte de Soleimani, o Irã se vingou com um ataque de mísseis balísticos às bases aéreas de Ain Al-Asad e Arbil no Iraque, ferindo mais de 100 soldados americanos instalados nas bases.

    No Iraque, devido ao assassinato de Soleimani, feito sem permissão prévia para um ataque de Bagdá, o Parlamento iraquiano exigiu que as tropas americanas fossem embora – um pedido que Trump não respeitou completamente.

    Na Síria, as forças norte-americanas mataram o líder do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi, tendo Trump anunciado fim da guerra internacional contra a organização terrorista, que é proibida na Rússia e em muitos outros países. No entanto, apesar das promessas de levar os soldados americanos para casa, os EUA permaneceram na guerra civil síria.

    Israel

    O relacionamento dos EUA com Israel só ganhou força, começando com reconhecimento de Trump de Jerusalém como capital israelense, bem como a anexação das Colinas de Golã da Síria.

    A administração Trump também foi fundamental para a conquista de um reconhecimento diplomático sem precedentes para Israel em todo o mundo árabe.

    Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, junto a Donald Trump, presidente dos EUA, após assinar os Acordos de Abraão
    © REUTERS / Tom Brenner
    Donald Trump e Benjamin Netanyahu, líderes de EUA e Israel, respetivamente
    Com o chamado "acordo do século", Israel viu nos planos comerciais sua oportunidade para estender sua soberania sobre partes da Cisjordânia em troca da normalização das relações diplomáticas com os Emirados Árabes Unidos, que foram rapidamente seguidas pelo Qatar, Bahrein, Sudão e Marrocos.

    No entanto, o acordo falhou em resolver o conflito entre Israel e Palestina, pois as várias iniciativas de melhoria de infraestrutura foram criticadas por não abordarem qualquer uma das questões – sociais – subjacentes à disputa.

    Afeganistão

    No Afeganistão, Trump supervisionou um acordo de paz com o movimento militante Talibã (grupo terrorista proibido na Rússia e em outros países), mas um acordo separado entre o último e o governo de Cabul, apoiado pelos EUA, ainda não foi concretizado.

    "Parece que os círculos de formulação de políticas dos Estados Unidos estão chegando a um consenso de que a guerra não pode ser vencida de forma decisiva por meios militares, [mas antes] deve haver uma solução política", disse Umer Karim, pesquisador do Instituto Real dos Serviços Unidos, de Londres.

    República Popular Democrática da Coreia

    A relação dos EUA com a Coreia do Norte foi talvez a mais dinâmica de todas durante a administração de Trump.

    Tudo começou com Trump ameaçando bombardear a Coreia do Norte em retaliação por teste de armas termonucleares e testes de mísseis balísticos, que entretanto mudou seu discurso para uma política de negociação e reconciliação, e que terminou em uma distensão cada vez mais tensa depois que as negociações pararam.

    "O governo Trump alcançou seu objetivo principal de fazer com que os norte-coreanos parassem de ameaçar os Estados Unidos com suposto desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais e testes nucleares. Na verdade, isso aumentou a posição política interna do presidente Trump e, sem dúvida, é uma conquista importante na política externa dos EUA, embora muitos dos oponentes de Trump neguem que seja esse o caso. No entanto, o mais importante é que o presidente Trump removeu uma 'peça de xadrez' fundamental do arsenal geoestratégico da China, garantindo que a ameaça da Coreia do Norte fosse 'neutralizada' enquanto ele enfrentava os chineses”, explicou Victor Teo, membro do Projeto Guerra Fria da CRASSH, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

    Federação da Rússia

    O relacionamento de Trump com a Rússia o acompanha desde que se tornou presidente, com democratas atribuindo a vitória eleitoral dele à suposta interferência russa nas eleições de 2016.

    Ao contrário das afirmações infundadas por parte do Partido Democrata de que Trump estaria sendo controlado pelo presidente russo Vladimir Putin, por estar sendo "suave" com a Rússia, o fato é que as relações EUA-Rússia apenas pioraram.

    Em dezembro de 2017, a Casa Branca deu início a uma mudança nas estratégias política e militar dos EUA com foco na "competição de grandes potências", classificando a Rússia e a China como potências "revisionistas" que pretendiam derrubar a ordem mundial liderada pelos EUA, o que constituía uma ameaça maior para os EUA do que grupos terroristas internacionais.
    Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Donald Trump, em novembro de 2018.
    © Sputnik / Vladimir Astapkovich
    Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Donald Trump, em novembro de 2018.

    Deste modo, os EUA introduziram mais sanções contra a Rússia do que qualquer presidente americano anterior, incluindo o Ato Contra Adversários da América Através de Sanções (CAATSA, na sigla em inglês), punindo os países que comprassem tecnologia de defesa avançada de empresas russas, iranianas ou norte-coreanas.

    Igualmente, Trump tentou criar discórdia entre a Rússia e países europeus como a Alemanha, pressionando Berlim a comprar gás natural liquefeito dos EUA e ameaçando sancionar a Alemanha pelo gasoduto Nord Stream II, que já está quase completo. No final, Trump acabou sem sucesso.

    República Popular da China

    As tensões entre China e EUA têm aumentado cada vez mais, partindo de acusações de que a China estaria se aproveitando das regras comerciais dos EUA, o que levou à imposição de enormes tarifas sobre as importações chinesas.

    Em fevereiro de 2020, a primeira fase de um acordo comercial prometia o fim da guerra comercial, mas o início da pandemia da COVID-19 frustrou severamente a adesão aos objetivos do acordo.

    Na verdade, Trump tentou alegar que a pandemia seria culpa da China, sugerindo que Pequim permitiu, propositalmente, que a população dos EUA fosse infectada para minar o sucesso de sua administração, afirmando que Pequim manipulou a Organização Mundial da Saúde e suas próprias estatísticas para ocultar os perigos da COVID-19.

    Em meio a guerra comercial e pandemia, surgiram várias alegações paralelas sobre gigantes tecnológicas chinesas, como a Huawei, que estariam sendo manipuladas pelo Partido Comunista da China, de modo a espionar os usuários de seus dispositivos, o que levou à criação de uma lista negra de dezenas de empresas chinesas.

    De Taiwan a Hong Kong e mar do Sul da China, a administração Trump se moveu para reforçar o sentimento anti-Pequim, bem como minar as atividades chinesas em nome da defesa da "ordem baseada em regras internacionais".

    Venezuela

    Mesmo antes de os EUA anunciarem apoio ao autoproclamado presidente interino, Juan Guaidó, em janeiro de 2019, Trump já agia contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, bombardeando com sanções o governo bolivariano que, por sua vez, viu seu comércio exterior desmoronar.

    Estas sanções, por si só, mataram dezenas de milhares de pessoas e paralisaram a economia da nação sul-americana, tudo em uma tentativa de forçar o povo venezuelano a derrubar Maduro e o movimento socialista chavista.

    O apoio de Trump a Guaidó e a nomeação de Elliott Abrams como enviado especial à Venezuela – um homem que escapou por pouco da prisão por burlar a lei dos EUA para canalizar armas para guerrilheiros de direita na América Central na década de 1980 – levou para a nação sul-americana uma crise sem precedentes.

    No entanto, com o poder do presidente republicano chegando ao fim, até mesmo outros elementos da oposição venezuelana abandonaram Guaidó, e a popularidade de Maduro apenas aumentou, com as eleições parlamentares de 6 de dezembro terminando na maior vitória já vista do Partido Socialista Unido da Venezuela.

    México e Canadá

    Trump cumpriu sua promessa de renegociar o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês).

    Em janeiro de 2020, as três nações signatárias do acordo haviam elaborado um novo Acordo EUA-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês), atribuindo aos EUA maior acesso ao mercado de lácteos do Canadá, e cotas impostas à produção de automóveis no Canadá e no México, enquanto suspendia as tarifas dos EUA sobre alumínio e aço de ambos os países.

    Trump também adotou uma política contra a imigração ilegal vinda do México e da América Central para os EUA, prometendo construir um muro ao longo de sua fronteira que acabaria com todas as travessias desregulamentadas.

    Caravana de migrantes hondurenhos atravessam o México na direção à fronteira dos EUA
    © Sputnik / Jesus Alvarado
    Caravana de migrantes hondurenhos atravessam o México na direção à fronteira dos EUA

    Ele culpou a Cidade do México por não conseguir lidar com as caravanas de migrantes que viajavam da América Central, exigindo veementemente ao México que cooperasse com a repressão à imigração, senão fecharia totalmente a fronteira.

    No final, o México enviou dezenas de milhares de soldados para a fronteira com os Estados Unidos, bem como para sua fronteira com a Guatemala.

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    Tags:
    relações internacionais, mundo, política externa, Estados Unidos, presidente, Donald Trump
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